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Com uma população a envelhecer rapidamente e um sistema de pensões historicamente robusto, mas agora sobre pressão, Friedrich Merz sugere soluções para um futuro de transformações profundas nas finanças da Alemanha.
Segundo o Financial Times, o sistema público de pensões enfrenta agora o maior desafio da sua história: a queda acelerada da força de trabalho e o aumento da população reformada.
Até 2036, o número de pensionistas alemães deverá atingir os 19,5 milhões, enquanto apenas 12,5 milhões de jovens trabalhadores deverão entrar no mercado laboral.
Em 2040, será necessário que 100 trabalhadores sustentem 41 reformados, um salto face aos 30 que hoje garantem essa sustentabilidade, segundo o Instituto de Pesquisa Económica de Colónia (IW).
Além disso, os encargos com pensões consomem parcelas cada vez maiores dos orçamentos nacionais (na Alemanha, cerca de 25% do orçamento federal em 2024), deixando o fundo de financiamento muito limitado e sem recursos. Para Friedrich Merz, “o Estado de bem-estar social, da forma como o temos hoje, já não é mais financiável com o que conseguimos produzir economicamente” e é preciso soluções, refere o Expresso.
Nesse sentido, o chanceler propõe uma reforma com cortes nos apoios sociais e a introdução de soluções privadas, como planos de investimento em ações para jovens entre os 6 e os 18 anos. Assim, consegue aliviar a pressão sobre o sistema público, e acompanhada da criação de um subsídio mensal de 10 euros para planos de poupança, visa criar uma almofada financeira alternativa para as futuras gerações, que lhes permita aguentar estas mudanças.
No entanto, a medida já mereceu críticas duras dos sindicatos, como o IG Metall, que considera a proposta “desconectada da realidade e perigosa”, avança o DW.
Em Portugal, a juventude preocupada, pensões em risco
Já os jovens portugueses vivem com receios semelhantes, mas ainda sem respostas políticas claras.
Segundo o estudo Gen Z and Millennial Survey 2025, realizado pela Deloitte, 60% dos Millennials e 54% da Geração Z em Portugal receiam não conseguir poupar o suficiente para garantir uma reforma condigna, cita o Expresso. Estes valores estão bem acima da média global (44% e 41%, respetivamente).
O mesmo estudo aponta o custo de vida como o fator mais preocupante para estas gerações, seguido de perto por conflitos geopolíticos, saúde mental e incerteza profissional.
Com rendimentos baixos e dificuldades no acesso à habitação e educação superior, muitos jovens portugueses vivem sob pressão financeira constante, o que torna difícil planear a longo prazo.
Além disso, o sistema público de pensões em Portugal enfrenta também desafios demográficos. Com uma das taxas de natalidade mais baixas da UE e uma população cada vez mais envelhecida, o número de trabalhadores por pensionista deverá continuar a cair nas próximas décadas. E embora medidas como o regime de capitalização voluntária existam (como os PPRs), não têm merecido uma aposta sistemática por parte dos governos, nem são de confiança para a maioria dos jovens.
Pode haver contágio do modelo alemão para Portugal?
O caso alemão funciona como um aviso sobre o esgotamento do modelo tradicional de segurança social num contexto de desequilíbrio demográfico. Em países como Portugal, pode-se sentir uma certa pressão para adotar soluções híbridas, combinando o sistema público com mecanismos de poupança privada obrigatória ou incentivada.
Contudo, há diferenças significativas entre os dois contextos, começando pela capacidade financeira dos jovens portugueses: com salários mais baixos e uma taxa de precariedade superior à média europeia, a maior parte dos jovens em Portugal dificilmente conseguirá fazer poupanças mensais regulares sem apoios concretos.
Além disso, embora o sistema educativo esteja cada vez mais sensibilizado para a literacia financeira, a informação que existe continua a ser limitada. Qualquer tentativa de transição para modelos baseados em investimento privado implicaria campanhas de educação financeira robustas e contínuas.
A somar a isto, em Portugal, a expectativa de uma reforma garantida pelo Estado continua a ser dominante, como parte dos direitos adquiridos na transição para a democracia e assegurados pelo sistema social. Uma mudança para um modelo de responsabilidade individual no planeamento da reforma exigiria uma mudança cultural profunda, e desigual, considerando a realidade financeira da maioria dos portugueses.
A proposta de Friedrich Merz reforça que os sistemas de reforma europeus estão sob pressão estrutural e que a crise que se instala na Alemanha pode ser apenas o início de uma transformação continental.
O desafio é, em última instância, a sustentabilidade do sistema.
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