Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt

No novo episódio de Explica-me Isto,  Pedro Faria, presidente da Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos ajuda a perceber o que está a correr mal no modelo atual de incentivos, o que muda em 2026 e porque é que o sucesso da mobilidade elétrica em Portugal está a ser travado por regras que não acompanham a realidade.

Em relação aos apoios do Fundo Ambiente diz ser “um programa que existe há vários anos e sempre teve uma dotação de 10 milhões de euros. O problema é que, nos últimos dois anos, foram introduzidas alterações que criaram bloqueios evidentes”, explica Pedro Faria. Uma das principais mudanças foi a introdução de um sistema de senhas. “As pessoas inscrevem-se, mas isso não significa que vão mesmo comprar um veículo elétrico. Ativam um lugar na fila e, se não cumprirem os requisitos, essa vaga fica ocupada durante meses.”

O resultado é um sistema que aparenta enorme procura, mas que falha na execução e, por isso, quando se diz que o concurso esgotou em cinco horas, isso não quer dizer que o apoio tenha sido efetivamente entregue. No último concurso, foram atribuídas 2.200 senhas para veículos ligeiros de passageiros, mas muitas acabam por não se concretizar. “Durante 90 dias, essas vagas ficam bloqueadas e não passam para o seguinte. É por isso que a dotação orçamental sobra constantemente.”

Este diagnóstico ganha ainda mais peso numa altura em que houve um reforço histórico do Fundo Ambiental para 2026, com 20 milhões de euros destinados à mobilidade sustentável. Mantêm-se os apoios de 4.000 euros para particulares na compra de veículos 100% elétricos (com abate obrigatório de um carro a combustão com mais de 10 anos), bem como incentivos reforçados para carregadores em condomínios, cobrindo até 80% dos custos de aquisição e instalação.

Para a UVE, o problema já não está na falta de incentivos, mas na forma como são desenhados. “Estamos a desperdiçar uma oportunidade. Há procura real, há dinheiro disponível, mas o modelo não permite que o apoio chegue a quem efetivamente quer comprar”, alerta Pedro Faria.

No momento de se escolher ter carro elétrico uma das variáveis a ter que ter em conta é a logística do carregamento, sobretudo para quem não tem garagem. Apesar do crescimento da rede pública, a pressão aumenta todos os meses, com cerca de 8.000 novos utilizadores a entrarem na mobilidade elétrica. “Temos critérios europeus claros para a instalação de carregadores e Portugal está perto desses valores, mas é preciso continuar a instalar de forma permanente”, defende.

Ainda assim, o presidente da UVE rejeita a ideia de que a mobilidade elétrica seja inviável para quem vive em condomínio. “A lei protege o utilizador e dá condições para instalar carregadores, mas surgem problemas de potência quando começamos a escalar. Aí entram investimentos mais pesados, como novos ramais, que nem sempre são fáceis de consensualizar.”

Muitos dos mitos associados aos carros elétricos também caem por terra neste episódio de Explica-me Isto, como por exemplo a autonomia que já não é o problema que foi. “Estamos na terceira geração de veículos elétricos. Hoje falamos de autonomias reais acima dos 500 quilómetros e carregamentos muito mais rápidos”, explica. Quanto às baterias, a degradação é lenta e controlada. “Ao fim de sete ou oito anos, um carro que fazia 500 quilómetros pode passar a fazer 430. Não fica inutilizado. A ideia de que a bateria morre é um mito.”

Do ponto de vista financeiro, a vantagem continua clara, sobretudo para quem consegue carregar em casa. “Com tarifa bi-horária, podemos estar a falar de cerca de 2 euros por 100 quilómetros. É uma diferença brutal face aos combustíveis fósseis”, sublinha.

A transição energética está em marcha e é irreversível, mas precisa de ajustes finos para não se perder no caminho. “Temos de continuar a discriminação positiva dos veículos elétricos durante muito tempo. Não estabeleceria uma percentagem mágica. O objetivo é mudar comportamentos e isso faz-se com políticas públicas bem desenhadas”, conclui Pedro Faria.

Há temas que dominam a atualidade, mas nem sempre são fáceis de entender. Em "Explica-me Isto", um convidado ajuda a decifrar um assunto que está a marcar o momento. Política, economia, cultura ou ciência, tudo explicado de forma clara, direta e sem rodeios. Os episódios podem ser acompanhados no FacebookInstagram e TikTok do 24notícias.

__

A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil

Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.

Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.