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Médico pneumologista, fez carreira no Hospital Pulido Valente, antes e depois dos hospitais serem transformados em sociedades anónimas, primeiro, e em entidades públicas empresariais, logo a seguir. Foi diretor do Programa Nacional para a Infeção VIH/SIDA e Tuberculose e mais recentemente responsável pelo hospital de campanha instalado na Cidade Universitária para responder à pandemia de Covid-19, com capacidade para 500 camas.

António Diniz reformou-se em 2022, até um amigo que "conhecia de outras andanças" o desafiar a "desassossegar" para desenvolver alguma atividade com a empresa espanhola Hipra, que em 2024 veio para Portugal. "Se havia de estar sem fazer nada, pelo menos este seria um processo de envelhecimento saudável". Mas foi a história da companhia que o aliciou.

Pouca gente conhece a Hipra, mas é uma empresa que já tem umas décadas e está sobretudo ligada à saúde animal. São fabricantes de vacinas há mais de 50 anos — um dos meus filhos é Veterinário, conhecia perfeitamente a companhia.

E foi por aqui que iniciámos a conversa: há uma nova vacina contra a Covid-19 no mercado, chama-se Bimervax, é totalmente espanhola e foi aprovada pela EMA - Agência Europeia de Medicamentos em Setembro. Em Portugal está disponível desde outubro, mas não é comparticipada.

"O que diferencia as vacinas é que Bimervax, produzida pela Hipra, tem uma proteção mais alargada do que a produzida pela Pfizer"

Em conversa com amigos, porque todos tivemos a experiência do que foi a Covid, tínhamos a noção da nossa dependência; lembra-se com certeza do que se passou no início da pandemia: não tínhamos ventiladores — alguns ficaram presos na Alemanha —, não tínhamos máscaras, não tínhamos gel. Vacinas, nem falar.

E pensávamos que Portugal devia investir nalgum grau de autossuficiência, em particular na vacina. Eram devaneios, o chamado wishful thinking: aproveitar alguma capacidade instalada que tínhamos para estarmos prontos numa próxima pandemia, que ninguém sabe exatamente quando vai ser, mas que, inevitavelmente, vai acontecer.

A União Europeia, apesar de tudo, foi rápida na resposta.

Sou fã do que a União Europeia fez em relação à vacina, o acordo salvou-nos — sem ele as vacinas tinham ido todas para outros países, foi o acordo de compra e distribuição de vacinas que salvaguardou a posição de Portugal. Mas não sabemos como as coisas serão no futuro.

O que o governo espanhol fez foi ir mais longe. Durante a pandemia, lançou um desafio à Hipra: "Ao governo espanhol interessa não ficar completamente dependente do exterior. Vocês já têm tantas vacinas para animais, serão capazes de desenvolver uma vacina contra a Covid?" E eles meteram mãos à obra, apoiados pelo Estado, e desenvolveram a vacina.

"A vacina custa cerca de 43€, mas não tem comparticipação do Estado. Ao Estado, no entanto, a vacina custaria menos de metade"

Achava, e continuo a achar, que a estratégia do governo espanhol foi correta: sem querer provocar a rutura, alinhou em tudo quanto é da União Europeia, mas não deixou de trabalhar por Espanha. Quando me falaram nisto, pensei que era exatamente o que gostaria de ter em Portugal. E foi um dos motivos pelos quais aceitei o trabalho.

A Hipra é uma empresa inteiramente espanhola e a vacina que produz é a única que é integralmente europeia, desenvolvida por empresas espanholas da molécula à embalagem e expedição.

Tem tecnologia mRNA?

Não, não tem a tecnologia ARN mensageiro. É uma vacina proteica, conjugada e também adjuvada, que utiliza basicamente a mesma tecnologia que usam vacinas tão conhecidas com a da Hepatite B, que tem décadas, a do vírus do papiloma humano (HPV), a meningocócica C ou a do vírus varicela-zóster [zona].

"Com a idade, a probabilidade de uma pessoa apanhar Covid e ter uma evolução grave vai sendo sempre maior"

Quais são as vantagens e desvantagens?

Do ponto de vista do que interessa às pessoas, os estudos que temos feito indicam três ou quatro vantagens em relação à do ARN mensageiro.

A primeira, e talvez a mais importante, é ter uma proteção mais duradoura no tempo. Não posso desligar-me do facto de ter sido clínico durante 42 anos no Serviço Nacional de Saúde e estes aspetos são para mim particularmente importantes.

Nos últimos três anos, o que se tem passado em Portugal é que há um pico de casos de Covid no verão. Faz-se a vacinação em Outubro e, quando chega a maio/junho, o número de casos começa a subir. Este ciclo é sistemático e não acontece apenas cá.

"No último ano (entre 1 de outubro de 2024 e 30 de Setembro de 2025), morreram 540 pessoas com Covid em Portugal. Só nos quatro meses de verão morreram 354 pessoas"

No último ano (entre 1 de outubro de 2024 e 30 de setembro de 2025), morreram 540 pessoas com Covid em Portugal. Só nos quatro meses de verão morreram 354 pessoas. Porquê 354 no verão e 186 no resto do ano?

Sabe-se por que motivo isso acontece?

Levanta muitas interrogações. Primeira hipótese: o vírus ainda não está estabilizado e tem dois períodos. Circula durante todo o ano, mas tem dois picos, um no inverno e outro no verão. Porque é que não aparece no inverno e aparece no verão? Porque no inverno as pessoas são vacinadas.

Isso quer dizer que as pessoas deviam ser vacinadas duas vezes por ano?

Essa é uma das hipóteses. Será que a proteção que a vacina assegura não é suficiente para abranger todo o ano e, sendo este um vírus que circula anualmente, quando baixa a proteção aumenta o número de casos?

O que sabemos é que as vacinas de ARN mensageiro — e não falo desta especificamente — têm um período de proteção relativamente curto e, ao fim de quatro meses, a taxa de anticorpos neutralizantes em circulação, que é aquilo que protege as pessoas contra a doença, começa a decrescer.

O vírus é o mesmo?

A outra hipótese é o vírus que existe no verão ser diferente do que existe no inverno, logo, a vacina não protege contra ele. Mas esta parece ser uma hipótese fraca.

"Ao longo da pandemia questionei diretamente a diretora-geral de Saúde da altura [Graça Freitas] sobre a não publicação de um conjunto de dados. E já depois disso escrevi diversos artigos em que digo que nos falta informação"

Na verdade, sabemos que o vírus é diferente, mas é diferente desde o princípio, sazonalmente. Isso, de qualquer forma, aplica-se a todas as vacinas; à Bimervax, mas também à Comirnaty [Pfizer-BioNTech] — que é a que está a ser distribuída pelo Estado — ou a outra qualquer.

Quando a vacina é desenvolvida, e mesmo depois, vai-se monitorizando a eficácia em relação às estirpes que vão surgindo. Por exemplo, a vacina que é hoje aplicada, e que é determinada pela OMS [Organização Mundial de Saúde] em abril/maio, é a LP.8.1. O último relatório do INSA [Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge], que é de setembro reportado a agosto, mostra que em Portugal a variante LP.8.1 já não é dominante.

As variantes dominantes são a XFG e a NB.1.8.1. Portanto, na verdade já estamos a vacinar as pessoas com aquilo que é possível. Mas a vacina que está a ser administrada é próxima do ponto de vista do vírus, ainda mantém proteção.

Mesmo que o vírus fosse diferente, a experiência mostra que a vacina do ano anterior ainda mantém eficácia em relação àquela variante que aparece depois.

Há ainda uma terceira hipótese: será que quem adoece no verão são apenas pessoas que não foram vacinadas? Se é assim seria estranho, porque essas pessoas também podiam adoecer no outono ou no inverno.

Voltando ao início, o que achamos que diferencia as vacinas é que Bimervax, produzida pela Hipra, tem uma proteção mais alargada. Os estudos que fomos fazendo ao longo do tempo mostram que até um ano a taxa dos tais anticorpos neutralizantes permanece elevada.

Solução, se querem vacinar apenas uma vez por ano, o que, teoricamente, é mais correto, devem utilizar uma vacina que tenha uma proteção mais duradoura.

Disse há pouco que a realidade do pico de casos no verão é global — em Portugal, houve 12.149 casos de infeção por COVID-19, com um pico de 3.281 casos em agosto. O que estão a fazer os outros países para prevenir isso?

Estão a vacinar duas vezes por ano. É o caso da Inglaterra, era o caso dos Estados Unidos, é o caso da França, por exemplo.

"Falha a tranquilidade de saber com a evidência dos factos porque é que se está a aconselhar a vacinação"

O inconveniente que vejo em relação a isso é que a taxa de vacinação tem vindo a diminuir. Parece um contra-senso, neste contexto, dizer às pessoas que devem passar a ser vacinadas duas vezes por ano. Sendo teoricamente uma opção viável, parece que é preferível ter uma injeção anual, que pode ser dada em qualquer altura do ano, mas que tem uma proteção alargada ao ano inteiro.

É preciso que as vacinas tenham uma proteção alargada, não apenas à variante que é aprovada, mas a outras similares, e que tenham essa proteção duradoura no tempo. Estas são duas características nas quais acreditamos.

A vacinada da Hipra já foi aprovada pela EMA e pelo Infarmed, já está à venda?

A aprovação final pela EMA é de setembro e em Portugal já está disponível desde meados de outubro.

Em Portugal, as pessoas que estão a ser vacinadas através do SNS tomam a Comirnaty, da Pfizer. Faz sentido não poderem escolher?

Para as pessoas em geral não existe essa hipótese, a menos que possam pagar a vacina. Porque o Estado português está a distribuir e a administrar vacinas que fazem parte de um contrato feito com a Pfizer ao abrigo de um acordo feito pela União Europeia, que só vai terminar em 2027.

Este acordo já é uma segunda versão; a primeira foi assinada durante a pandemia. Sobraram vacinas e, para não haver devoluções de dinheiro, celebrou-se um novo acordo para fornecimentos futuros. Alguns países não assinaram, consideraram que não era justo; outros assinaram, como foi o caso de Portugal.

Ou seja, até hoje, as pessoas estão a ser vacinadas com o que havia disponível na altura, embora já existam alternativas — que não estão incluídas nas recomendações oficiais.

Espanha está a aplicar a vacina da Hipra?

Sim. Também assinou o novo acordo europeu, mas achou que devia dar uma alternativa às pessoas e contratualizou perto de 800 mil vacinas Bimervax, da empresa espanhola. E mais países pediram esta vacina, como a Suécia, os Países Baixos, o Luxemburgo e mais três ou quatro. Já está em utilização.

Ao abrigo do protocolo da União Europeia, os Estados podem comprar outras vacinas a preços mais baixos.

"O modelo de SNS que temos é dos anos 70/80. Desde então, foi tanta a volta que o mundo deu, a evolução tecnológica foi tal, foram tantas as alterações demográficas, que está na altura de repensar o modelo, mais do que levar a cabo remendos avulsos"

Em Portugal também está em utilização, mas só no setor privado, porque o Estado português não quis até agora adquirir nenhuma outra vacina.

Esteve anos ao serviço do SNS e agora defende interesses privados. Não teme que o acusem de conflito de interesses?

Esqueça isso por uns minutos e imagine que quem lhe está a falar agora é primeiro o cidadão e depois o médico. Sabemos que há pessoas que não podem tomar a vacina Comirnaty, ou que tiveram uma reação adversa, o que faz com que não possam ou não queiram voltar a tomá-la, até por indicação médica. Que solução é que o Estado dá a estas pessoas?

Isso pergunto eu. Que solução existe para essas pessoas?

Nenhuma, não há. A Bimervax é a única alternativa disponível e, no entanto, não é disponibilizada pelo Estado português. Ou seja, do ponto de vista da equidade, parece-me que isto não está a ser bem gerido. O Estado dá as vacinas à população, mas se alguém tem um impedimento, a única alternativa que oferece é dizer: se quiser, vá ali à farmácia e compre com o seu dinheiro. Se não tiver dinheiro, fica assim.

Quanto custa a vacina numa farmácia?

A vacina custa cerca de 43€, mas não tem qualquer comparticipação do Estado. Ao Estado, no entanto, a vacina custaria seguramente menos de metade desse valor ao abrigo do tal protocolo estabelecido com a União Europeia.

Voltando atrás, sobre recear que digam que estou a trabalhar em causa própria, pode acontecer, mas tento sempre ser imparcial, procuro ser o mais isento possível.

Ao longo destes anos, vacinei-me sempre com Comirnaty, que era aquilo que havia. Ninguém nunca me vai ouvir dizer mal desta vacina ou de outras, algumas já retiradas do mercado, que salvaram milhões de vidas. Mas, face ao que está hoje disponível no mercado e face àquilo que se sabe, o que digo é que há uma alternativa com características que tornam, a meu ver, a sua utilização mais racional.

Já tomou a vacina da Hipra?

Não tomei ainda, mas se a entrevista fosse feita na próxima semana, já teria tomado. Não vou tomar a Comirnaty, vou tomar a Bimervax. Sobretudo por causa da proteção mais duradoura. Além disso, os estudos que fizemos — a EMA obriga a fazer estudos comparativos com a Comirnaty ou com aquilo que é standard — indicam que ao nível dos efeitos secundários a Bimervax tem menos efeitos adversos. Não falo de efeitos adversos graves, porque essa percentagem é baixíssima, quer numa, quer noutra vacina.

Hoje estou de um lado diferente, mas nunca vi a indústria farmacêutica como uma coisa horrorosa, feita por uns tipos malévolos que só querem é dinheiro e mais nada. É um negócio, é óbvio que o objetivo é o lucro, mas uso medicamentos todos os dias. De onde vêm, quem os investiga? A indústria farmacêutica.

Que também investiga com muito financiamento dos Estados e com dinheiro da União Europeia.

Sim, mas também com muito dinheiro próprio. Estas empresas não são organizações sem fins lucrativos, mas a Hipra e outras companhias têm hoje regras, como reinvestir uma percentagem significativa dos lucros em investigação e desenvolvimento.

"Não é aceitável que descontemos para a ADSE, ou qualquer outro sistema, mas quatro milhões de portugueses tenham de ter seguros de saúde privados para poder ter acesso decente à saúde"

A convivência pode ser perfeitamente pacífica. Mais do que pacífica, pode ser proveitosa para todas as partes — e quando alguma das partes se estiver a exceder, existem mecanismo para regular isso.

Falou na eventualidade de outra pandemia. Estamos mais preparados para a enfrentar ou voltou tudo ao mesmo?

Acho que, apesar de tudo, melhorámos muito na abordagem e, tanto quanto me é dado perceber, há um esforço da União Europeia para conseguir alguma autonomia estratégica.

No tal acordo conjunto, um dos parágrafos diz especificamente que a Bimervax é uma vacina europeia, o que contribui para alcançar a autonomia estratégica da União Europeia. Isto é aplicado não só em relação a medicamentos, mas também a outros setores. Se isto está a ser conseguido ou não, não sei. Sei que existe essa vontade e estão a ser dados passos nesse sentido.

Porque é que as pessoas têm tanta resistência a ser vacinadas? Este ano foram vacinadas contra a Covid pouco mais de um milhão, quando só a população acima dos 60 anos é superior a três milhões — e há ainda todos os outros grupos de risco.

Provavelmente, porque as pessoas acham que se viveram sempre sem essas vacinas, é porque não precisam delas. Mas não é assim. É verdade que há más experiências, mas são casos extraordinários. Posso dizer-lhe que foi dada indicação a todos os países para continuarem a efectuar o registo das reações adversas e os registos no Infarmed e a nível internacional mostram que há poucos casos reportados e que os casos graves são da ordem de 1 por cada 100 mil.

Há casos de complicações cardíacas, miocardite ou pericardite, por exemplo. Muitas pessoas têm medo de ter problemas.

Os casos de miocardite ou pericardite podem acontecer na sequência da vacina, mas é muito mais frequente acontecerem na sequência da Covid.

Além disso, ao longo da vida o nosso sistema imunitário vai ficando cada vez mais debilitado, é inevitável. E quanto mais prolongamos a vida — e ainda bem —, mais debilitado vai ficando o sistema imunológico, seja pelo envelhecimento natural, seja pela medicação associada, que nos salva de algumas doenças, mas que nos pode deixar mais fracos face a outras. Ou seja, com a idade, a probabilidade de uma pessoa apanhar Covid e ter uma evolução grave vai sendo sempre maior.

Os médicos estão a fazer o seu papel naquilo que é informar os seus pacientes sobre a importância da vacinação? O que está a falhar para haver tão poucos vacinados?

Um dos aspetos que me parece importante é exatamente o empenho dos médicos no esclarecimento da sua população de doentes ou de utentes. E, se for ver, a taxa de vacinação dos profissionais de saúde é baixa.

Entramos aqui naquilo a que se chama a hesitação vacinal, entendida como a conjunção e dois elementos: um é tudo aquilo que nos leva a adiar a toma da vacina, outro é o que nos leva a recusar a toma da vacina.

O que tem sido estudado, até pela OMS, são os fatores que levam a isto. Há três grandes fatores: confiança (no sistema de saúde, nas vacinas, nos médicos), complacência (a percepção de que as doenças não são um risco assim tão grande) e conveniência (a facilidade de acesso às vacinas, se são gratuitas ou caras).

São fatores de ordem pessoal, que têm muito pouco ou nada a ver com a ciência. E é aí que o profissional de saúde deve intervir; explicar que o tal risco de ter uma miocardite é maior se contrair Covid do que se tomar a vacina contra a Covid. Mas as pessoas não têm esta noção. E o que leva as pessoas a não ser vacinadas, muitas vezes, é a ideia de que a Covid não virá — que é também o que pensam muitos colegas meus.

A Direção-Geral de Saúde poderia ou não publicar estatísticas e números que mostrem a importância da vacinação e que dêem às pessoas a segurança que, muitas vezes, não têm?

Poderia, claro que poderia. E não sei porque é que não publica. Ao longo da pandemia questionei diretamente a diretora-geral de Saúde da altura [Graça Freitas] sobre a não publicação de um conjunto de dados. E já depois disso escrevi diversos artigos em que digo que nos falta informação.

É importante perceber, por exemplo, se os casos de Covid ocorreram em pessoas vacinadas ou não vacinadas. Se quem morreu estava ou não vacinado. Que idades tinham essas pessoas. Porque a resposta a estas e outras perguntas é importante antes de mais para a própria estrutura de saúde, para saber com clareza se o caminho que está a seguir é o melhor e onde pode melhorar, adaptar estratégias. Mas é também uma questão de transparência para a população, dá mais confiança. Se as pessoas não têm todas as explicações, ficam desconfiadas. Não basta dizer à pessoa que tem de ser vacinada porque está num grupo de risco, tudo isto devia estar tipificado e fundamentado.

"A introdução dos contratos individuais de trabalho, dos tarefeiros, veio desagregar o funcionamento das estruturas hospitalares [...] Não faz sentido haver tantos modelos de contratação, isso cria disparidades — de salário, de horário, de tudo — e gera potenciais zonas de conflito"

Devia haver uma publicação periódica com a explicação das coisas, porque só assim se consegue combater o desconhecimento ou os negacionistas. Deste ponto de vista, há lacunas, primeiro que tudo na transmissão da informação, dos dados. Falha a tranquilidade de saber com a evidência dos factos porque é que se está a aconselhar a vacinação.

As doenças respiratórias são a terceira principal causa de morte em Portugal. É pneumologista, consegue dizer por que motivo é assim?

Sempre foi assim. Há muitas explicações, a começar pelo ar que respiramos ser um ar "poluído", no sentido do ambiente, de conter produtos que nos podem fazer mal às vias respiratórias e aos pulmões, mas também de conter agentes infecciosos. É uma porta de entrada do meio exterior, que é um meio potencialmente agressivo.

Além disso, temos a longevidade. Como disse, à medida que as pessoas vão envelhecendo o seu sistema imunitário, a capacidade de se defender face a agressões exteriores, vai diminuindo. O meu papel, como médico, é proporcionar às pessoas o maior número possível de anos com a melhor qualidade de vida possível.

Tem uma pós-graduação em Gestão e Organização de Unidades de Saúde. Como olha para o Serviço Nacional de Saúde?

Isso era uma entrevista inteira. O caminho que se tem traçado nos últimos levar-nos-á inexoravelmente à eliminação do Serviço Nacional de Saúde. Ou dá uma volta de 180 graus, ou o SNS vai definhar, não se aguenta. E tenho dúvidas que seja este o modelo adaptado aos tempos atuais.

O modelo de SNS que temos é dos anos 70/80. Desde então, foi tanta a volta que o mundo deu, a evolução tecnológica foi tal, foram tantas as alterações demográficas, que está na altura de repensar o modelo, mais do que levar a cabo remendos avulsos.

Partir da estaca zero?

Essa reflexão devia ser feita. Fica o problema da escolha do modelo e de como se transita de um para o outro. Mas como está dificilmente conseguirá sobreviver.

Apesar do orçamento da Saúde ser cada vez maior, além do dinheiro do PRR e de outros programas.

Exatamente porque tentamos resolver as coisas com remendos; a forma mais fácil é dizer toma lá mais x, mas isso não é solução.

Há um ano, a Comissão Europeia aprovou o processo único do doente e deu aos Estados-membros dois anos para se organizarem. Como podemos esperar ter uma ficha disponível em qualquer hospital da UE se internamente os sistemas informáticos dos hospitais são incompatíveis?

Esse é um dos aspetos, qualquer modelo tem de funcionar na mesma base. Tive funções de gestão no Hospital Pulido Valente, de onde venho, fiz parte da direção clínica quando se instituíram os hospitais SA. Nessa altura, a discussão já era essa, termos três ou quatro programas informáticos para gerir um doente. Não faz sentido.

E, apesar de os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde dizerem que todos os hospitais comunicam com os centros de saúde, nessa tentativa de processo único, já muitos hospitais vieram dizer que não. Construir um sistema informático que abranja todos e seja uniforme é uma grande tarefa. Mas devíamos ter começado a resolver isto há décadas.

Acho mesmo que, por questões de demografia, de tecnologia, de organização, este modelo de SNS tem os dias contados. Quanto mais depressa percebermos isso e fizermos a transição para outro modelo mais adaptado, melhor. As pessoas estão mais velhas, precisam de mais cuidados de saúde durante mais tempo, a tecnologia é cada vez mais avançada, mais diversificada e mais cara, os modelos de organização estão desadequados das necessidades atuais, o modelo contém em si vícios e premissas que já não são resposta.

Tudo isto tem de ser repensado, e "isto" inclui o financiamento: não é aceitável, como ouvi outro dia, que descontemos para a ADSE ou qualquer outro sistema, mas quatro milhões de portugueses tenham de ter seguros de saúde privados para poder ter acesso decente à saúde. O que é que isto significa? E é óbvio que, melhor ou pior, estes quatro milhões podem, mas traduz o nível de insatisfação e de desconfiança no sistema para o qual as pessoas são obrigadas a contribuir. Não pode ser.

Reformou-se há dois anos. O que deixou melhor?

A nível do Hospital Pulido Valente, por exemplo, construí — eu e uma equipa, claro — uma unidade de seguimento de doentes com infeção por VIH, num altura em que isso era difícil, estávamos no final dos anos 80. Seria interessante as pessoas recordarem esses tempos, talvez não aligeirassem tanto as coisas em termos de comportamentos.

Quando exerci funções de direção do hospital de campanha no Estádio Universitário, acho que foi uma coisa bem feita. Volto a dizer, uma pessoa nunca trabalha sozinha, se não fossem as pessoas que me acompanharam, de certeza não tinha esta sensação de que as coisas ficaram melhor. E o melhor da atividade profissional foram os colegas com quem pude trabalhar nestas várias aventuras.

Já falámos do SNS, mas, em 42 anos, o que mudou para pior, o que se foi degradando?

Quando cheguei, o Hospital Pulido Valente tinha ainda características muito ligadas ao ambiente sanatorial, ao tratamento da tuberculose e de todas essas doenças, e teve uma evolução muito grande até aos hospitais SA.

Nunca ninguém respondeu a esta pergunta: porque é que os hospitais se juntaram em centros hospitalares? Nunca foi dito cabalmente qual o motivo que o justificou e nunca foi feita uma avaliação sobre o que se ganhou e o que se perdeu.

No caso, acho que o Hospital Pulido Valente perdeu muito. A soma do Hospital Pulido Valente com o Hospital de Santa Maria é inferior ao resultado de cada um em separado. Foi um passo que não foi medido — como aconteceu com o Joaquim Urbano, que se juntou ao Santo António, ou o Hospital dos Covões, que se juntou ao Centro Hospitalar de Coimbra. Tinham culturas muito diferentes e as pessoas são um elemento fundamental para o funcionamento dos hospitais. Digo isto, mas fui das pessoas que achou que a medida podia ser positiva. Tenho de reconhecer que o resultado foi negativo.

Ao longo do tempo, também se foi degradando ao acesso das pessoas ao Serviço Nacional de Saúde. Em terceiro lugar, desapareceu a cultura de serviço, enquanto estrutura. Antes, havia uma carreira em que as pessoas procuravam integrar-se, só que essa noção de pertença esvaiu-se. Por força das circunstâncias, essa cultura foi desaparecendo e o que vemos hoje é que a cultura de equipa — absolutamente indispensável — desapareceu.

Atualmente, os internos não têm como objetivo ficar no hospital, têm como objetivo aprender o suficiente para resolverem a sua vida — e resolverem a sua vida é fazerem o que conseguirem. Não é uma crítica, é a adaptação que os novos fizeram às circunstâncias. A nossa circunstância favorecia a carreira, o serviço, o funcionamento em equipa. A introdução dos contratos individuais de trabalho, dos tarefeiros, veio desagregar o funcionamento das estruturas hospitalares.

Que modelo defende?

Seguramente, um modelo em que as carreiras médicas tenham um peso muito maior do que têm atualmente. Para mim, não faz sentido haver tantos modelos de contratação, isso cria disparidades — de salário, de horário, de tudo — e gera potenciais zonas de conflito. Não favorece a unidade e o espírito de equipa, aspetos que deviam ser recuperados.

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