Negociações de paz na Ucrânia: o que ainda separa Kiev, Washington e Moscovo

Beatriz Cavaca
Beatriz Cavaca

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O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, deverá reunir-se este domingo com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Florida, para novas conversações destinadas a pôr fim à invasão russa da Ucrânia. O encontro surge numa fase considerada decisiva, com um plano de paz de 20 pontos “quase concluído”, mas ainda com várias questões sensíveis por resolver.

Zelensky afirmou que o documento em discussão “está cerca de 90% pronto” e que “muito pode ser decidido antes do Ano Novo”. O líder ucraniano adiantou ainda que estarão em cima da mesa garantias de segurança e um “acordo económico”, sublinhando, no entanto, que não sabe “se algo será finalizado até ao final” das negociações.

O que está em cima da mesa nas conversações?

Segundo Zelensky, o encontro abordará vários temas centrais, incluindo questões territoriais e garantias de segurança. “A Ucrânia também vai levantar questões territoriais”, afirmou o presidente, citado pela Sky News.

As conversações decorrem num contexto de forte pressão militar, depois de a Rússia ter lançado um ataque de grande escala contra Kiev na véspera do encontro.

Que garantias de segurança podem ser acordadas?

As garantias de segurança são apontadas por Kiev como a principal prioridade. Zelensky explicou que estas dependem de Trump e “do que ele está preparado para dar, quando está preparado para dar e por quanto tempo”.

No início da semana, em declarações ao site Axios, o presidente ucraniano revelou que os Estados Unidos propuseram um acordo de garantias de segurança com a duração de 15 anos, renovável. Kiev, no entanto, pretende um compromisso mais duradouro e com cláusulas legalmente vinculativas, que impeçam futuras agressões russas.

Donald Trump, por seu lado, sublinhou o papel central de Washington no processo, dizendo ao jornal Politico: “Ele não tem nada até eu aprovar. Vamos ver o que ele tem”.

Os Estados Unidos comprometeram-se, em princípio, a fornecer garantias semelhantes ao Artigo 5.º da NATO, o que significaria que um ataque à Ucrânia desencadearia uma resposta militar coletiva dos EUA e dos seus aliados. Ainda assim, vários detalhes permanecem indefinidos.

Zelensky afirmou ainda que existe uma “visão comum” entre Kiev e Washington para a reconstrução do país após a guerra, incluindo a criação de vários fundos de investimento.

Porque é que o território continua a ser o maior obstáculo?

As questões territoriais continuam a ser um dos pontos mais difíceis das negociações. Zelensky confirmou que irá discutir o Donbass e a central nuclear de Zaporizhzhia, mas foi categórico ao afirmar que a Ucrânia nunca reconhecerá territórios como russos “em circunstância alguma”.

A Rússia exige que a Ucrânia se retire de partes da região de Donetsk que as forças russas não conseguiram ocupar totalmente em quase quatro anos de guerra, numa tentativa de garantir o controlo total do Donbass, que inclui Donetsk e Luhansk.

Kiev, por sua vez, defende que os combates devem cessar ao longo das atuais linhas da frente.

Numa tentativa de compromisso, os Estados Unidos propuseram a criação de uma zona económica livre caso a Ucrânia abandone partes da região de Donetsk. A proposta, no entanto, não especifica como essa zona funcionaria.

Segundo o Axios, Zelensky admitiu que, se não conseguir convencer os EUA a apoiar a posição “forte” da Ucrânia sobre o território, estará disposto a submeter o plano de 20 pontos a referendo — desde que a Rússia aceite um cessar-fogo de 60 dias para permitir a preparação e realização da votação.

De acordo com o jornal russo Kommersant, o presidente russo Vladimir Putin terá dito a empresários de topo que poderia estar aberto a trocar alguns territórios controlados pelas forças russas noutras zonas da Ucrânia, mas apenas em troca do controlo total do Donbass.

Central nuclear de Zaporizhzhia continua sem solução

Outro dossiê sensível é o da central nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa, ocupada pela Rússia desde o início da guerra. Apesar de quase toda a comunidade internacional considerar que a central pertence à Ucrânia, Moscovo afirma que é propriedade russa e está sob gestão da empresa estatal Rosatom.

Zelensky revelou que os Estados Unidos propuseram uma operação conjunta trilateral da central, envolvendo EUA, Ucrânia e Rússia. No entanto, a proposta ucraniana prevê uma gestão ucraniano-americana, com os EUA a decidirem a utilização de 50% da energia produzida.

O especialista em energia Oleksandr Kharchenko, diretor do Centro de Investigação Energética de Kiev, afirmou que Moscovo pretende usar a central para colmatar um défice energético significativo no sul da Rússia. Acrescentou ainda que a Ucrânia demoraria “cinco a sete anos” a construir capacidade de produção suficiente para compensar a perda da central.

O que diz Moscovo?

O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que Moscovo considera que Kiev não tem pressa em resolver o conflito por meios pacíficos. Segundo a agência Interfax, Putin disse que, se a Ucrânia não quiser uma solução negociada, a Rússia atingirá os objetivos da sua “operação militar especial” pela força.

As declarações surgiram após um ataque massivo russo com drones e mísseis durante a noite. Zelensky afirmou que o bombardeamento demonstra que Moscovo quer continuar a guerra, enquanto Kiev procura a paz.

Donald Trump mostrou-se otimista quanto ao encontro, afirmando acreditar que a reunião “vai correr bem”, acrescentando que espera falar com Vladimir Putin “em breve, assim que eu quiser”.

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