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Quando forças norte-americanas realizaram uma operação noturna em Caracas para capturar o Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, não levaram apenas o chefe de Estado. A mulher de Maduro, Cilia Flores, de 69 anos, foi também detida e transferida para os Estados Unidos, onde irá responder em tribunal por acusações de tráfico de droga e armas.

Durante décadas, Cilia Flores foi considerada uma das figuras mais influentes da política venezuelana, atuando como estratega e conselheira próxima de Maduro. Antiga presidente da Assembleia Nacional, teve um papel central na consolidação do poder do marido após a sua vitória eleitoral em 2013.

Enquanto primeira-dama, Maduro atribuiu-lhe o título de “Primeira Combatente”, embora publicamente tenha assumido uma imagem mais discreta e familiar. Apresentou o programa televisivo "Con Cilia en Familia" e fez aparições ocasionais na televisão estatal, incluindo momentos em que dançava salsa com o marido. Nos bastidores, contudo, era vista como uma das principais arquitetas da sobrevivência política do regime.

Cilia Flores conheceu Nicolás Maduro no início da década de 1990, quando, ainda jovem advogada, defendeu os militares envolvidos na tentativa de golpe falhada de 1992. Entre os acusados estava Hugo Chávez, futuro Presidente da Venezuela. Na altura, Maduro trabalhava como segurança pessoal de Chávez.

Recordando esse período, Maduro afirmou: “Conheci Cilia na vida. Ela era advogada de vários oficiais militares patrióticos presos. Mas também era a advogada do comandante Chávez e, bem, ser a advogada do comandante Chávez na prisão… era duro”. O atual líder venezuelano acrescentou: “Conheci-a nesses anos de luta e depois, bem, ela chamou-me a atenção”.

As trajetórias de Flores e Maduro ficaram intimamente ligadas ao movimento chavista. Após a eleição de Chávez em 1998, Flores ascendeu rapidamente na política, sendo eleita deputada em 2000 e tornando-se presidente da Assembleia Nacional em 2006. Durante seis anos, liderou um parlamento praticamente dominado por um único partido, numa altura em que a oposição boicotava as eleições por as considerar injustas.

Depois da morte de Chávez, em 2013, Flores apoiou firmemente Maduro, que venceu por margem curta as eleições presidenciais. Meses mais tarde, o casal casou-se, formalizando uma relação de vários anos, durante os quais criaram filhos de relações anteriores.

Para a jornalista venezuelana Jocelyne Enríquez, diretora editorial da Americas Quarterly citada pela BBC, Flores “tornou-se uma peça crítica no regime de Maduro”, sendo “não apenas a confidente emocional, mas também a confidente profissional” do Presidente. Segundo a jornalista, tratava-se de “uma pessoa muito movida pelo poder”.

Ao longo da carreira, Cilia Flores enfrentou diversas acusações de corrupção e nepotismo. Em 2012, sindicatos denunciaram a contratação de dezenas de familiares para cargos públicos. Na altura, respondeu: “A minha família veio para aqui e tenho muito orgulho que sejam a minha família. Vou defendê-los”.

Em 2015, o seu nome voltou a ganhar destaque com o caso dos chamados “narco-sobrinhos”, depois de dois familiares — Francisco Flores de Freitas e Efraín Antonio Campo Flores — terem sido detidos no Haiti numa operação da agência antidroga norte-americana, quando tentavam traficar cerca de 800 quilos de cocaína para os Estados Unidos. Apesar de Flores acusar as autoridades norte-americanas de “rapto”, ambos foram condenados a 18 anos de prisão. Regressaram à Venezuela em 2022 no âmbito de uma troca de prisioneiros.

No mês passado, a administração Trump anunciou novas sanções contra os dois sobrinhos e contra um terceiro familiar, Carlos Erik Malpica Flores. O secretário do Tesouro dos EUA afirmou então que “Nicolás Maduro e os seus associados criminosos na Venezuela estão a inundar os Estados Unidos com drogas que estão a envenenar o povo americano”, acrescentando que “o Tesouro está a responsabilizar o regime e o seu círculo de cúmplices e empresas pelos seus crimes contínuos”.

A acusação agora tornada pública contra Cilia Flores inclui alegações de que terá aceite centenas de milhares de dólares em subornos, em 2007, para facilitar um encontro entre “um grande traficante de droga” e o diretor do Gabinete Nacional Antidroga da Venezuela.

Para Christopher Sabatini, investigador sénior do programa para a América Latina da Chatham House, também citado pela BBC, “para os seus críticos, ela é vista como parte de um governo profundamente corrupto, abusador dos direitos humanos e brutal”. O analista descreve Flores como “o poder por trás do trono”, sublinhando que “como qualquer bom poder nos bastidores, raramente se via a sua mão, pelo que poucos sabiam quão poderosa era”.

Cilia Flores deverá comparecer em tribunal em Nova Iorque na próxima segunda-feira.

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