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Há um ano, o silêncio substituiu a vida que ainda resistia no Cais do Ginjal. A zona foi interditada por risco de derrocada, os acessos encerrados e cerca de 50 ocupantes deixaram aquele que, apesar da degradação, continuava a ser casa para alguns e ponto de encontro para muitos. Desde então, pouco mudou no terreno. As obras de reabilitação continuam por iniciar e o futuro de uma das frentes ribeirinhas mais emblemáticas de Almada permanece em aberto.
Foi precisamente na sequência da interdição do Cais do Ginjal e das dúvidas em torno do futuro da frente ribeirinha que nasceu o movimento Ginjal – Memória e Futuro. Constituído por cidadãos ligados ao território, o coletivo defende que a requalificação da zona deve ser acompanhada por um debate público e por um equilíbrio entre o investimento privado, a preservação do património e o interesse coletivo.
Para Teresa Ribeiro e Sónia Pina, duas das fundadoras do movimento, falar do Ginjal implica também olhar para uma parte da sua história que, dizem, ter sido esquecida: a dos últimos anos, em que dezenas de pessoas ocuparam os antigos edifícios devolutos por falta de alternativa habitacional.
"Há uma tendência de dizer que os últimos residentes e moradores do Ginjal reportam há 10 anos atrás. Isso foi algo que se foi assumindo por defeito", afirma Teresa Ribeiro em entrevista ao 24notícias.
Segundo explica, durante cerca de uma década várias pessoas viveram naquele espaço degradado, uma realidade que considera não poder ser apagada da memória do território.
"Esse período histórico não deve ser omitido da realidade. A história é até ao fecho das portas, que foi a 10 de abril de 2025", sublinha.
Teresa Ribeiro acompanhou de perto esse processo. Após a retirada dos ocupantes, as cerca de 50 pessoas foram encaminhadas para a Escola Secundária Anselmo de Andrade, onde permaneceram temporariamente em camas de campanha.
"Era suposto ficarem mais tempo, mas houve bastante insatisfação. As pessoas estavam realmente em condições precárias, todas no mesmo espaço, sem privacidade nenhuma", recorda.
Segundo a representante do movimento, o período de permanência na escola acabou por ser encurtado e cada caso passou a ser acompanhado individualmente pelos serviços competentes. Algumas pessoas foram encaminhadas para o parque de campismo da Costa da Caparica, outras para quartos arrendados ou pensões em Cacilhas e Almada Velha.
Apesar de reconhecer que foi procurada uma solução para cada agregado, Teresa Ribeiro considera que o processo teve um custo social elevado.
"Havia ali uma comunidade com ligações muito interessantes, muito positivas, e tudo isso foi deslaçando", afirma, acrescentando que algumas das pessoas desalojadas continuam ainda hoje em situação provisória, à espera de uma solução habitacional definitiva.
As perguntas que continuam sem resposta
Se, do ponto de vista social, o despejo marcou o fim de uma comunidade, do ponto de vista urbanístico, o movimento considera que o último ano trouxe mais dúvidas do que respostas.
Sónia Pina diz ter sido surpreendida pelas demolições realizadas após a interdição do espaço e questiona o impacto dessas intervenções no património que o próprio projeto previa preservar.
"O Ginjal é uma zona que, apesar de ter uma parte privada, também contribuiu muito para a história e para a economia de Almada. Neste momento, gostaríamos de ter respostas sobre essa parte do projeto", afirma.
A requalificação do Cais do Ginjal foi aprovada pela Câmara Municipal de Almada em 2020 e prevê um investimento de cerca de 300 milhões de euros, maioritariamente assegurado pelo Grupo AFA, proprietário de aproximadamente 90% dos terrenos e edifícios da frente ribeirinha. O plano contempla habitação, um hotel, comércio, serviços e equipamentos culturais e sociais, mas a sua concretização continua por arrancar.
Questionado pelo 24notícias sobre o estado do projeto, o Grupo AFA afirma manter "o compromisso com o desenvolvimento e valorização do Cais do Ginjal", que descreve como "um projeto estruturante para a regeneração daquela frente ribeirinha". O promotor refere que a intervenção inclui um complexo habitacional, comércio e serviços, um hotel, equipamentos sociais, estacionamento, a requalificação integral do cais, a criação de jardins públicos e a valorização das zonas de lazer.
A empresa acrescenta que, desde que adquiriu os terrenos, tem acompanhado a situação do Cais do Ginjal "em articulação com as entidades competentes", procurando contribuir para garantir as condições de segurança da área. Quanto ao início das obras, afirma que a execução arrancará "assim que estejam reunidas as condições legais e administrativas necessárias".
O 24notícias contactou também a Câmara Municipal de Almada para obter esclarecimentos sobre o estado do processo de reabilitação, as alterações ao projeto e o balanço feito um ano após a desocupação do Cais do Ginjal, mas não obteve resposta até à publicação deste artigo.
O movimento lembra, contudo, que o projeto anunciado foi entretanto considerado excessivo pela própria autarquia. Na altura, a presidente da Câmara Municipal de Almada, Inês de Medeiros, admitiu rever a proposta, nomeadamente através da redução da componente residencial.
"Até ao momento continuam por divulgar as alterações introduzidas, o número definitivo de fogos, os estudos de impacto ambiental e as restantes opções urbanísticas que irão definir o futuro desta frente ribeirinha", refere o coletivo.
O diálogo que tarda em acontecer
Para além das alterações ao projeto, o movimento diz continuar sem respostas sobre o processo. Segundo Sónia Pina, os pedidos de reunião e de esclarecimento enviados à Câmara Municipal de Almada não tiveram, até ao momento, seguimento.
"Sabemos que foram feitas alterações ao projeto, ou que pelo menos estão previstas alterações, na sequência da avaliação de impacto ambiental. Mas o que está definido? Que alterações foram feitas?", questiona.
A ausência de informação leva o coletivo a falar numa falta de transparência. "O que reivindicamos é um momento em que possamos colocar as perguntas e saber efetivamente o que vai acontecer ali", afirma Sónia Pina, acrescentando que o movimento pretende compreender de que forma a intervenção beneficiará também quem vive e trabalha em Almada.
"Sabemos que o projeto vai ter um enorme impacto na vida das pessoas de Cacilhas", diz. "Queremos saber em que medida é que este projeto também se dirige às pessoas autóctones, que são de Cacilhas, que são de Almada. Neste momento não temos quaisquer respostas a esse respeito".
Teresa Ribeiro faz questão de sublinhar que o movimento não defende a manutenção do Ginjal tal como está nem pretende travar a sua reabilitação. "Não se trata de um movimento nostálgico ou saudosista", afirma. "É possível preservar o património e, ao mesmo tempo, construir o futuro".
A representante lembra que o projeto inicialmente aprovado percorreu um longo processo de planeamento, que incluiu estudos, a elaboração de um Plano de Pormenor, a apresentação pública da proposta e um período de consulta pública. Contudo, diz que a versão atualmente em desenvolvimento já não corresponde à que foi apresentada nessa altura.
"Sabemos que existem algumas alterações. Algumas até soam muito bem, porque se fala em menos área habitacional e mais espaços verdes. Ótimo, esperamos que assim seja", refere. "Mas precisamos de factos. Precisamos de refletir e de dialogar".
É precisamente essa falta de informação que, segundo Teresa Ribeiro, está na origem da criação do movimento. "O que está a acontecer é uma falta de transparência e uma falta de diálogo", conclui.
Que Ginjal ficará para os almadenses?
Outra das preocupações do movimento prende-se com o equilíbrio entre o investimento privado e a utilização pública da frente ribeirinha. Para Sónia Pina, importa perceber que benefícios concretos trará o projeto para a população de Almada.
"Temos a parte da componente privada daquele lugar, mas é preciso perceber que o rio pertence a toda a gente", afirma. Na sua perspetiva, a circulação automóvel prevista, os acessos ao parque de estacionamento e a futura ocupação da área poderão aumentar a pressão sobre um território já limitado do ponto de vista físico e ambiental.
A representante questiona também quem beneficiará das novas habitações previstas. "Imaginamos que essas casas não sejam particularmente baratas e acessíveis à população que hoje vive em Almada", diz, acrescentando que a principal dúvida do movimento permanece: "O que é que fica realmente para as pessoas de Almada?"
Enquanto aguardam uma resposta ao pedido de audiência dirigido à Câmara Municipal de Almada, as representantes do movimento garantem que a mobilização vai continuar. O manifesto lançado pelo coletivo reúne já cerca de 600 assinaturas, entre subscrições digitais e em papel, e novas iniciativas estão a ser preparadas.
"Entendemos que, se não intervirmos já, pelo menos para obter estas respostas, depois poderá ser tarde demais, quando estiver já tudo construído", afirma Sónia Pina.
Teresa Ribeiro considera que o futuro do Ginjal ultrapassa os limites da frente ribeirinha e reflete desafios que se repetem um pouco por todo o país. "O Ginjal merece toda a atenção pelas questões que aqui estão alinhadas", diz. "Infelizmente, esta é uma realidade nacional em que estamos a perder o acesso às nossas zonas premium".
Para o movimento, o debate não se resume à reabilitação de um espaço degradado, mas ao modelo de cidade que se pretende construir e a quem essa transformação se destina.
"Portugal tem as praias, o sol, o bom tempo. Esse é o nosso ouro, são os nossos recursos", afirma Sónia Pina. "Mas, com isto tudo, onde é que nós ficamos?"
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