Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt

Depois de liderar a recuperação económica no período pós-pandemia, o turismo português começa a entrar numa fase de maior maturidade. Os mais recentes dados da Conta Satélite do Turismo, divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), mostram que o setor continua a bater recordes em valor absoluto, mas já não tem o mesmo peso na evolução da economia nacional.

Em 2025, o turismo gerou 36,2 mil milhões de euros, o equivalente a 11,8% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto o Valor Acrescentado Bruto (VAB) diretamente associado ao setor atingiu 21,5 mil milhões de euros, representando 8,1% do total nacional. Apesar destes números, o impacto do turismo no crescimento económico caiu significativamente: depois de contribuir com 3,6 pontos percentuais para o crescimento do PIB em 2022, o setor passou para 1,2 pontos em 2023, 0,4 pontos em 2024 e apenas 0,3 pontos em 2025.

Para o economista Miguel Andrade, especialista em Economia Internacional, esta desaceleração não significa necessariamente que o turismo esteja a perder importância. "É importante distinguir duas realidades. O turismo continua a crescer e continua a ser um dos pilares da economia portuguesa. O que diminuiu foi o seu peso relativo no crescimento, porque outros setores começaram finalmente a acelerar", salienta o profissional do Montepio.

turismo
turismo créditos: INE

Na sua perspetiva, Portugal esteve durante vários anos excessivamente dependente do desempenho do turismo, sobretudo depois da pandemia, quando o setor foi responsável por uma parte significativa da recuperação económica.

"Quando um único setor concentra uma parte tão grande da criação de riqueza, a economia fica mais vulnerável. Basta uma crise sanitária, uma recessão internacional ou uma quebra na procura para o impacto ser imediato, como aconteceu em 2020", diz, considerando que o atual abrandamento pode representar uma oportunidade para equilibrar a estrutura económica portuguesa.

"Se esta perda de peso resultar de uma menor competitividade, de preços demasiado elevados ou de uma quebra da procura internacional, então teremos um problema sério. Mas se for consequência do crescimento de outros setores, isso significa que Portugal está finalmente a reduzir uma dependência que vários economistas vinham apontando há anos"Miguel Andrade, economista

"O cenário ideal não é um turismo mais fraco. É um turismo que continua forte, mas acompanhado por uma indústria mais competitiva, mais empresas tecnológicas, mais exportações de bens e serviços de elevado valor acrescentado. Quanto mais diversificada for a economia, maior será a sua capacidade para resistir a choques externos", refere.

Os dados do INE parecem apontar precisamente para essa evolução. Embora o consumo turístico tenha aumentado 4,9% em 2025 e continue a representar 16,1% do PIB, esse crescimento ficou abaixo da evolução da economia no seu conjunto, sinalizando que outros setores estão a ganhar protagonismo.

Ainda assim, Miguel Andrade aponta que nem todas as desacelerações são positivas. "Se esta perda de peso resultar de uma menor competitividade, de preços demasiado elevados ou de uma quebra da procura internacional, então teremos um problema sério. Mas se for consequência do crescimento de outros setores, isso significa que Portugal está finalmente a reduzir uma dependência que vários economistas vinham apontando há anos", afirma o especialista.

turismo
turismo créditos: INE

O economista lembra que o turismo continuará a desempenhar um papel central na economia nacional, sobretudo em regiões como o Algarve, a Madeira ou Lisboa, mas defende que o país deve aproveitar as receitas geradas pelo setor para preparar o futuro.

"O turismo deve ser encarado como um motor de financiamento do desenvolvimento. As receitas fiscais e privadas que gera devem servir para investir em inovação, qualificação dos trabalhadores, investigação científica e reindustrialização. Só assim Portugal conseguirá manter um crescimento sustentado nas próximas décadas", diz.

Apesar da desaceleração do seu contributo para o crescimento económico, o turismo continua a ser um dos maiores empregadores do país e uma das principais fontes de exportação de serviços. Para Miguel Andrade, o desafio já não passa por aumentar indefinidamente o número de turistas, mas por criar uma economia capaz de crescer de forma equilibrada, sem depender excessivamente de um único setor.

"O verdadeiro sucesso será quando Portugal conseguir continuar a receber milhões de turistas todos os anos, mas deixar de depender exclusivamente deles para crescer", conclui.

A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil

Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.

Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.