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Por volta das 9h15, Marcelo Rebelo de Sousa deixou o Palácio de Belém, cumprimentando oficiais e trabalhadores. Ao som da banda, cantou pela última vez o hino nacional como Presidente da República e dirigiu-se à Assembleia da República, sem prestar declarações à imprensa.
A tomada de posse de António José Seguro ficou marcada por uma cerimónia solene, centrada na estabilidade política, na defesa da democracia e numa mensagem de esperança dirigida aos portugueses. Antes do discurso do novo chefe de Estado, o presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, reforçou a legitimidade eleitoral de Seguro e rejeitou a ideia de crise democrática. Recordou que mais de cinco milhões e meio de portugueses participaram na segunda volta das presidenciais - um dos níveis de mobilização mais elevados de sempre - mesmo num dia de temporais e sondagens antecipando o resultado.
“Os portugueses acreditam no regime democrático”, afirmou José Pedro Aguiar-Branco, sublinhando que os resultados contrariavam teses de polarização ou bloqueio institucional. Destacou que mais de 3,5 milhões de eleitores deram a vitória a Seguro, candidato que defendeu “a necessidade de consensos e de acordos”.
O presidente da Assembleia rejeitou também a ideia de fragmentação parlamentar, lembrando que, desde junho do ano anterior, foram aprovados 269 diplomas na generalidade. “Onde ouvimos fragmentação devíamos ver participação e, onde ouvimos crise, devíamos ver resultados”, disse.
No final, assegurou a lealdade institucional do parlamento ao novo Presidente e, numa referência a Marcelo Rebelo de Sousa, lembrou que “foi sempre igual a si próprio”.
Durante o discurso, a bancada do partido Chega optou por não aplaudir em vários momentos da cerimónia, incluindo quando se referiu à democracia em funcionamento.
O discurso de António José Seguro: “Presidente de Portugal Inteiro”
Seguro iniciou o discurso assumindo a responsabilidade de “servir Portugal como Presidente da República” e prometendo ser “Presidente de Portugal inteiro e de todos os portugueses”, incluindo os que vivem na diáspora. Expressou gratidão a Marcelo Rebelo de Sousa pelos dez anos de mandato e anunciou a condecoração do antecessor com o Grão-Colar da Ordem da Liberdade.
A cerimónia contou com a presença de figuras internacionais, incluindo o rei de Espanha, Filipe VI, cuja presença, segundo Seguro, simboliza os laços de amizade e cooperação entre os dois países. Num momento simbólico, Seguro saudou os Capitães de Abril, que “devolveram a liberdade ao povo português”.
O novo Presidente traçou o retrato de um mundo em mudança, marcado por conflitos, tensões geopolíticas e desafios globais, como alterações climáticas, transição energética e fragilidades económicas. Em paralelo, destacou problemas estruturais em Portugal: crescimento económico insuficiente, desigualdades sociais e dificuldades no acesso à saúde e à habitação.
Entre as prioridades do seu mandato, António José Seguro enfatizou a melhoria da qualidade de vida dos portugueses, o reforço do acesso à saúde e a preservação do Serviço Nacional de Saúde. Defendeu compromissos políticos alargados em áreas estruturais e destacou a necessidade de combater desigualdades, incluindo a discriminação salarial das mulheres. A igualdade de direitos, particularmente para as mulheres, foi um dos temas centrais, sublinhando que existem “linhas vermelhas inultrapassáveis” quando está em causa a essência da democracia.
Num contexto político marcado por instabilidade e sucessivos ciclos eleitorais, apelou à responsabilidade dos partidos e à maturidade democrática, defendendo que o país deve aproveitar os próximos três anos sem eleições nacionais para alcançar soluções duradouras.
Nesse contexto, deixou também um aviso institucional: a rejeição de um Orçamento do Estado não implica automaticamente a dissolução da Assembleia da República, sublinhando que as legislaturas devem ser cumpridas.
António José Seguro abordou ainda os impactos das recentes cheias e do mau tempo, expressando solidariedade às populações afetadas. Citou autores como Thomas Mann e Luís de Camões para reforçar a ideia de que o futuro depende da capacidade coletiva de enfrentar desafios com trabalho e visão. Terminou o discurso com uma mensagem de esperança: “Acreditem em Portugal”, apelando à união, ao diálogo e à superação dos medos para construir “um Portugal renovado, moderno e justo”.
Após a cerimónia, Seguro dirigiu-se ao Mosteiro dos Jerónimos para prestar homenagem a Camões, depositando uma coroa de flores diante da urna do poeta e permanecendo em silêncio, num gesto simbólico.
Entrou, depois, no Palácio de Belém de mãos dadas com a mulher, Margarida Maldonado Freitas, e os filhos, Maria e António, fazendo lembrar o poema de Carlos Drummond de Andrade:
“O presente é tão grande, não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”
Ali, uma das grandes diferenças, Belém deixa de ser o Palácio de um homem só e passa a acolher uma família e um homem que fez questão de ter a família sempre presente.
No interior do Palácio, tornou-se Grão-Mestre das Ordens Honoríficas Portuguesas, recebendo a Banda das Três Ordens da Secretaria-Geral da Presidência. Entre os presentes estavam o rei de Espanha, os presidentes dos PALOP, Marcelo Rebelo de Sousa, o primeiro-ministro Luís Montenegro e a mulher, Carla Montenegro, o presidente da Assembleia e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel.
O primeiro almoço oficial da Presidência contou com pratos típicos, incluindo sopa de peixe, cabrito à portuguesa e sericaia com ameixa, acompanhados por vinho Serra P, da região natal de Seguro. Os jardins do Palácio foram abertos à população à tarde.
Na despedida final de Belém, Marcelo Rebelo de Sousa abraçou Seguro antes de se retirar, entrando num carro cinzento claro, contrastando com as comitivas predominantemente negras.
Comparando o primeiro discurso de Marcelo Rebelo de Sousa em 2016 com o de António José Seguro em 2026, voltamos a lembrar Camões e o poema:
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades.”
Os discursos revelam diferenças de tom e prioridades: Marcelo adotou um registo simbólico e institucional, centrado na história e na coesão nacional, enquanto Seguro optou por um tom mais direto, focado nos desafios atuais, desigualdades e compromisso político. Ambos, porém, convergem na confiança no país: Marcelo defendia que “nunca deixar morrer a esperança”, e Seguro apelou à mobilização nacional: “O futuro não está escrito. O futuro constrói-se com trabalho, com visão e com esperança.”
António José Seguro, que esteve mais de 10 anos afastado da política termina o dia a homenagear o Presidente dos últimos 10 anos visivelmente emocionado. Os dois partem para uma nova vida, resta saber como reagirá o primeiro aos holofotes e o segundo a estar afastado deles.
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