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O Fórum Económico Mundial, WEF, foi inventado em 1971 por um engenheiro alemão, Klaus Schwab, na estância turística de Davos, na Suíça, tem como objectivo “melhorar a situação mundial, colocando em contacto dirigentes económicos, políticos, académicos e outros líderes da sociedade, para dar forma aos objectivos definidores da política e negócios mundiais.”
Os encontros, cada vez mais famosos, reúnem cerca de três mil individualidades, sobretudo investidores, líderes políticos ou de negócios, economistas, celebridades, lobistas e jornalistas. As cerca de 5000 palestras, fóruns, reuniões e “encontros à margem”, durante cinco dias. O WEF é pago sobretudo pelas mais de mil empresas multi-nacionais que apoiam a sua Fundação.
Durante estes anos, o WEF tornou-se, na prática, uma espécie de “ONU dos ricos” com a presença de incontáveis ícones mundiais, como Nelson Mandela, Yasser Arafat ou Boris Yeltsin e até representantes da Coreia do Norte.
(Os portugueses também lá têm ido, como Cláudia Azevedo (Sonae), Pinto Balsemão, Tiago Freire, Mónica Silvares e Ana Batalha Oliveira.
O Fórum tem sido considerado “o lugar onde os 1% decidem a vida dos 99%”, mas a afirmação é certamente exagerada. Afinal de contas é um clube sem poder executivo e não tem uma contribuição visível na situação económica internacional. Provavelmente os grandes negócios definidores da economia de milhões são decididos em reuniões a portas fechadas e encontros bilaterais.
Talvez se possa atribuir ao Fórum a cavalgada para a globalização das últimas décadas, mas concretamente nada de extraordinário costuma vir a público, a não ser quando alguns participantes importantes, como Erdogan, levantam a voz acima do tom moderado geral.
Este ano já se sabia que a presença mais cintilante seria com certeza Donald Trump, não só pelo seu protagonismo incontornável, como pelos assuntos pendentes que traria à baila: colaboração na NATO, anexação da Gronelândia, paz na Ucrânia, interferência na Venezuela e situação no Oriente Médio. E foi exactamente o que aconteceu.
Trump fez um daqueles seus habituais discursos sem nexo e com divagações surpreendentes, num clima de tensão em que outros líderes pela primeira vez assumiram que discordam do Rei. Notável foi o discurso de Mark Carney, o novo primeiro-ministro do Canadá: “Diariamente tomamos consciência que vivemos numa época de rivalidade entre os grandes poderes. A ordem baseada em regras está a desaparecer. Os fortes fazem o que querem e os fracos têm de sofrer as consequências.” (Esta última frase é uma citação do filósofo grego e estratega militar Tucídides.)
As palavras de Trump demonstraram que o modo como os países funcionaram desde 1945 acabou e a América voltou ao que se chama de “diplomacia coerciva”, impondo a sua vontade dependendo de vantagens económicas. Mas, ao contrário do que todos esperavam, Trump recuou na situação da Gronelândia, fazendo valer o pejorativo TACO que os seus desafectos gostam de salientar. Afinal não vai invadir nem ocupar a Gronelândia. Nem impor taxas aduaneiras adicionais aos países europeus que se mostraram fortemente a favor da Dinamarca.
Também ficou claro para os europeus (finalmente!) que não podem continuar a considerar os Estados Unidos como um aliado. Como disse Alexander Stubb, presidente da Finlândia, “A separação é real. Temos de criar novas estratégias sem contador com o nosso aliado. Por enquanto conseguimos desescalar a questão da Gronelândia, mas é evidente que a história não vai ficar por aqui.”
O tratado de 1951, que dá autorização aos norte-americanos para instalar as bases que quiserem, mantém-se. Mas os europeus também estão a enviar meios militares para a Gronelândia, (Não deixa de ser ridículo toda a gente a armar um território com 37.000 habitantes que não está a sofrer nenhuma ameaça concreta da Rússia ou da China.) Quanto à Ucrânia, passou a ser um negócio para os norte-americanos, que vendem os equipamentos aos países europeus, para serem enviados para o teatro de guerra. O próprio Trump teve a lata de o afirmar publicamente, como prova de que é um bom negociante.
Uma atitude de Trump que irritou particularmente os europeus foi declarar que os Estados Unidos são sempre os grandes contribuintes para a NATO. Mark Rutte, Secretário-Geral da Aliança, respondeu-lhe directamente: "Por cada dois norte-americanos que perderam a vida no Afeganistão, morreu um enviado pela NATO. Em termos percentuais, perdemos muito mais vidas.”
A resposta agressiva de Mark Carney foi provocada pela afirmação de Trump de que “o Canadá só existe graças aos Estados Unidos”. Parece impossível, mas foi o que ele disse.
Resumindo, a edição deste ano de DAVOS foi muito mais do que o costume. Uma nova ordem mundial veio acabar com a velha, que, em termos práticos, ainda ninguém sabe como será.
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