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A resposta começa na Idade Média, quando a Igreja Católica ditava regras rigorosas sobre a alimentação. Durante certos dias e períodos festivos, incluindo a véspera de Natal, a carne estava proibida, e os fiéis tinham de recorrer a alternativas. O peixe, abundante, era naturalmente a escolha mais prática, e o bacalhau destacou-se por uma razão essencial: podia ser conservado durante meses e era o peixe mais barato. Salgado e seco, o bacalhau suportava também longas viagens e períodos de armazenamento sem refrigeração, garantindo alimento para famílias em zonas urbanas ou rurais, independentemente da distância do mar.

O comércio marítimo português reforçou esta tradição. Desde o século XV, com os descobrimentos e a expansão atlântica, Portugal estabeleceu rotas regulares com regiões como a Noruega e Terra Nova, garantindo fornecimento contínuo de bacalhau. Este peixe tornou-se acessível e presente nas mesas festivas, não apenas por necessidade religiosa, mas também como símbolo de abundância e celebração.

Vendas de bacalhau podem superar seis mil toneladas no Natal
Vendas de bacalhau podem superar seis mil toneladas no Natal

A preparação do bacalhau na consoada varia de região para região, refletindo a diversidade gastronómica do país. No Norte, o prato combina batatas, couves e ovos cozidos. No Centro, surgem acompanhamentos como grão-de-bico ou cebolas caramelizadas, enquanto no Alentejo é frequente encontrar o bacalhau assado com batatas e generosas doses de azeite. Apesar das diferenças, o peixe mantém-se como protagonista, unindo famílias em torno de tradições passadas de geração em geração.

O bacalhau na ceia de Natal é também um reflexo da capacidade portuguesa de transformar restrições em criatividade. A obrigação de abstinência de carne tornou-se oportunidade para elaborar uma refeição festiva rica e simbólica, tornando o ato de cozinhar e partilhar o bacalhau um ritual de união e identidade. Entre os séculos XVII e XIX, quando o comércio de bacalhau se consolidou e a preservação de alimentos se tornou crítica, a tradição ganhou força e consolidou-se como parte indispensável da noite de Natal, mas também na Páscoa, outra altura de abstinência de carne

Hoje, cada refeição de bacalhau representa memória, cultura e continuidade. Alguns antigos livros de receitas, datados do século XIX, indicam que a preparação do bacalhau variava até entre vizinhos da mesma vila, mas todos partilhavam o mesmo propósito: celebrar o Natal em família, mantendo viva a história do país à mesa. Cada garfada é um lembrete do passado marítimo de Portugal, da sua herança religiosa e da força de uma tradição que atravessa séculos. O bacalhau na consoada continua a unir gerações, sendo não apenas um prato, mas um elo tangível entre história, cultura e família.
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