Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt

O amor entre pais e filhos é, por excelência, descrito como incondicional. Mas o que acontece quando esse vínculo se transforma num espaço de medo, tensão e agressividade? A violência filioparental, comportamentos repetidos de filhos em relação aos pais com intenção de controlar, intimidar ou causar dano, está a crescer nas sociedades ocidentais e desafia tudo o que achamos saber sobre a família.

A psicóloga clínica e terapeuta familiar Neusa Patuleia, especialista em violência filioparental e investigadora na área, foi a convidada desta quinzena do Explica-me Isto para ajudar a perceber o tabu das famílias que vivem com medo. Depois de a atualidade ter ficado marcada por um filho matar uma mãe, e uma filha tentar matar um pai, a psicóloga, que há mais de 14 anos trabalha na prevenção e intervenção junto de crianças, jovens e famílias em risco, prefere não se focar nos casos mediáticos mais sim falar em "violência filioparental" que explica ser "um fenómeno relacional".

A investigadora começa por explicar que "o que a distingue é a existência de um vínculo de dependência, são filhos que estão sob os cuidados das figuras parentais e cujo desenvolvimento decorre nesse seio familiar”. E, acrescenta que "é precisamente essa inversão da hierarquia, quando o filho passa a dominar o adulto, que compromete o equilíbrio das relações e o desenvolvimento do jovem.”

A especialista alerta que esta forma de violência não decorre de perturbações mentais, mas de padrões relacionais cristalizados ao longo do tempo. “A violência não surge de um dia para o outro. É construída em dinâmicas familiares onde os limites se perdem, onde o medo de ser autoritário faz com que os pais abdiquem da autoridade necessária”, sublinha.

Membro da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar e da Sociedade Espanhola para o Estudo da Violência Filioparental (SEVIFIP), Neusa Patuleia  refere que “os pais vivem hoje sob enorme pressão para serem os melhores pais do mundo. Muitos vêm de modelos autoritários e, ao tentarem afastar-se disso, acabam por ter dificuldade em colocar limites. Mas autoridade não é o mesmo que autoritarismo e é essencial que exista autoridade na família.”

Quando os limites desaparecem e a chantagem, o medo ou a manipulação se tornam rotina, é altura de procurar ajuda. Neusa Patuleia destaca a importância da intervenção precoce: “Não existe modelo para aquilo que nunca vivemos. Muitos pais sentem vergonha ou acreditam que é só uma fase. Mas quanto mais cedo se reconhecer o problema, mais possível é reparar os laços, restabelecer vínculos e reconstruir a relação familiar.”

A especialista sublinha que este tipo de violência não decorre de perturbações mentais, mas de padrões relacionais que se vão cristalizando ao longo do tempo. “Não surge de um dia para o outro. É construída em dinâmicas familiares onde os limites se perdem e onde o medo de ser autoritário leva os pais a abdicar da autoridade necessária. Esta inversão da hierarquia — quando o filho passa a dominar o adulto — compromete não só os vínculos familiares, mas também o desenvolvimento do jovem.” A violência filioparental manifesta-se de várias formas, como ameaças, chantagem, insultos, agressões físicas e destruição de objetos, e muitas vezes é precedida de dificuldades que começam na infância.

Neusa Patuleia lembra ainda que os pais não estão sozinhos nesta situação: “É sempre preciso uma aldeia para educar uma criança — e também para apoiar famílias em sofrimento. Existem serviços de apoio, comissões de proteção, centros de aconselhamento parental e associações como a APAV, que podem ajudar a identificar, prevenir e intervir nestas situações.” Entre os fatores que contribuem para a violência filioparental, destacam-se a excessiva permissividade familiar, que impede a criança de experienciar frustração e responsabilidades; a parentalidade sob pressão social, com pais que sentem a necessidade de ser “os melhores do mundo”; a exposição a modelos de violência ou manipulação internalizados desde cedo; e a falta de limites claros, que permite ao jovem acreditar que pode controlar o adulto.

Há temas que dominam a atualidade, mas nem sempre são fáceis de entender. Em "Explica-me Isto", um convidado ajuda a decifrar um assunto que está a marcar o momento. Política, economia, cultura ou ciência, tudo explicado de forma clara, direta e sem rodeios. Os episódios podem ser acompanhados no FacebookInstagram e TikTok do 24notícias.

__

A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil

Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.

Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.