Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
Em menos de uma semana, o Washington Post perdeu mais de 300 jornalistas, viu o seu CEO demitir-se após uma onda de indignação interna e assistiu à nomeação de um gestor vindo do Tumblr para o liderar. Para um jornal que ganhou o Prémio Pulitzer por revelar o caso Watergate, este é um momento que muitos dentro e fora da redação descrevem como uma crise sem precedentes.
No dia 4 de fevereiro, o Washington Post anunciou um corte de um terço de toda a sua força de trabalho, incluindo o encerramento quase total da secção de desporto, o fecho da secção de livros, o cancelamento do podcast diário “Post Reports” e uma redução drástica da cobertura internacional. O departamento de desporto foi eliminado, a redação local reduzida a cerca de uma dúzia de pessoas, quando antes tinha mais de 40, e a equipa do Médio Oriente despedida na totalidade, assim como o chefe da delegação na Ucrânia e outro correspondente de guerra.
O diretor executivo Matt Murray descreveu a medida como um “reset estratégico” necessário para competir na era da inteligência artificial. A redação ficará agora com cerca de 500 pessoas, um número muito inferior ao auge do jornal, quando a redação cresceu 85% sob a gestão de Jeff Bezos (fundador da Amazon, comprou o jornal em 2013).
O CEO Ausente
O que tornou a situação ainda mais crítica foi a postura do CEO, Will Lewis, nos dias que se seguiram ao anúncio dos cortes.
Quando o The Washington Post comunicou internamente o despedimento de cerca de 300 trabalhadores, realizou-se uma videoconferência obrigatória com toda a redação para anunciar as medidas. Will Lewis não participou nessa reunião nem falou diretamente com os jornalistas sobre a decisão.
Nas horas seguintes, os trabalhadores receberam um email que avisava que tinham sido despedidos. No dia seguinte ao anúncio dos despedimentos, Lewis apareceu publicamente num evento na Califórnia do Norte ligado ao Super Bowl, onde foi fotografado a percorrer um tapete vermelho. A imagem, que contrastava com o clima de choque na redação, intensificou a indignação interna. A reação foi imediata.
O Washington Post Guild, o sindicato que representa os trabalhadores do jornal, afirmou que “o legado de Will Lewis será a tentativa de destruição de uma grande instituição jornalística americana.” Na sede do jornal em Georgetown apareceu um cartaz com a frase: “PROCURADO POR DESTRUIR O WASHINGTON POST”, acompanhado por uma fotografia de Lewis.
No sábado, perante a pressão crescente, Lewis anunciou a sua saída, disse que “chegou o momento certo para (se) afastar” e agradeceu a Jeff Bezos. O novo CEO interino passou a ser Jeff D’Onofrio, antigo responsável executivo do Tumblr, que prometeu liderar o jornal “com a força do seu jornalismo como estrela do norte”
A sombra de Bezos
No centro de tudo está precisamente Jeff Bezos, fundador da Amazon e dono do Washington Post desde 2013, comprou-o à família Graham por 250 milhões de dólares. Durante anos, investiu no jornal e a redação cresceu. Mas algo mudou.
No fim de 2024, Bezos vetou um editorial de apoio a Kamala Harris que estava planeado para publicação. A decisão custou caro: o jornal perdeu centenas de milhares de subscritores e cerca de 100 milhões de dólares em receitas em 2024 na sequência dessa decisão.
Bezos falou publicamente de forma favorável sobre o regresso de Trump ao poder. Recentemente, recebeu o Secretário da Defesa, Pete Hegseth, na sua empresa espacial Blue Origin, que tem um contrato multimilionário com a NASA. Os jornalistas do Washington Post escreveram cartas diretamente a Bezos a pedir que poupasse o jornal dos cortes. Bezos não respondeu.
O ex-diretor executivo do jornal americano, Marty Baron, que liderou a redação durante os anos dourados do Trump 1.0, não ficou em silêncio. Os desafios, disse Baron, “foram infinitamente agravados por decisões mal concebidas que vieram do topo”, citando as tentativas de Bezos de “conquistar as boas graças” de Trump.
Será o fim ou uma nova página?
O Washington Post vai agora focar-se sobretudo em política americana e segurança nacional, abandonando grande parte da cobertura que o tornou relevante a nível global. Vários ex-editores dizem que o jornal parece querer competir mais com publicações especializadas como a Politico do que com o New York Times.
O sindicato exige que Bezos reverta os despedimentos ou venda o jornal “a alguém disposto a investir no seu futuro”. Bezos, por sua vez, emitiu o seu primeiro comunicado público desde os despedimentos, dizendo que o Post “tem uma missão jornalística essencial e uma oportunidade extraordinária”, sem qualquer menção a Will Lewis.
O jornal que resistiu a Nixon, que publicou os Pentagon Papers e que cobriu as maiores histórias do século XX enfrenta agora a questão mais difícil da sua história.
___
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.
Comentários