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Depois de uma década à frente do Bloco de Esquerda, Catarina Martins reaparece agora no centro do debate político como candidata à Presidência da República. A figura pública que sempre protegeu a família da exposição mediática regressa ao confronto político mais visível do país com o objetivo de ser a primeira mulher na presidência.

Catarina Martins, de 52 anos, nasceu no Porto, em 1973. A infância foi passada de malas na mão, tendo rumado a São Tomé e Cabo Verde, acompanhando os pais, professores, e finalmente assentado arraiais em Aveiro, já na década de 80. Com 18 anos foi para Coimbra, onde frequentou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso a meio, para depois, já no Porto, concluir a licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas e um mestrado em Linguística.

Mas não foi apenas no campo do Direito e Línguas que Catarina Martins se formou. Tornou-se também atriz, encenadora e dramaturga. A paixão pelo teatro começou em Coimbra, quando ali esteve a frequentar a universidade. O curso de direito não a convenceu, mas as artes sim, tendo mesmo dirigido, na altura, o Círculo de Iniciação Teatral da Academia Teatral (CITAC), grupo de referência na formação teatral universitária, numa altura em que ainda havia poucos cursos de teatro no país.

Fundou, depois, em 1994, no Porto, a companhia de teatro Visões Úteis, e ali desenvolveu atividade profissional até 2009. Foram viagens atrás de viagens em Portugal, em festivais, escolas, aldeias, cidades, mas também em Itália e Espanha. E foi com estas bases que Catarina Martins chegou à política com um sentido apurado de expressão pública e de responsabilidade cívica. Quem a acompanhou nos anos em que trabalhava em teatro recorda uma "profissional exigente, com forte consciência social e capacidade de transformar textos em ação".

As palavras são do ator Nuno Cardoso, com quem criou Visões Úteis, que a recorda como "uma força da natureza, determinada e  uma lutadora”.

Uma década que transformou o Bloco de Esquerda

Eleita deputada em 2009, assumiu a coordenação do Bloco de Esquerda em 2012 e foi sob a sua liderança que o partido alcançou o melhor resultado eleitoral de sempre: nas eleições de 2015 o BE obtém mais de meio milhão de votos - 10,19% - e elege 19 deputados, sendo a terceira força política mais votada, apenas atrás da coligação PSD/CDS e do PS. Nesse período, para a negociação da então inovadora “geringonça”, a líder bloquista impôs condições que continua a considerar essenciais na luta política, com destaque para a legislação laboral e a subida do salário médio; os serviços públicos, com relevo para a saúde; ou a resposta às questões climáticas.

Após os maus resultados eleitorais de 2022, afirmou que esses resultados “deixaram feridas”, mas insistiu que não havia arrependimento no caminho traçado pelo partido.

Ao anunciar em 2023 que deixaria a liderança, descreveu o seu percurso como “dez anos extraordinários”, sublinhando que a renovação partidária não deve “atropelar gerações, mas acrescentá-las”.

Catarina Martins Bloco de Esquerda
Catarina Martins Bloco de Esquerda créditos: © 2016 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.

Uma candidata presidencial com marca própria

A entrada de Catarina Martins na corrida a Belém confirma o seu regresso à linha da frente do debate nacional. Defende uma Presidência “firmemente comprometida com direitos sociais, com a Constituição e com a defesa de um país menos desigual”. Critica a passividade institucional e promete uma atuação “ativa e vigilante” perante desafios como o custo de vida, a habitação, a qualidade da democracia e a proteção dos serviços públicos.

Em entrevista à SIC Notícias, afirmou que se candidata movida pela ideia de “cuidar da democracia” e pela convicção de que o país precisa de uma presidência atenta às desigualdades sociais, às condições de vida, ao estado dos serviços públicos e ao papel da Cultura na coesão da sociedade.

As últimas sondagens posicionam-na luta pelo sexto lugar, pelo que dificilmente superará o melhor resultado obtido por um candidato do Bloco em eleições presidenciais: o terceiro lugar de Marisa Matias em 2016, com 10,12%.

Ainda assim, diz que a sua candidatura procura mobilizar setores progressistas, apresentando-se como alternativa “claramente identificada com a esquerda” e capaz de disputar terreno político que considera ter sido deixado vazio por presidências mais neutras.

Discrição familiar, intensidade cívica

Filha de antigos militantes do PCP e de ativistas de diversas organizações na esquerda radical, Catarina Martins tem uma herança familiar que involuntariamente a marcou para sempre. Contudo, e apesar do protagonismo nacional, Catarina Martins mantém firme a separação entre a esfera pública e a vida privada.

Raramente partilha momentos familiares e insiste que as duas filhas devem "crescer longe" da exposição política.

“A minha vida não tem nenhum segredo, sou casada com a mesma pessoa [Pedro Carreira] há muitos anos, temos duas filhas. Tentamos os equilíbrios possíveis para uma vida dividida entre o Porto e Lisboa”, disse à TVI, noutra das poucas entrevistas em que abordou o tema.

Questionada sobre o relacionamento com as filhas e “se é mais descontraída ou exigente”, Catarina Martins refere que é “um bocadinho dos dois”.

“Quando quiserem ter uma vida pública terão por aquilo que escolheram fazer e não pela minha escolha. Sobretudo com as minhas filhas acho importante, elas têm de ter o espaço de serem quem são, fazerem os seus amigos, serem avaliadas, crescerem independentemente de mim”, revelou.

Esta sua discrição contrasta com a força da sua intervenção pública, mas quem a conhece nesta esfera percebe a dualidade. "A Catarina era muito discreta, mas fez um percurso sustentado. Inicialmente, perante o público, tinha altos e baixos. Reagia mais a quente. Depois foi ganhando endurance, amadureceu. Hoje transmite muita serenidade e robustez e uma intensidade cívica", diz a amiga Mariana Aiveca.

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