Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt

De acordo com o estudo, estima-se também que, a obtenção de informação através de conteúdo criado por criadores de conteúdo (os chamados influenciadores) está em crescimento, sendo que praticamente metade dos inquiridos admite informar-se em algum momento através destes. Consideram-nos menos imparciais, mas mais fáceis de entender, mais cativantes e mais engraçados.

Em paralelo, aponta igualmente o estudo, o interesse em notícias continua a diminuir e a confiança nas notícias atinge o nível mais baixo desde que o Instituto faz estes estudos, sensivelmente há 11 anos.

Pode-se gastar tempo a procurar encontrar os principais acionistas da quota de culpa: o populismo, a falta de financiamento dos média, o mercado da atenção, a descredibilização em consequência de agendas ocultas dos jornais, etc.. Seja qual for, ou sejam todos em conjunto, não se podem prever bons desfechos seguindo este caminho.

Com todos os defeitos e qualidades que o jornalismo tenha, é sempre um bom sintoma de saúde democrática quando os cidadãos confiam no jornalismo e quando os jornalistas conseguem elaborar trabalho que reforce essa confiança.

O que estudo da Reuters atesta, é algo que, de certo modo, confirma aquilo que se estivermos com atenção ao que nos rodeia concluímos rapidamente. Aliás, até talvez estando atentos aos nossos próprios comportamentos. A informação tem perdido terreno para o imediatismo e para o entretenimento de forma galopante. Pior que isso, procuram-se mutuamente para se misturarem e passam muitas vezes a ideia de que são a mesma coisa.

As redações querem competir pela atenção como forma de transmitirem informação e passam a adotar lógicas de um mercado que não foi feito para encaixar nos objetivos nobres do jornalismo. As redes sociais, ou seja, os criadores de conteúdo e muitos, muitos, bots (estima-se que mais de metade do conteúdo que vemos já não é produzido por pessoas, mas por contas automatizadas), pegam na informação produzida nas redações e cortam, colam e recortam conforme for mais pertinente para fazer parar o polegar do scroll incessante.

Como se costuma dizer, o original é sempre melhor que a cópia. E na criação de conteúdos, a informação jornalística navega em águas turvas e para as quais não tem jeito e, na minha opinião, não tem de ter. Acaba por cair em erros atrás de erros. Notícias construídas sem verdadeira verificação de factos, erros ortográficos recorrentes, ausência de capacidade de admitir erros. Cometem os erros, divulgam informação que se verifica posteriormente ser falsa, mas demitem-se de qualquer responsabilidade e não são capazes de fazer um desmentido ou um pedido de desculpas. Não há tempo, é preciso lançar o próximo post com um título chamativo e cuja veracidade do que transmite é irrelevante.

Não é surpreendente que cada vez mais gente opte por “informar-se” através da intermediação de influenciadores e comediantes. Desses pelo menos não se espera verdade nem mentira, porque a única obrigação que têm para com o público e para com as suas próprias contas bancárias é conseguir atingir as metas de likes, comentários e partilhas. Mas o que é que se pode vir a esperar de sociedades que não se preocupa em distinguir factos de ficção?

Junte-se-lhe uma inteligência artificial, à qual se vai perdendo o fio à meada dos desenvolvimentos, e uns algoritmos de redes sociais que cercam os indivíduos nas suas crenças. A dúvida começa a ser: até quando é que iremos conseguir distinguir um facto de uma ficção?

Este é, não tenho dúvidas, um caminho perigoso e que se coaduna com a nossa natureza destrutiva. A verdade, a mentira, a informação, o entretenimento, o real e o fictício, cada vez mais enleados, cada vez mais indistinguíveis e poucos decisores preocupados com isso.

Há um ruído constante, emitido pelos nossos smartphones, que vem conseguindo colocar cada vez mais gente, de todas as idades, literacias e estratos sociais, a dançar ao seu ritmo. Quantos mais dançam mais ficam esquecidas as responsabilidades de preservação das instituições, da cidadania e da democracia. Não acredito que no final tudo vá acabar bem, mas espero estar redondamente enganado.

___

A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil

Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.

Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.