Foi em 1972, nos anos finais da ditadura, que Salazar mandou fazer milhares de cartazes pendurados nos postes (ainda não havia mupis digitais) com uma caveira e o slogan “Droga, Loucura, Morte”. Depois da Revolução de 1974 desapareceram, pela simples razão de que não assustavam ninguém. É interessante que, nessa época, praticamente só circulavam duas drogas, o haxixe e o LSD, com uma circulação muito limitada.

A quase totalidade da população já teria ouvido falar da cocaína e heroína, mas só raramente e em círculos muito fechados. Depois apareceram outras, aproveitando a retração das polícias, até se chegar a uma fase no final do século, em que o consumo era público – quer dizer, viam-se drogaditos a “viajar” na rua, em plena luz do dia.

Finalmente, a "lei da descriminalização das drogas" em 2001, retirou o uso e posse de drogas para consumo pessoal da esfera criminal, transformando-os em infrações administrativas, com foco no tratamento e reabilitação (Comissões de Dissuasão). As drogas continuam ilegais e os traficantes são punidos, mas a legislação levou a melhorias significativas na redução de condenações e prisões relacionadas ao tráfico. Já não se vê o triste espectáculo na via pública (excepto em certos bairros das periferias), mas as drogas tornaram-se crónicas e, de certa maneira, toleradas por toda a gente.

A nossa percursora  lei de discriminização, é apontada em todo o mundo como um exemplo, (ainda no ano passado li longos artigos no “The New Yorker” no “Le Monde”) mas, estranhamente, não foi copiada por muitos países.

Entretanto chegaram ao mercado novas drogas sintéticas, mais potentes e perigosas, como o fentanil e a metadona, e o LSD foi substituído por “ácidos” de vários tipos, difíceis de classificar.

O haxixe foi descriminalizado em muitos países, uma vez que não há notícias de overdoses fatais e os governos perceberam é melhor negócio cobrar impostos aos comerciantes do que gastar dinheiro com a repressão.

Mas as drogas mais fortes continuam a ser uma pandemia séria, especialmente os chamados opióides. Nos Estados Unidos, em 2022, morreram mais de cem mil viciados em fentanil e metadona e trinta mil em cocaína - e os números não param de subir.

Várias razões para esta calamidade: primeiro, os traficantes têm inovado nos métodos para disfarçar a droga. Misturam-na com outros produtos – ananás, madeira, café, plástico, tijolos e sei lá que mais. Inventaram maneiras de misturá-la para a viajem e depois separá-la no destino.

Segundo, mudar as rotas, fazendo-a passar por portos de países que não são produtores. São os chamados narco-estados, em que todo o aparelho de Estado está metido no negócio. Lanchas rápidas saem da América do Sul e a meio do Atlântico encontram-se com outras lanchas rápidas vindas do destino. Submarinos primitivos com uma tripulação de dois homens carregam toneladas de cocaína.

Terceiro, os grandes grupos têm-se dissolvido em muitos grupos mais pequenos, variando infinitamente os métodos de traficar.

Quarto, a China e outros países asiáticos, onde a posse de droga dá pena de morte, fecham os olhos às exportações. Estados párias, como o Afeganistão, só conseguem divisas com a plantação de papoilas.

Se alguém tem culpa deste lucrativo negócio, são os consumidores, evidentemente. Mas só se dá por eles quando já estão em estado vegetativo ou mortos, e o que precisam é de hospital ou funerária, não de cadeia.

Quanto as traficantes, os lucros são tais (há quem diga que as drogas são o produto mais lucrativo do mundo) que haverá sempre quem queira arriscar o negócio. É difícil calcular os números, mas segundo a Global Financial Integrity, deve andar entre 84 e 143 mil milhões de dólares.

A globalização transformou a indústria. Diz o “The Economist”: “Anteriormente os cartéis colombianos de mexicanos monopolizavam todas as etapas do negócio, desde a plantação da coca à as casas de banho dos clubes noturnos. Actualmente, mesmo os maiores, como os de Sinaloa e de Jalisco no México, o Primeiro Comando da Capital no Brasil e a Ndrangheta em Itália, tomam conta apenas de uma parte do circuito. O tráfico tornou-se numa rede fluida de sub-contratados e fornecedores de serviços, incluindo químicos, assassinos e lavadores de dinheiro. Cada fornecedor cobra uma percentagem. Às vezes os grandes cartéis, como o PCC, forçam a uma integração maior, obrigando os fornecedores de serviços a alianças permanentes. Esses fornecedores, por sua vez, trabalham simultaneamente para vários cartéis ou investidores conhecidos como “traficantes invisíveis”, que financiam e organizam o transporte marítimo.”

A plantação de coca também está mais distribuída. Dantes ficava exclusivamente nos vales dos Andes. Agora planta-se na Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Belize, Guatemala, Honduras e México.

Como se percebe, trata-se de um produto global, limitado apenas pelo clima da geografia.

Daí que se diga que o melhor seria descriminalizar todas as drogas, o que, por um lado, faria baixar o preço (ultrapassando o custo da ilegalidade), e, por outro, os governos ganhavam com os impostos em vez de gastarem na repressão. Mas também há quem diga que, precisamente porque a ilegalidade dá grandes lucros (aos traficantes e aos sistemas de repressão corruptos) que nenhum dos envolvidos está interessado na legalização. E as opiniões públicas não estão preparadas para aceitar tamanho “escândalo”

A Global Financial Integrity, uma empresa que estuda o fluxo mundial de todo o tipo de produtos, afirma “toda a gente subcontrata praticamente tudo”, comparando a produção de cocaína com o fabrico do iPhone.

Esta diversidade de operadores, que podem acompanhar o percurso da droga por GPS, torna praticamente impossível a detecção do produto.

Em alguns países, os cartéis já têm massa crítica suficiente para financiar candidatos aos parlamentos, que, por sua vez, promulgam leis que permitem disfarçar melhor a lavagem de dinheiro.

Resumindo, a “guerra contra a droga” está irremediavelmente perdida. Ou ganha, se considerarmos as receitas das autoridades (políticos, polícias, tribunais) que recebem uma comissão no negócio.