Diogo Ferreira Nunes, jornalista especialista em comboios e ferrovia começa por explicar que o elevador da Glória funcionava “como o funicular, através de um sistema de contrapesos, sempre com dois veículos: quando um sobe, o outro desce. O que aconteceu aqui foi que, quando partiu o cabo, o veículo de cima começou a descer completamente desgovernado e acabou por descarrilar e embater no prédio”.

Do acidente resultaram 16 mortos, mas Diogo Ferreira Nunes avança que a  tragédia poderia ter sido ainda maior: “Se não tivesse embatido no prédio, muito provavelmente teria acertado no veículo que estava em baixo e que também estava completamente cheio. Cada viagem transporta mais de 40 pessoas por veículo.”

O jornalista sublinha que raramente um acidente ferroviário decorre de uma única causa, e que neste caso pode ter estado em causa uma série de falhas em cadeia. “Há sempre um conjunto de causas que agora a investigação independente terá de apurar ao detalhe.” E acrescenta que além do efeito dominó principal também deve ter havido "a falha de um sistema de redundância. Se tivesse havido redundância, teria sido acionado. Em outros funiculares já existem sistemas que conseguem imobilizar imediatamente o veículo em caso de falha grave.”

No total, 38 pessoas estiveram envolvidas no acidente. Entre os feridos identificados nos hospitais contam-se quatro cidadãos portugueses, dois alemães, dois espanhóis, um coreano, um cabo-verdiano, um canadiano, um italiano, um francês, um suíço e um marroquino, estando ainda por confirmar a nacionalidade de quatro vítimas. Luís Neves, diretor da PJ, confirmou ainda que estão já identificadas as nacionalidades de cinco vítimas mortais portuguesas, dois sul-coreanos e um suíço. Disse ainda que, “com elevado grau de probabilidade”, com base em documentos e informações recolhidas nas últimas horas, é possível identificar um cidadão alemão, dois canadianos, um ucraniano e um norte-americano. Falta, assim, ainda identificar a nacionalidade de três vítimas.

No primeiro episódio da segunda temporada de Explica-me Isto, um dos temas em que o jornalista mais se demorou foi o da fiscalização. Diogo Ferreira Nunes esclarece que, desde fevereiro de 2002, os três elevadores históricos da capital — Glória, Bica e Lavra — passaram para a alçada da Câmara Municipal de Lisboa. Já no resto do país, todos os transportes por cabo (incluindo teleféricos e até os raros sistemas usados em estâncias de esqui) são fiscalizados pelo Instituto da Mobilidade e dos Transportes, através da Autoridade Nacional de Segurança Ferroviária.

Segundo o especialista, esta diferença é significativa: “Quando passamos para a competência municipal, é muito importante que exista um nível mínimo de capacidade técnica e conhecimento para se poder fiscalizar devidamente estes equipamentos. Estamos a falar de veículos com mais de 100 anos, que exigem vigilância especial.”
Diogo Ferreira Nunes acrescentou que “estes equipamentos têm de ter uma vigilância constante. Não pode ser só semanal, mensal ou anual. É preciso instalar sensores e sistemas que garantam, em permanência, que todas as condições estão asseguradas.” Soube-se, de acordo com documentos citados pela SIC Notícias,  já depois da gravação desta conversa que os técnicos tinham dado luz verde a todos os parâmetros de segurança antes do acidente. O Elevador da Glória tinha o cabo substituído a cada 600 dias e a próxima troca estava prevista apenas dentro de 263.

Também o presidente da Carris, Pedro de Brito Bogas, confirmou, mais tarde em conferência de imprensa, que foi aberto um inquérito interno, que todos os elevadores da cidade foram suspensos e que passarão por inspeções extraordinárias nos próximos dias. Pedro de Brito Bogas sublinhou ainda que o contrato de manutenção em vigor foi celebrado a 20 de agosto deste ano, por ajuste direto com a empresa MAIN, válida por cinco meses até novo concurso público. Recordou que esta empresa assegura a manutenção desde 2019, tendo vencido concursos em 2019 e 2022, mas que o mais recente concurso, lançado em 2025, ficou deserto por falta de propostas abaixo do preço base (1,2 milhões de euros). “As inspeções periódicas mantiveram-se sem qualquer falha. As inspeções diárias estão devidamente registadas”, afirmou, acrescentando que a Carris tem vindo a aumentar o investimento na manutenção, tanto nos autocarros como nos elétricos.

Diogo Ferreira Nunes faz questão de deixar uma mensagem que considera relevante sublinhar, “o importante neste momento é não gerar pânico e pensar que agora qualquer veículo de transporte público está a falhar. Qualquer funicular pode ter uma avaria, mas acidentes com esta gravidade são extremamente raros”.

O especialista recorda que “em fevereiro de 1963, na Nazaré, também se partiu um cabo e registou-se uma vítima mortal e 29 feridos”. Desde então, foram instalados novos sistemas de travagem e a segurança foi reforçada. Além da Nazaré, existem outros funiculares em funcionamento em Portugal — como o dos Guindais, no Porto, o de Santa Luzia, em Viana do Castelo, o de Viseu ou o do Bom Jesus, em Braga — todos a operar normalmente.

Quanto à antiguidade dos equipamentos, Diogo Ferreira Nunes esclarece que “qualquer veículo histórico pode circular, desde que esteja garantida a manutenção”. E dá o exemplo curioso do elétrico 28, em Lisboa, que "parece antigo por fora, mas por dentro tem sistemas modernos da década de 1990. Em vários locais do país já foram instalados sistemas de redundância que imobilizam o veículo automaticamente em caso de falha súbita do guarda-freio ou do maquinista.”

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Há temas que dominam a atualidade, mas nem sempre são fáceis de entender. Em "Explica-me Isto", um convidado ajuda a decifrar um assunto que está a marcar o momento. Política, economia, cultura ou ciência, tudo explicado de forma clara, direta e sem rodeios. Os episódios podem ser acompanhados no Facebook, Instagram e TikTok do 24notícias.