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27 de junho. A noite passou a correr e o novo dia de peregrinação começa com uma única certeza: vamos dizer que em cerca de dez horas pisamos três países.

De Barcelona é preciso chegar a Turim. Os peregrinos estão mais ou menos descansados, a noite serviu para restabelecer forças. No autocarro, o ambiente é de festa quando tem de ser de festa, de oração quando tem de ser de oração. Por isso não espanta quando a música começa ao despique entre as duas pontas, ora um cântico beato, ora um clássico da música portuguesa. Todos são recebidos com igual entusiasmo.

Pelo meio há também tempo de se conhecer quem não se conhecia no autocarro. O microfone está ligado, há perguntas a serem lançadas para o ar.

Como é que te chamas? É a primeira vez que vens numa peregrinação assim? Foste à JMJ? O que estudas ou onde trabalhas? Alguma coisa embaraçosa ou curiosa que queiras contar?

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Os quilómetros passam e Espanha dá lugar a França. A paisagem é completamente diferente e não tarda a que se comente isso mesmo. O mundo acabou de mudar, com montanhas a perder de vista e, de vez em quando, um rio que passa a mostrar que há mesmo dúvidas entre tons de verde e azul. O céu também muda. O azul solarengo dá lugar a um cinzento duvidoso. Será que lá fora está frio? A temperatura indicada a letras vermelhas no autocarro diz que não, mas não parece encaixar com o que se vê. Na verdade não há mistério nenhum: é só o efeito dos Alpes franceses a dar um ar de sua graça.

Numa breve paragem necessária aos motoristas (e a todos) temos oportunidade de comprovar isso mesmo. O contraste de temperaturas é enorme, o ar limpo entra nos pulmões. Ali ao fundo há uma cascata a cair da montanha, aquela árvore é enorme e aquelas florinhas amarelas parecem primas das bocas-de-lobo portuguesas.

Florinhas amarelas
Florinhas amarelas créditos: Alexandra Antunes @MadreMedia

Neste dia, as refeições fazem-se em modo piquenique. O que foi entregue nos kits de refeição é posto a render. Já ninguém pode olhar para as latas de atum ou salsichas. Mas, mais uma vez, a máxima surge: o peregrino apenas agradece... e come o que há. Valha-nos a vista.

Os quilómetros sucedem-se e percebemos que a comitiva de autocarros está novamente com tempos diferentes. Imprevistos acontecem, há que lidar com tudo isso de sorriso no rosto. Chegamos quando chegarmos. Contudo, é impagável o ar de entusiasmo quando as placas da estrada mudam para italiano. Os peregrinos sentem que estão mais perto do destino final.

Antes disso, a chegada é a Colle Dom Bosco, espaço salesiano que abre portas a 1600 portugueses irrequietos que, ao fim do dia, só querem tomar um banho e descansar. Mais uma vez, as perguntas repetem-se nestas temáticas. E há de tudo: quem tenha água quente e quem tenha de suster a respiração para um duche rápido... e frio. Quanto ao descanso, uma surpresa para alguns peregrinos: há camas. Camas a sério, almofadas a sério. Não dá para todos, mas os contemplados aleatoriamente na divisão do espaço agradecem a generosidade. Esta jornalista-peregrina incluída.

Na missa, D. Rui Valério lembrava que Deus desarranja — num sentido positivo —e que tem a capacidade de virar projetos de vida para outro rumo. Quem crê assim o confirma. Porém, acrescenta-se aqui outra frase que não foi proferida nesta circunstância: Deus providencia. E não tem mesmo faltado nada.

28 de junho. O dia começa barulhento. Há alarmes a tocar desde as 6h30. Nem todos tomaram banho na véspera, há mochilas a arrumar e o espaço onde se pernoitou a visitar. Três igrejas e a casa de S. João Bosco.

Depois de um pequeno-almoço distribuído no pátio (abençoada foccacia, entre outras coisas), as mochilas ficam acumuladas em montes enquanto jovens se espalham pelas imediações. A curiosidade é muita, o espaço é bonito e a paisagem em redor de cortar a respiração. Todavia, tudo acaba. Os autocarros começam a chegar e é preciso ir até Turim, mas não sem antes se fazer uma onda para o Instagram e registar em fotografia a presença de tantos peregrinos naquele local.

Já no centro da cidade, a vida acontece livremente. O único compromisso é a missa, ao início da tarde, na catedral, igreja que alberga o Santo Sudário. Fora isso, o tempo livre permite que cada grupo pense no que quer fazer, ver e... comer.

Estamos em Itália, toda a gente quer provar pizza e gelado. E assim foi para uns quantos, mesmo que à segunda tentativa porque acabou a massa ou qualquer outro motivo. E não há dúvida: a pizza sabe mesmo a pizza — e não se pode fazer piadas com ananás com receio de represálias por parte dos italianos —, o gelado sabe mesmo a gelado caseiro e há quem se atreva a provar sabores mais locais, como amarenata.

Entretanto, o dia segue. Há mais ruas para ver, igrejas para visitar. Discute-se arquitetura, arte, história. A cidade presta-se a isso. Há quem diga que não é das mais bonitas, mas as opiniões dividem-se.

E, como não podia deixar de ser, há comida a ser comprada para o jantar. Precisamos de saladas e fruta fresca, para compensar o resto do dia. Ninguém quer um restaurante, fast food também não serve, basta um supermercado. E umas escadarias numa praça tornam-se na melhor das mesas requintadas.

Os autocarros chegam apenas às 23h00. Caem uns pingos de chuva, mas continua o calor. A noite vai ser de viagem até Roma. Já não falta tudo.