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Trump defendeu que empresas petrolíferas norte-americanas devem investir milhares de milhões de dólares na Venezuela, país que detém as maiores reservas provadas de crude do mundo, para recuperar uma indústria atualmente em colapso. Segundo o chefe de Estado norte-americano, as empresas dos EUA irão reparar uma infraestrutura petrolífera “gravemente danificada” e “começar a ganhar dinheiro para o país”.
A Venezuela possui cerca de 303 mil milhões de barris de reservas provadas, as maiores a nível mundial, mas a produção atual está muito aquém desse potencial. A produção caiu drasticamente desde o início dos anos 2000, após o reforço do controlo estatal sobre a petrolífera pública PDVSA durante os governos de Hugo Chávez e, mais tarde, de Nicolás Maduro, levando à saída de técnicos e quadros especializados.
De acordo com dados da Agência Internacional de Energia, a Venezuela produziu em novembro cerca de 860 mil barris por dia, valor que representa pouco mais de um terço da produção de há dez anos e menos de 1% do consumo mundial de petróleo.
Apesar de algumas empresas ocidentais ainda estarem presentes no país, como a norte-americana Chevron, as operações foram significativamente reduzidas devido às sanções impostas pelos Estados Unidos, em vigor desde 2015, durante a administração de Barack Obama, por alegadas violações de direitos humanos.
As sanções deixaram o país “largamente isolado” do investimento internacional e sem acesso a peças e tecnologia essenciais. Para Callum Macpherson, responsável de matérias-primas da Investec, citado pela BBC, “o verdadeiro desafio é a infraestrutura”.
Além disso, grande parte do petróleo venezuelano é classificado como “pesado e ácido”, mais difícil e dispendioso de refinar, sendo sobretudo utilizado para produzir gasóleo e asfalto, ao contrário do petróleo “leve e doce” produzido maioritariamente nos Estados Unidos.
No contexto da operação que levou à captura de Maduro, os Estados Unidos apreenderam dois petroleiros ao largo da costa venezuelana e impuseram um bloqueio a navios sancionados que entram e saem do país.
Para Homayoun Falakshahi, analista sénior da plataforma Kpler, os principais obstáculos para as empresas que pretendam explorar o petróleo venezuelano são de natureza legal e política. Em declarações à BBC, afirmou que qualquer exploração exigirá acordos com um novo governo, algo impossível enquanto não houver um sucessor de Maduro.
“Mesmo que a situação política seja estável, é um processo que demora meses”, explicou, acrescentando que as empresas teriam de assinar contratos antes de iniciar investimentos na infraestrutura petrolífera.
Vários analistas alertam que seriam necessários dezenas de milhares de milhões de dólares e até uma década para recuperar níveis significativos de produção. Para Neil Shearing, economista-chefe do grupo Capital Economics, os planos de Trump terão impacto limitado na oferta global de petróleo e, por consequência, nos preços.
Segundo Shearing, existem “um número enorme de obstáculos a ultrapassar e o horizonte temporal é tão longo” que os preços do petróleo em 2026 deverão sofrer poucas alterações. O economista sublinhou ainda que as empresas não investirão sem garantias de estabilidade política e que os projetos não produzirão resultados durante “muitos, muitos anos”.
Mesmo que a Venezuela regressasse a níveis históricos de produção próximos dos três milhões de barris por dia, continuaria fora do grupo dos dez maiores produtores mundiais, num contexto em que, segundo Shearing, o mundo “não está a sofrer de escassez de petróleo”.
Atualmente, a Chevron é a única petrolífera norte-americana ainda ativa no país, ao abrigo de uma licença concedida em 2022. A empresa, responsável por cerca de um quinto da produção venezuelana, afirmou que está focada na segurança dos seus trabalhadores e que cumpre “todas as leis e regulamentos relevantes”.
Apesar da incerteza política, Falakshahi admite que o interesse das empresas poderá crescer, sublinhando que “o apetite para investir está ligado à situação política e aos recursos no terreno”, acrescentando que “o prémio potencial pode ser considerado grande demais para ser ignorado”.
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