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A recente onda de calor que assolou a Península Ibérica foi a mais intensa de sempre, segundo a AEMET (agência meteorológica espanhola), citada pelo The Guardian, com temperaturas médias que superaram os recordes anteriores. Este fenómeno climático, que afetou Espanha e Portugal, não só aumentou o risco de incêndios como também agravou as condições para que as chamas se propagassem. Contudo, embora o aquecimento global seja um fator incontestável, a verdadeira questão reside na falta de preparação e gestão das terras.

Embora os cientistas alertem para a crescente frequência e intensidade das ondas de calor, consequências da crise climática, a maioria dos danos causados pelos incêndios poderia ter sido evitada.

A Península Ibérica, embora esteja vulnerável às mudanças climáticas, não aguenta sofrer com incêndios devastadores todos os anos e, por isso, precisa de adotar soluções de prevenção. O que muitos especialistas defendem é que a combinação de gestão inadequada do território, o abandono rural e a falta de políticas eficazes de prevenção são as verdadeiras causas por trás dos incêndios florestais anuais.

As temperaturas extremas não causam diretamente os incêndios, mas tornam as florestas e os campos mais suscetíveis às chamas. A seca, resultado do calor intenso, mata a vegetação e torna o solo mais inflamável, criando condições perfeitas para que as chamas se espalhem rapidamente. Isto ficou evidente nas últimas semanas, com a destruição de mais de um milhão de hectares na União Europeia, a maior parte na Península Ibérica.

No entanto, embora o aumento das temperaturas devido ao aquecimento global tenha contribuído para as condições extremas, não podemos negligenciar a forma como os seres humanos têm gerido (ou falhado em gerir) as suas terras.

A falta de gestão do território

Uma das causas principais para a intensificação dos incêndios é o abandono das zonas rurais, uma tendência que tem vindo a aumentar nas últimas décadas. Estima-se que cerca de 2,3 milhões de hectares de terra estejam atualmente em estado de abandono em Espanha, e o impacto disso é devastador.

Quando os agricultores e pastores deixam as suas terras, a vegetação descontrolada toma conta, criando uma enorme quantidade de biomassa que serve de combustível para os incêndios. Isto é o que muitos especialistas chamam de “terrenos queimados”, onde a natureza cresce sem controlo, mas sem a gestão ativa necessária para evitar incêndios catastróficos.

Arantza Pérez Oleaga, vice-decano do Colégio Oficial de Engenheiros Florestais de Espanha, em entrevista ao Politico, destaca que "as chamas que vemos hoje são resultado de décadas de êxodo rural e da ausência de gestão das florestas." As florestas não devem ser deixadas a crescer de forma descontrolada. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, permitir que a natureza “se recupere sozinha” não é um cenário ideal, é, na verdade, uma receita para desastres futuros. Árvores e arbustos sem poda ou gestão adequada criam um terreno propenso ao fogo, especialmente quando somado ao calor extremo.

A Prevenção É Possível

A boa notícia é que a prevenção é possível e, na maioria dos casos, mais barata, e certamente menos penosa, do que os esforços para combater incêndios.

A chave está na gestão ativa das florestas e na criação de paisagens diversificadas que dificultem a propagação das chamas. Para isso, é necessário o retorno à gestão agrícola e florestal das terras, com o cultivo de plantas que servem como cortinas de fogo e a poda de árvores que, sem cuidados, se tornam um verdadeiro risco.

Além disso, especialistas, em entrevista ao Politico, defendem que é necessário criar uma política rural robusta, que garanta que os agricultores e pastores possam ganhar a vida com a gestão das suas terras. O abandono rural não é uma questão apenas de decisão individual, mas de uma estrutura política e económica que favorece a migração para as cidades em detrimento das zonas rurais.

"Precisamos de um setor primário forte", reforça Víctor Resco de Dios, professor de Engenharia Florestal, ao jornal europeu. Apenas com este fortalecimento será possível reverter o abandono e tornar a gestão das terras viável novamente.

Ainda assim, apesar de a solução parecer clara, as políticas públicas de prevenção e gestão ainda são insuficientes. Os governos investem mais na luta contra os incêndios do que na prevenção. O orçamento de combate ao fogo em Espanha, por exemplo, é o dobro do destinado à prevenção.

A verdade é que a gestão das florestas e a promoção de práticas agrícolas sustentáveis não geram resultados imediatos, mas têm um impacto duradouro na redução do risco de incêndios.

Pérez Oleaga aponta que a falta de vontade política em investir nestas áreas é uma das principais razões para a contínua devastação: "Para um político, a decisão é simples: tirar uma fotografia ao lado de um avião de combate a incêndios é mais eficaz em termos de imagem do que investir em projetos de gestão florestal que não têm resultados visíveis durante a sua legislatura."

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Respondendo à questão que paira sobre a opinião pública, os incêndios poderiam ter sido evitados, mas atendendo a condições de investimento mais exigentes.

Embora o clima tenha um impacto crescente, as chamas que arrasam a Península Ibérica são, em grande parte, resultado da negligência na gestão do território e da falta de soluções sustentáveis a longo prazo.