Antigamente, isto é até ao fim da II Guerra Mundial, quando o governo de um país fascista ou comunista queria acabar com a liberdade das pessoas dizerem ou escreverem o que lhe apetecia, fechava o órgão de informação e fazia desaparecer os prevaricadores.
Hoje, estes métodos estão completamente desacreditados, uma vez que não há países fascistas nem comunistas (com as poucas exceções que conhecemos); os países são todos democratas, sendo que a democracia tem várias nuances, entre elas a de se chamar democracia só de nome. Há as totalitárias, as autocráticas, as iliberais, que é tudo a mesma coisa: não existe liberdade de expressão. O método para conseguir este milagre – as pessoas podem falar, mas não falam, é económico, isto é, muito mais subtil e sem violência física ou sangue derramado.
É isto que está a acontecer agora, neste momento, nos EUA, o país que até há seis meses atrás se arvorava como o campeão mundial da liberdade. Nós aqui, a assistir em direto (hoje, tudo acontece em tempo real), custa-nos a admitir uma coisa que parecia impossível, devido à estrutura política americana ter uma característica chamada “checks and balances” (“verificações e equilíbrios”) que consistia, basicamente na separação dos quatro poderes, judicial, legislativo, executivo e informativo. Cada um desses poderes tinha autonomia e não podia interferir na autonomia dos outros, sendo o confronto igualitário entre eles a garantia de que nenhum se podia sobrepor.
Não podia? Ai não, que não podia! Entra em cena Donald Trump, empresário oficialmente desonesto (isto é, com processos transitados em julgado), figura física e moralmente parecida com um vilão do Batman e que, através de um processo formalmente legal transformou a legalidade a seu favor. Por alguma razão lhe chamaram “monarca absoluto” e coloco isto no passado, porque hoje já não convém a ninguém dizê-lo publicamente.
O processo andava a ser montado há anos e tem até um livro, “Projeto 2025” que o explica ao pormenor em 800 páginas. (Não foi traduzido em português, mas pode encontrá-lo aqui. )
Vejamos então como é que “a coisa” foi e está a ser feita.
No seu primeiro mandato presidencial (2017-21) o acaso e uma ajuda do Senado que não vou explicar agora, senão isto nunca mais acaba, Trump conseguiu nomear uma maioria de juízes para o Supremo Tribunal Federal.
Entretanto as eleições para o Congresso deram ao Partido Republicano 53 senadores e 47 democratas no Senado e 219 republicanos e 213 democratas na Câmara de Representantes. Portanto, Trump tem maiorias nas duas câmaras, mas, como são pequenas, em tempos normais poderia perder algumas votações. Mas estes não são tempos normais e os republicanos, que têm um medo absoluto que Trump não os apoie na próxima eleição, votam tudo o que ele quer. Mais ainda, não se pronuncia quando ele decide sozinho fazer alguma coisa, dando-lhe carta branca.
Portanto, tem o judicial e o legislativo na mão. No executivo, que é ele e 21 Secretários de Estado (Ministros) absolutamente subservientes, também está à vontade. (Há um vídeo de uma reunião do gabinete em que cada um deles se dirige a Trump, chamando-o de “Sol” e de “Salvador da América”, acho que nem na Coreia do Norte acontece uma encenação deste calibre).
Porque escolheu os seus secretários segundo um critério de fidelidade e não de competência, dois ou três tiveram problemas a ser endossados pelo Congresso, mas foi um problema menor. Alguns, aliás, quase todos, são considerados pelos seus pares na área de competência como um perigo ou um disparate. Destaque para Kennedy Jr., na Saúde, que quer acabar com a vacinação de crianças e com o flúor da água de consumo, ou Kash Pattel, o Director do FBI, que tem um livro publicado a dizer que o FBI devia acabar. O FBI é tutelado pela Secretária dos Assuntos Internos, Pam Bondi, que costuma responder a perguntas difíceis com “a minha missão é cumprir a vontade do Presidente Trump".
Houve o caso esporádico da nomeação de Elon Musk, que tinha financiado a campanha Trump com 227 milhões de dólares, para um cargo novo, para-legal, o Departamento de Eficiência Governamental – DOGE. Durante os poucos meses que esteve à frente do DOGE, Musk despediu indiscriminadamente milhares de funcionários de vários serviços públicos, inutilizando completamente alguns, como o de Resposta a Desastres Climáticos, colocando a vida de milhões de pessoas em perigo. Finalmente zangou-se com o Presidente, o que era previsível, dado o superego dos dois.
Também há o caso do ICE, a agência que trata dos imigrantes, e que Stephen Miller transformou numa polícia política. Com a desculpa de que os imigrantes são uma ameaça para o país, Miller deu à ICE uma quota de três mil prisões por dia, levando o terror entre os 40 milhões de estrangeiros que vivem no país, desde humildes trabalhadores a investigadores universitários. Há imagens dos agentes do ICE, que não usam farda mas têm a cabeça tapada com uma balaclava, a prender pessoas a eito no meio da rua. Os detidos desaparecem – não se sabe em que estabelecimento prisional estão, se foram deportados para um campo de concentração em El Salvador, ou para outro na Flórida chamado “Alcatrás com crocodilos”. Os advogados e as famílias às vezes levam semanas para os encontrar, uma vez que não foram levados a um juiz para decidir o seu destino.
Agora com o poder de um monarca absoluto, Trump passou a atacar as grandes empresas de advocacia – têm de trabalhar pro bono para o governo – as universidades – têm que acabar com os programas chamados DEI (Diversidade, Igualdade e Inclusão). A pressão é sempre financeira, o calcanhar de Aquiles tanto dos advogados como dos estabelecimentos de ensino superior, que são subsidiados largamente pelo Estado.
O próprio Trump incluiu-se na administração do Kennedy Center e do Smithonian Institute, o maior museu de ciência e tecnologia do mundo, para ter poder de decisão e de veto sobre o conhecimento e as artes no país.
Agora chegou a vez da comunicação social, o quarto poder que ainda tinha voz activa e dizia o que queria. Como sempre, a arma preferida de Trump é o dinheiro.
Levantou vários processos contra os grandes canais do país, ABC, CBS e NBC (Fox já está no bolso há anos), usando os escritórios de advogados subjugados lá mais atrás, exigindo compensações da ordem dos milhares de milhões. Mas isso não é o pior. O pior é a FCC, a agência federal que tutela as licenças de operação de todos os canais – no país existem milhares de canais locais, que têm contratos com os grandes para transmitir a programação.
A FCC é dirigida por Brendan Carr, um dos autores do Projeto 2025, que deu força às estações locais para fazer frente aos canais nacionais que, segundo ele, só fazem programação de esquerda. É ele que decide se uma estação tem licença para operar, uma decisão de vida ou de morte.
As estações locais pertencem a grandes grupos de comunicação de que nunca ninguém ouviu falar, mas que são geralmente conservadores e não querem chatices com o regulador. Além disso, neste momento estão em processos de fusão que têm de ser autorizados pela FCC.
Um desses gigantes é a Nexstar, que está prestes a fundir-se com a Tegan, um negócio de 6,2 mil milhões de dólares. O processo criaria um conglomerado com 263 emissoras de TV em 44 Estados.
Há dois meses, a CBS estava a planear uma fusão com a Paramount Skydance, que implicava a bênção de Carr. Resultado: Stephen Colbert, um dos mais inteligentes e populares apresentadores da América, foi cancelado da grelha da CBS por “tempo indeterminado”.
Poucos dias depois, Trump postou na sua Truth Social: “Colbert, não se vai notar a falta, porque ninguém o via. E Jimmy Kimmel é o PRÓXIMO a desaparecer da Corrida de Falta de Talento dos programas noturnos.”
Jimmy Kimmel, que ainda vivia nuns Estados Unidos que já acabaram, falou do despedimento de Colbert no programa seguinte, e teceu esta consideração: “Ficou satisfeito por ainda ter o meu espetáculo.”
Kimmel trabalha da ABC, dirigida, tal como a Disney, pelo famoso Robert A. Iger, um dos muito grandes da media do país. Impávido, Kimmel no programa seguinte fez comentários sobre o assassinato de Charlie Kirk. Mostrou um vídeo em que Trump, quando lhe perguntaram sobre Kirk, disse que lamentava e de seguida, sem uma pausa, começou a falar do “fabuloso” salão de baile que está a construir na Casa Branca. “A reação do Presidente mostra a sua falta de empatia até por um correligionário.”
No dia seguinte, Iger suspendeu o programa, alegando que as estações afiliadas da ABC, maioritariamente conservadores, tinham dito que não voltariam a passar o programa, o que o tornava impraticável.
Muitos democratas, atores e comediantes mostraram a sua revolta, enquanto os ativistas de direita celebraram. Trump, que estava na Grã-Bretanha, disse que Kimmel tinha muito pouca audiência e que a ABC já o devia ter despedido há muito tempo”.
Mas, na Disney, que tem o maior estúdio de Hollywood, houve muita gente que se indignou com a decisão, vendo-a como uma ameaça potencial a sua própria liberdade de expressão. Pelo menos cinco sindicatos, que representam 400.000 trabalhadores, condenaram publicamente o cancelamento de Kimmel. O que não serve de nada, evidentemente.
É interessante – melhor dizendo, aterrador – que Trump siga o tradicional sistema dos ditadores, que é considerar que quem é contra ele, é contra o país. No caso concreto do assassinato de Kirk, afirmou que tinha sido mais um trabalho dos “antifa” – o nome dado aos anti-fascistas. (Na realidade não se sabe qual foi o motivo do assassino, mas por ora nada o liga à esquerda. Oficialmente era de direita e o caso tem envolvimentos com um amigo que estava a mudar de sexo.)
Trump sempre disse que ia destruir os grupos “antifa” mas o problema é que antifa não é uma organização, não tem um líder, nem sede. O termo designa qualquer grupo que faça distúrbios para reclamar de uma injustiça, como foi o assassinato de George Floyd pela polícia, em 2020. A não existência de uma organização, permite a Trump colocar o rótulo de antifa em quem quiser. Jon Stewart, Jimmy Fallon e John Oliver , (que ainda por cima é inglês), têm de pisar sobre ovos se se quiserem manter no ar. Mas não é o género deles. Quando Brendan Carr falou da necessidade de acabar com os programas que não seguem os “valores da comunidade”, Stephen Colbert foi rápido na resposta: “Bem, sabes quais são os meus valores comunitários são? Liberdade de falar!”.
Dito isto, sinto-me na obrigação de esclarecer que um artigo de opinião tem a opinião do autor, mas não é um romance. Todos os factos aqui descritos são reais!
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