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O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, afirmou esta quarta-feira que o mundo atravessa uma “rutura, e não uma transição”, marcada pelo fim da ordem internacional baseada em regras e pelo regresso de uma rivalidade sem constrangimentos entre grandes potências.
No discurso proferido no Fórum Económico Mundial, em Davos, Mark Carney defendeu que países de média dimensão, como o Canadá, não são impotentes e devem agir em conjunto para construir uma nova ordem internacional assente em valores.
Segundo o chefe do governo canadiano, a narrativa de uma globalização benéfica para todos deixou de corresponder à realidade. “Não se pode viver na mentira do benefício mútuo da integração quando essa integração se torna uma fonte de subordinação”, afirmou, referindo-se ao uso crescente de tarifas, cadeias de abastecimento e infraestruturas financeiras como instrumentos de coerção geopolítica.
Mark Carney considerou que instituições multilaterais como a ONU, a Organização Mundial do Comércio ou as cimeiras climáticas estão sob ameaça, o que tem levado muitos países a procurar maior autonomia estratégica em áreas como energia, alimentação, minerais críticos e defesa. Ainda assim, alertou para os riscos de um mundo “de fortalezas”, que seria “mais pobre, mais frágil e menos sustentável”.
Recorrendo a uma metáfora inspirada no ensaio "The power of the powerless" (em tradução livre, "O Poder dos Sem-Poder"), de Václav Havel, cuja pergunta primordial é: "como o sistema comunista conseguiu vingar?".
O líder canadiano explicou que a resposta do autor "começou com um merceeiro. Todas as manhãs, este merceeiro coloca um cartaz na sua montra: "Trabalhadores do mundo, uni-vos!" Ele não acredita nisso. Ninguém acredita. Mas coloca o cartaz na mesma para evitar problemas, para sinalizar conformidade, para se dar bem. E como todos os merceeiros de todas as ruas fazem o mesmo, o sistema persiste."
Prosseguiu afirmando que chegou o momento de países e empresas “retirarem o cartaz da montra”, isto é, deixarem de fingir que a ordem internacional funciona como antes. Para Mark Carney, a honestidade sobre a realidade geopolítica atual é o primeiro passo para uma política externa eficaz.
Nesse contexto, apresentou a nova orientação estratégica do Canadá, que descreveu como um “realismo baseado em valores”. O país pretende manter o compromisso com princípios como a soberania dos Estados, a integridade territorial, os direitos humanos e a proibição do uso da força fora do quadro da ONU, ao mesmo tempo que adota uma abordagem pragmática às relações internacionais.
Mark Carney sublinhou que o Canadá está a reforçar a sua posição interna, com cortes de impostos, eliminação de barreiras ao comércio interprovincial e um plano acelerado de investimento em energia, Inteligência Artificial, minerais críticos e corredores comerciais. O Governo prevê ainda duplicar a despesa em defesa até ao final da década e diversificar parcerias internacionais.
Nos últimos meses, o Canadá assinou acordos estratégicos com a União Europeia, juntou-se aos mecanismos europeus de aquisição conjunta em defesa e celebrou novos entendimentos com países como a China e o Qatar. Estão também em curso negociações comerciais com a Índia, a ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático) e países da América Latina.
No plano da segurança internacional, Mark Carney reafirmou o apoio do Canadá à Ucrânia, à NATO e ao princípio da defesa coletiva, bem como o apoio à soberania da Gronelândia e da Dinamarca no Ártico. O primeiro-ministro manifestou ainda oposição ao uso de tarifas como instrumento de pressão e defendeu soluções negociadas para garantir segurança e prosperidade na região ártica.
Para Mark Carney, as potências médias devem agir em conjunto. “Se não estamos à mesa, estamos no menu”, avisou, defendendo a criação de coligações flexíveis entre países com valores e interesses comuns, em vez de uma dependência exclusiva das grandes potências.
"É preciso deixar de invocar a chamada “ordem internacional baseada em regras” como se esta ainda funcionasse tal como foi concebida e assumir a realidade tal como ela é: um sistema marcado pela intensificação da rivalidade entre grandes potências, em que os mais fortes prosseguem os seus interesses recorrendo à integração económica como instrumento de coerção".
Acrescentando que "quando as potências médias denunciam a intimidação económica vinda de um lado, mas permanecem em silêncio quando ela parte de outro, continuam a perpetuar a ilusão e a manter “o cartaz na montra”.
“O velho mundo não vai regressar. A nostalgia não é uma estratégia”, concluiu. Ainda assim, afirmou acreditar que da atual rutura pode nascer uma ordem internacional “mais forte, mais justa e mais honesta”, desde que os países intermédios assumam um papel ativo e coordenado.
"Os poderosos têm o seu poder. Mas nós também temos algo: a capacidade de deixar de fingir, de nomear a realidade, de construir a nossa força em casa e de agir em conjunto.
Esse é o caminho do Canadá. Escolhemo-lo abertamente e com confiança."
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