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Na Faculdade de Direito, onde dava aulas, o porta-voz do MASP António Vitorino recorda como era provocado de forma curiosa por alguns dos discípulos: «Havia um grupo de alunos meus que vinha de loden verde e com um crachá “Prá Frente Portugal” e sentavam-se nas primeiras cadeiras [risos].» O socialista aponta que esses tempos tiveram «uma polarização muito forte, relativamente agressiva» (1).

Se a adesão popular tinha sido notável na primeira volta, na segunda foi ainda maior. A febre das eleições foi extraordinária e ainda hoje tida como única, um momento histórico na política portuguesa que será muito difícil de replicar. Tantas décadas depois, nenhuma campanha chegou perto da loucura que foi a segunda volta das presidenciais de 1986.

Entre as multidões, até saíam algumas personagens que ficaram célebres, como o menino Zeferino, um garoto de 7 anos que aparecia nos tempos de antena de Freitas a correr pela rua com a bandeira do «Prá Frente Portugal».

Freitas do Amaral chegou a queixar-se de atrasos na preparação da segunda volta por parte da estrutura da campanha, que terá assumido que se ia ganhar tudo à primeira, o que fez com que se perdesse uma semana para marcar salas e fazer contactos, mas teve uma reta final fortíssima na campanha.

No Porto, foi a estrela de um comício enorme. Mesmo a chover torrencialmente, a Avenida dos Aliados lotou para ver Freitas, que tinha consigo o apoio presencial de Cavaco Silva. Ali estava «meio Porto», como se dizia com alguma graça, para apoiar o candidato presidencial. Apelando a reformas, acusou Soares de «mudar de posição todos os dias» e enviou uma forte provocação para o socialista: «Os portugueses sabem que podem votar em mim de olhos bem abertos e sem necessidade de sais de fruto», como reproduziu o jornal Diário de Notícias de 14 de fevereiro de 1986.

A sua magnum opus estava marcada para a Avenida da Liberdade, em Lisboa, no último dia. Um desfile de campanha apoteótico, que percorreu toda a avenida desde o Marquês de Pombal até chegar a um palco armado na Praça dos Restauradores. Havia gente até à estátua de Sebastião José de Carvalho e Melo, com um leão ao lado, no meio da rotunda, mesmo à frente da sede histórica do Diário de Notícias. Mário Mesquita, o diretor do jornal, escreveu que Freitas podia gabar-se de ter feito em Lisboa um dos maiores comícios jamais efetuados em Portugal.

Livro: "A Segunda Volta"

Autor: João Reis Alves

Editora: Contraponto

Data de lançamento: 15 de janeiro de 2026

Preço: € 17,70

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«Excedeu todas as expectativas. Nunca poderei esquecer o espetáculo emocionante da grande multidão, compacta, que enchia por completo a Avenida da Liberdade», afirmou o candidato quando revisitou a sua vida. A avenida inteira encheu-se de pessoas, contando com as faixas laterais, que davam acesso ao Cinema São Jorge ou ao Hotel Tivoli. «Nunca vi nada assim, nem voltei ou voltarei a ver», recordou (2).

No palco, a acenar para os milhares de apoiantes, Freitas virou-se para a mulher, que o acompanhava, e disse-lhe ao ouvido: «Se isto não dá 50% dos votos, não sei o que é preciso para os obter.» Uma premonição que não se revelou certeira.

«Foi extraordinário. Uma coisa que nunca foi feita e nunca voltou a fazer-se. Os respiradouros do metro, paralelos à avenida, cheios de gente a cumprimentá-lo. Milhares de pessoas que tinham estacionado os carros e seguiam na rua, pela boca do metro, era uma coisa extraordinária», recorda Ribeiro e Castro (3).

A caminhada até ao dia decisivo pode ter sido gratificante, mas tanto quilómetro de estrada teve o seu peso em Freitas do Amaral.

Os problemas crónicos da coluna foram uma preocupação. Valeu ao candidato ter um massagista, que o acompanhava há dez anos e que todos os dias lhe fazia uma massagem de uma hora às 7h e outra à meia-noite, ou já durante a madrugada nos dias em que os comícios se prolongavam. Nas seis semanas de campanha, entre a primeira e a segunda voltas, Freitas do Amaral perdeu dez quilos (4).

Mário Soares teve momentos grandiosos na campanha e também alguns engraçados, que ficaram na memória. Quando a caravana do candidato socialista rumou ao Alentejo e passou pela localidade de Pias, tudo podia acontecer. Era um regresso, depois de já lá ter passado na primeira volta. Dessa vez, nesta vila do município de Serpa fortemente ligada ao PCP, o socialista foi insultado. Gritaram-lhe «Morte ao Soares!», «traidor», entre outras injúrias pouco agradáveis. Nessa primeira vez, enquanto o candidato percorria a pé a localidade, um comunista que até estivera preso com ele nos tempos da ditadura gritou contra ele, dizendo que estava feito com Freitas do Amaral e que era um fascista.

Mas o cenário mudou. Apenas algumas semanas depois, na segunda volta, Mário Soares fez exatamente o mesmo percurso, onde voltou a ser recebido com berros, mas, desta vez, elogiosos. O tal comunista que esteve preso com ele estava lá mais uma vez. Soares aproximou-se e perguntou-lhe: «Então há quinze dias estava a chamar-me fascista e agora está aqui, seu malandro? Como explica isso?» Do alto de uma simpatia inusitada, o revoltado diz: «É que agora você voltou a ser amigo dos trabalhadores» (5).

O MASP foi um marco não só para os destinos do país, mas para o próprio Partido Socialista. Foi nesta apoteótica campanha que uma série de jovens sentiu o apelo pela política, e outros, já entranhados nas juventudes partidárias, encontraram aqui a rampa de lançamento para voarem alto: José Apolinário, na altura secretário-geral da Juventude Socialista, o consolidado militante do PS Álvaro Beleza ou António José Seguro, candidato presidencial nas eleições de 2026, que ali começou a traçar a sua caminhada rumo à liderança da JS e à chegada a secretário-geral do partido, de 2011 a 2014. Todos assistiram às multidões que Mário Soares contagiava pelo país fora.

O ponto alto aconteceu no Porto, na última semana de campanha. Soares chegou à Invicta de carro e foi abraçado por uma multidão imensa. Com um cachecol branco à volta do pescoço – porque, apesar do dia soalheiro estava um frio de rachar – saiu pelo tejadilho do automóvel para acenar aos apoiantes que o esperavam em apoteose.

Bandeiras do PS, gritos de «Soares é fixe!», pessoas até ao horizonte, sem se ver um canto aberto da histórica avenida portuense.

O banho de multidão foi tal que, aqui, o candidato presidencial ficou com uma convicção: «Tive, aí sim, a certeza de que ganharia» (6).

Com certezas ou não, era preciso esperar, nervosamente, por aquilo que os portugueses queriam no decisivo domingo das eleições.

(1) Entrevista com António Vitorino, 29 de abril de 2025

(2) Freitas do Amaral, Diogo, Mais de 35 Anos de Democracia – Um Percurso Singular, Bertrand Editora, 2019, p. 73

(3 )Entrevista com José Ribeiro e Castro, 3 de abril de 2025

(4) Freitas do Amaral, Diogo, Mais de 35 Anos de Democracia – Um Percurso Singular, Bertrand Editora, 2019, p. 70

(5) Vieira, Joaquim, Mário Soares – Uma Vida (edição revista e aumentada), Dom Quixote, 2024, p. 807

(6) Observador, publicação de três capítulos do livro Soares – Democracia, 9 de janeiro de 2017

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