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DA PASTA DE RASCUNHOS
QUERIDA DEBBIE
Querida Debbie,
Na sua fabulosa coluna, diz-nos sempre que o pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia, e eu acredito em si! Mas algum dia a minha família está disposta a sentar-se para tomá-lo? Nem pensar.
É o mesmo circo todas as manhãs. Os meus filhos andam à procura de sapatos perdidos, ou de trabalhos de casa que desapareceram da noite para o dia, e o meu marido não consegue encontrar as chaves ou os óculos de leitura. Ninguém está interessado em tirar cinco minutos para se sentar à mesa da cozinha a saborear o pequeno-almoço nada mau que estive a preparar nos quinze minutos anteriores.
Já tentei de tudo! Refeições rápidas, opções para pegar e levar, subornos (nem pergunte!), mas, faça eu o que fizer, saem sempre de barriga vazia! Como raio faço eu com que tirem alguns minutos para tomar um pequeno-almoço nutritivo antes de sair porta fora sem sequer um adeus? Ajude-me, Debbie!
Faminta em Hingham
Querida Faminta em Hingham,
Efetivamente, o pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia. Reforça os nossos níveis de energia e de atenção e, se não tomarmos um pequeno-almoço saudável, podemos passar o dia inteiro a sentirmo-nos lentos. Em crianças e adolescentes, um pequeno-almoço nutritivo pode melhorar a memória e a concentração na escola.
Se a sua família não tem interesse em tomar o pequeno-almoço, tente ver que alimentos os poderão motivar a tirar esses cruciais minutos extra de manhã. Algumas pessoas preferem uma tigela de cereais, outras poderão querer panquecas, e outras ainda um pequeno-almoço completo, com ovos, bacon e torradas de pão integral. Descubra o que preferem e satisfaça esses desejos!
E, se isso não resultar, recomendaria instalar um cadeado nas portas da frente e das traseiras de sua casa. Logo de manhã, tranque ambas as portas por dentro e guarde a chave no bolso. Informe-os a todos de que não poderão sair de casa até terem ingerido um pequeno-almoço saudável.
Se parecerem hesitantes, uma simples ameaça de engolir a chave, a menos que se sentem e comam, fará seguramente as coisas avançar.
Não tenho dúvidas de que em breve estará a gozar de um maravilhoso pequeno-almoço em família!
Debbie
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DEBBIE
Estou proibida de falar com a minha filha mais velha de manhã.
A Lexi impôs esta regra quando começou o secundário e, agora que é finalista, continua rigidamente em vigor.
Foi implementada porque a Lexi decidiu que não gostava quando eu me atrevia a perguntar-lhe «Como estás?» logo de manhã e ela simplesmente não tinha «vontade de falar agora, meu Deus, mãe».
Assim, a meio do nono ano, anunciou oficialmente que eu não estava autorizada a falar com ela durante as primeiras horas da manhã. E, se tentar qualquer forma de comunicação, verbal ou não verbal, explode e pergunta: «O que foi que eu te disse?» Ou possivelmente pior, fulmina-me com aquele olhar.
Sabem a que olhar me refiro. Pelo menos, se tiverem filhos adolescentes.
Assim, quando a Lexi entra na cozinha nesta manhã de quarta-feira, não digo uma palavra. Continuo apenas a comer a minha tigela de flocos de milho – do tipo com fibra extra. (Agora que estou nos quarenta, tudo o que tenha muita fibra é compra automática.) É fácil lembrar-me de não falar com a Lexi, porque tem uns auscultadores enormes a tapar-lhe os ouvidos. Anda sempre com aqueles auscultadores. É possível que se tenham fundido com os ossos temporais do seu crânio.
A Lexi tem o cabelo num rabo de cavalo desgrenhado que dá a ideia de que o atou ontem à noite, ou talvez até há vários dias, e não teve tempo de o ajeitar. Traz uma camisola com capuz larga, que parece algo com que alguém poderia dormir, e não ajuda a
essa impressão o facto de trazer também umas calças de pijama axadrezadas. Não é dia do pijama na escola ou algo do género.
É isto que os miúdos usam agora. Acho-o de mau gosto, mas, por outro lado, também tenho inveja. Quem me dera poder passar
o dia todo em calças de pijama.
De entre as minhas duas filhas, é a Lexi que mais se parece comigo – facto esse que é de certeza um terrível embaraço para ela.
Tem a mesma delicada estrutura óssea no rosto e um tom similar no seu ligeiramente ondulado cabelo escuro. Como eu, não tem dificuldades nos estudos, razão pela qual está a fazer quatro disciplinas avançadas este ano e uma de teoria dos números, pois já fez Cálculo Avançado no ano passado.
Como eu, pode ser um pouco esperta demais para o seu próprio bem.
Nem olha para mim enquanto vai direta ao frigorífico, apesar de lançar um olhar desdenhoso às latas que empilhei na bancada
da cozinha para a recolha de comida enlatada. Tudo o que faço é uma combinação de embaraçoso e exasperante. Mas o mais imperdoável de todos os meus crimes foi ter-lhe chamado Alexa. Em minha defesa, como haveria eu de saber que a Alexa se ia tornar uma cena?
Lança um olhar por cima do ombro, e um outro ao ver-me. Está mortinha por comentar, mas isso violaria o seu eterno voto de silêncio. A luta interior é intensa.
Finalmente, quebro-a. É o batom – nunca uso batom.
– Porque estás tão aperaltada, mãe? – quer ela saber.
Como outra colherada dos meus cereais com fibra e limpo os lábios com um guardanapo. Sou mais o tipo de mãe de T-shirt e
calças de ioga, por isso surpreende-a ver-me de vestido e totalmente maquilhada. Até fiz um brushing com o secador, em vez
de o deixar húmido num rabo de cavalo.
– Os fotógrafos da Home Gardening vêm hoje – lembro-lhe. – Vão tirar fotos ao jardim.
Foi uma honra ser escolhida pela revista para este artigo em particular. Enquanto dona de casa e mãe de duas raparigas, tive momentos em que a minha vida me pareceu um pouco... bem, vazia. Tenho orgulho nas minhas filhas, mas queria orgulhar-me
de algo que fosse só meu. Esta sessão fotográfica deu-me um belo reforço de confiança. Trabalho muito no meu jardim.
Houve alturas em que senti que, se não tivesse as minhas flores, nem conseguiria sair da cama de manhã.
– Não sabia disso – diz a Lexi, apesar de eu o ter referido dezenas de vezes. Não aponto a ironia de que, se me tivesse esquecido de algo que me contou ontem, ela estaria neste momento a repreender-me severamente. – Bem, boa sorte.
Foi algo simpático de se dizer. E deu-se outro milagre: a minha filha de dezassete anos está agora a falar comigo de manhã. Parece uma espécie de sonho louco e maravilhoso. Atrevo-me a esperar que os difíceis anos da adolescência possam estar a chegar ao fim?
– Obrigada – respondo cautelosamente, não querendo fazer nada que perturbe a paz.
Então, a Lexi torce o nariz. – Não vais mesmo levar todas estas latas para a nossa escola hoje, pois não? Vais parecer a mulher do lixo.
Bem, talvez os anos difíceis ainda não tenham ficado exatamente para trás.
Antes que possa pensar numa resposta adequada às críticas da minha filha ao facto de eu recolher comida para aqueles que precisam dela, a minha outra filha, a Isabel, entra na cozinha. É provavelmente pelo melhor, pois ela não teria gostado do que quer que eu dissesse.
A Izzy anda no décimo ano na Escola Preparatória de Hingham, dois anos abaixo da irmã. Enquanto a Lexi me lembra perturbadoramente de mim, a Izzy é muito mais parecida com o pai. Tem o cabelo castanho mais claro, o sorriso sincero e a constituição sólida. E, como ele, é despreocupada.
Ao contrário de mim e da Lexi, a Izzy sempre foi muito atlética. Cogitei a hipótese de poderem ser as endorfinas a torná-la mais simpática do que a irmã. É essa a minha teoria atual, em todo o caso. Se não me obrigasse a ir ao ginásio várias vezes por semana, assassinava toda a gente no meu quarteirão.
– Olá, mãe – diz a Izzy, tirando uma maçã da fruteira na bancada da cozinha. – Tenho de ir. O autocarro chega daqui a um minuto.
– É só isso que vais comer ao pequeno-almoço? – protesto.
– Mãe, tenho de ir.
Na vida e na maternidade, sobretudo na maternidade de adolescentes, temos de escolher as nossas batalhas.
– Está bem, adoro-te – atiro-lhe. – Vou-te buscar depois do futebol.
A Izzy hesita, o seu rabo de cavalo alto a balançar ligeiramente atrás da sua cabeça enquanto fica ali parada, aparentemente a refletir nas suas próximas palavras. Mete a maçã ao bolso da sua camisola com capuz.
– Deixa estar – acaba por responder. – Eu apanho o autocarro para casa.
– Mas espera. – Ao pôr-me rapidamente de pé, a minha tigela de cereais inclina-se o suficiente para projetar algum leite para a
mesa da cozinha. Não me cai no vestido, ao menos. – O autocarro da escola não vai estar lá depois de o futebol terminar. Posso ir buscar-te.
A Izzy não responde.
– Não há problema nenhum! – garanto-lhe, tentando não pensar nos dias em que a ia buscar à creche e ela corria tão depressa
e com tanta força até mim que quase me derrubava.
Não sei durante quanto tempo a Izzy teria ficado ali parada, a olhar para mim de mãos nos bolsos, se a Lexi não interviesse.
– Por amor de Deus, diz-lhe, Iz – exclama, de repente.
Olho de uma rapariga para a outra. Odeio quando partilham segredos, ainda que seja melhor do que quando estão desavindas.
– Dizer-me o quê?
A Izzy continua calada.
A Lexi exala um suspiro exagerado e responde:
– Ela foi expulsa da equipa de futebol.
– Lexi! – silva a Izzy, com o rosto a ficar corado.
– O quê?
Bem, isto é simplesmente ridículo. A Izzy joga futebol desde que andava no jardim de infância. Seria capaz de fintar aquela bola a dormir. Como pode ter sido expulsa da equipa? É uma das melhores alunas do décimo ano que têm. Que raio, é uma das melhores jogadoras que têm.
– Não compreendo – digo. – Porque foste expulsa da equipa?
A Izzy recusa-se a olhar-me nos olhos.
– Mãe...
Tem de ser algum tipo de erro. Não há outra explicação.
– Vou ligar ao treinador Pike.
– Mãe, não. – Arregala os olhos de pânico. – Tenho de ir, agora. Não ligues ao treinador Pike.
– Izzy...
– Por favor, não lhe ligues. – Os seus olhos estão cheios de desespero. – Promete-me que não lhe ligas, mãe.
Não quero que perca o autocarro. Não posso ir levá-la agora, visto que tenho de estar cá para a sessão fotográfica. Mas ela não vai ceder até eu concordar, por isso acabo por o fazer.
– Prometo.
Prometo que não lhe vou ligar. Mas não prometi que não ia ao seu gabinete para lhe perguntar em que raio estava a pensar quando expulsou a minha filha da equipa.
A Izzy lança-me um último olhar e sai a correr porta fora. Aquela rapariga está sempre a correr. É uma jogadora de futebol fantástica. Não sei o que aconteceu para que fosse expulsa da equipa, mas estou decidida a chegar ao fundo da questão.
Volto a minha atenção para a minha filha mais velha, que pegou numa lata de creme de milho e lê o rótulo com uma expressão azeda no rosto, como se os ingredientes a tivessem pessoalmente ofendido.
– Sabes o que aconteceu? – pergunto-lhe.
– Oh, meu Deus, mãe, não, não sei – resmunga a Lexi. – Podes parar de perguntar, tipo, um milhão de vezes, por favor?
Foi a primeira vez que lhe perguntei, mas não interessa.
– Não ouviste nada, de todo?
– Não. – A Lexi lança-me um olhar furioso, mas então continua.
– Seja como for, é melhor para ela deixar a equipa. O treinador Pike é mesmo um tarado.
– Tarado?
Revira os olhos, irritada por ter de tirar tempo para me explicar cada coisinha.
– A minha amiga Mira estava na equipa de futebol, e disse que ele estava sempre, tipo, a entrar «acidentalmente» no balneário quando as raparigas estavam a mudar de roupa. Pedia desculpa e saía logo, mas... bem, não me parece muito acidental.
Ele fazia o quê?
Os cereais ficam-me presos na garganta enquanto contemplo esta nova revelação. A Izzy nunca disse nada sobre isso, mas conheço a Mira, a amiga da Lexi, e não é do tipo de inventar histórias. Será possível que seja verdade? E, se for, quero sequer a Izzy na equipa de futebol?
– Uf, podes parar com isso, mãe? – pergunta a Lexi, irritada. Forço-me a engolir os cereais que tenho na boca.
– Parar com o quê?
– Com esse mastigar – diz ela.
– Mastigar? – repito, incrédula.
– A forma como mastigas... é tão barulhenta. Tipo, mais ninguém no mundo faz tanto barulho a mastigar. É mesmo estranho, acredita. Provavelmente conseguem ouvir-te na casa ao lado.
Nunca ninguém tinha criticado o volume da minha mastigação.
Por um momento, fico sem saber o que dizer.
– Desculpa. Vou tentar mastigar mais silenciosamente.
– É tão barulhento – reitera ela. – Estás sempre a mastigar, e é, tipo, tão irritante.
Momentaneamente, deixo-me distrair dos meus pensamentos sobre o treinador Pike pela questão mais imediata de que diabos aconteceu à relação que eu tinha com a minha primogénita. Lembro-me de um tempo em que costumava fazer panquecas para a Lexi de manhã. Dava tudo. Formava um rosto sorridente em cada panqueca, utilizando mirtilos ou, se fosse um dia especial, pepitas de chocolate. Quando a Lexi via essas panquecas de rosto sorridente (sobretudo as de pepitas de chocolate), os seus olhos iluminavam-se. Comia primeiro todos os mirtilos ou pepitas de chocolate e então afogava a pilha em xarope de ácer. Ao fim de algumas garfadas, olhava para mim com um sorriso pegajoso e feliz. Fazes as melhores panquecas do mundo, mamã!
Como outra colherada dos meus cereais, perguntando-me se há alguma atividade que possa sugerir para fazermos juntas. Talvez uma ida às compras. A Lexi sempre adorou ir às compras, mesmo quando era pequena, e agora continua a adorar roupa.
Encontrar a roupa de que gosta pode ser um desafio, ainda assim.
Talvez me possa oferecer para a levar a uma loja de pijamas. Isso existe? Se não, deviam inventar uma. É uma ideia milionária.
A buzina de um carro soa à porta de casa, suficientemente alto para nos assustar às duas. Já não consigo fazer a minha filha sorrir, mas aquela buzina faz o serviço. É o seu namorado, o Zane, que fez recentemente dezoito anos e tirou a carta, pelo que agora a pode levar à escola todos os dias.
Nunca entra em casa, ainda assim. Toca só aquela maldita buzina, suficientemente alto para dizer a toda a gente nas vilas vizinhas que chegou. É capaz de ser até um pouco mais barulhenta do que o meu mastigar.
– Tenho de ir – chilreia a Lexi.
A minha filha apanha a sua mochila do chão, suficientemente pesada para, quando a leva posta, caminhar com uma ligeira inclinação para trás. Abre a boca, como que para me dizer adeus, mas então lembra-se da sua regra de não falar comigo de manhã, por isso sai antes porta fora sem dizer mais nada.
Só comi cerca de metade dos meus cereais, mas, seja como for, não tenho grande apetite. Sigo o caminho que a Lexi tomou, através da sala de estar, até à porta da frente, sabendo que ela não se deu ao trabalho de a trancar ao sair. Porque haveria, se eu a tranco sempre atrás dela?
Estou sempre aqui para a minha família. Sempre.
Espreito pela janela para o Kia vermelho a cair aos pedaços que vai a sair do meu caminho de acesso. Sempre que vejo aquele carro, penso para comigo que ele o devia levar simplesmente até à lixeira local e deixá-lo lá. Não adoro o facto de a minha filha
mais velha ser levada para a escola secundária naquele pedaço de sucata, mas reconheço que não tenho grande voto na matéria.
Os meus pensamentos sobre o rapaz a conduzir o pedaço de sucata são ainda menos benevolentes.
Capto um vislumbre do Zane ao sair para a estrada em frente à minha casa. Tem o cabelo comprido desgrenhado e é magro como um palito, apesar de, das vezes em que esteve em minha casa, ter devorado uma pequena batelada de comida. Se metade
do meu frigorífico tiver sido esvaziada, isso quer dizer que o Zane esteve cá para uma visita. Sobretudo se o frigorífico tiver sido deixado ligeiramente entreaberto e o assento da sanita estiver para cima. Para não falar em que tenho quase a certeza de que
fuma cigarros eletrónicos. Nem sei bem o que isso é, mas sei que não quero a minha filha a namorar com um rapaz que os fuma.
Não que eu tenha escolha.
Mas, acima de tudo, não gosto da forma como olha para a Lexi.
Há algo na sua expressão que me deixa inquieta. É algo que já vi – uma memória que nunca conseguirei bloquear.
A Lexi e o Zane namoram há cerca de quatro meses e, há três e meio, já eu estava pronta para que isso acabasse.
Mas não a posso proibir de namorar com ele. Tem dezassete anos, e isso não vai correr bem. Se lhe disser que não o veja, só o verá... mais ainda. Não, o mais inteligente a fazer é esperar que isto passe. É uma rapariga esperta e vai ver a razão. Mais cedo ou
mais tarde, o Zane vai desaparecer.
E, se assim não for, bem, tenciono proteger a minha filha.
As duas. Quer queiram, quer não.
Estou prestes a regressar à cozinha, mas paro ao ver outro laivo de movimento do lado de fora da janela. É o meu vizinho, o Brett Carlson, a descer o caminho de acesso que separa as nossas casas. Na verdade, está a marchar até aqui. Vem em direção à nossa porta da frente. Mais um minuto e estará a bater.
Este dia está prestes a tornar-se interessante.
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