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Esther Ghey, mãe de Brianna Ghey, adolescente assassinada em 2023 uniu-se à atriz britânica e vencedora de um Óscar, Kate Winslet, num apelo dirigido a Keir Starmer para a implementação de uma proibição legal do uso de smartphones nas escolas. Ambas alertam para o facto de as orientações atuais do governo criarem uma espécie de “lotaria de códigos postais”, já que a aplicação das regras varia muito entre escolas.
Com o regresso às aulas em Inglaterra e no País de Gales, Brianna Ghey recordou que apenas 11% das escolas secundárias impõem atualmente uma proibição total da entrada de telemóveis ou obrigam os alunos a deixá-los guardados em local seguro durante todo o dia.
Segundo a mãe de Brianna, banir o telemóvel poderia ter sido decisivo na vida da filha: “Teria resolvido tantos problemas. A Brianna foi sugada para fora da sociedade e para dentro do mundo online, onde estava exposta a inúmeros riscos.”
Brianna, uma rapariga transgénero de 16 anos, foi assassinada por dois adolescentes em fevereiro de 2023, sendo um deles um suposto amigo seu. À Reuters, a polícia britânica avançou que se podia tratar de um crime de ódio, mas não foram recolhidas provas suficentes.
Descrita como viciada no telemóvel, chegou a ter mais de uma centena de registos de problemas relacionados com o uso do aparelho na escola.
Debate político e social
O governo britânico tem resistido a implementar uma proibição legal, alegando que os diretores escolares já têm autonomia para agir. Em 2024, foi emitida orientação para que os estabelecimentos desenvolvessem políticas que proibissem o uso de telemóveis durante todo o dia escolar.
Contudo, um estudo realizado em abril pela comissária para a infância, Rachel de Souza, concluiu que, entre 2.467 escolas secundárias, apenas 3,5% proibiam telemóveis dentro do recinto escolar e apenas 7,9% exigiam que fossem entregues durante todo o dia.
O novo movimento Phone Free Education exige agora uma proibição legal e financiamento para que as escolas possam recorrer a soluções como bolsas de bloqueio de telemóveis. Entre os apoiantes contam-se o ator Stephen Graham, o antigo pugilista Frank Bruno, o cantor Will Young, a plataforma Mumsnet e o escritor Jonathan Haidt, autor de The Anxious Generation (A Geração Ansiosa, em tradução livre), que associa os smartphones a uma epidemia de problemas de saúde mental infantil.
Numa carta aberta dirigida a Keir Starmer e à ministra da Educação, Bridget Phillipson, os signatários afirmam que “a maioria das escolas está a pedir às crianças que resistam a uma tentação com a qual até os adultos lutam. Não é justo e não está a resultar.”
A voz de Kate Winslet e a experiência de uma mãe
Kate Winslet, que já abordou o impacto das redes sociais na juventude na série I Am Ruth, reforçou o apelo. “Cada criança merece uma sala de aula livre das distrações e do caráter altamente viciante dos smartphones. Uma proibição legal seria um passo vital para proteger a saúde mental dos jovens.”
Para Esther Ghey, a prioridade é devolver às crianças a oportunidade de interagir cara a cara, construir relações e crescer em comunidade. Recorda que, após a escola de Brianna ter adotado o sistema de bolsas de bloqueio, os professores notaram maior interação social entre os alunos: “O refeitório voltou a encher-se de risos, conversas e até discussões, tudo parte de aprender a viver em sociedade.”
No caso de Brianna, o uso do telemóvel levou inclusivamente a exclusões escolares. Entre os mais de 120 registos de incidentes estavam problemas de exploração sexual online, perturbações alimentares, automutilação e recusas em assistir a aulas por preferir permanecer no telemóvel.
“Se tivéssemos tido esta medida antes, teria resolvido tantos problemas. Devia estar a socializar com os colegas, a aprender, a viver a adolescência.”
Um porta-voz do governo reiterou ao The Guardian que “as escolas já têm o poder de banir telemóveis” e destacou que “99,8% das escolas primárias e 90% das secundárias possuem políticas que restringem o uso de telemóveis”. Acrescentou ainda que novas medidas foram introduzidas através do Online Safety Act para proteger os jovens de conteúdos nocivos.
Portugal e a relação da escola com os smartphones
Como o 24notícias divulgou, o Presidente da República promulgou o diploma do Governo que restringe utilização de dispositivos eletrónicos de comunicação móvel com acesso à internet no espaço escolar pelos alunos do 1.º e 2.º ciclos do Ensino Básico.
O Governo, no início de julho, já tinha aprovado a proibição do uso de telemóveis nas escolas até ao 6ª ano de escolaridade.
Será este o regresso dos telemóveis com teclas?
Segundo o jornal Expresso, a nova estratégia do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) pode devolver protagonismo a estes aparelhos, pois os dumb phones (telemóveis sem acesso à internet ou a aplicações) ficam de fora desta proibição.
Estes dispositivos voltaram à ribalta entre os jovens devido ao aumento da consciencialização dos efeitos negativos associados ao uso excessivo do smartphone.
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