Papa diz que o mundo está a ser "devastado por um punhado de tiranos"

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O Papa Leão XIV afirmou que o mundo está a ser “devastado por um punhado de tiranos” que investem milhares de milhões em guerras, numa intervenção que surge como mais um episódio na crescente tensão com a Casa Branca, no contexto do conflito entre os Estados Unidos e Israel contra o Irão.

Sem mencionar diretamente Donald Trump, o primeiro pontífice nascido nos Estados Unidos aproveitou um discurso proferido esta quinta-feira, nos Camarões, para criticar líderes mundiais que utilizam a religião como justificação para a violência entre nações.

As declarações foram feitas na catedral de São José, na cidade de Bamenda, onde o Papa condenou de forma veemente a instrumentalização da fé. “Ai daqueles que manipulam a religião e o próprio nome de Deus para ganhos militares, económicos e políticos, arrastando o que é sagrado para a escuridão e a imundície”, afirmou.

O líder da Igreja Católica criticou também a forma como são alocados recursos globais, sublinhando o contraste entre os investimentos em armamento e a escassez de meios para áreas essenciais. Segundo Leão XIV, “milhares de milhões de dólares são gastos em morte e destruição”, enquanto faltam recursos para saúde, educação e reconstrução.

Ainda no mesmo discurso, o Papa reforçou a ideia de que, apesar dos conflitos, existe uma base de solidariedade global. “O mundo está a ser devastado por um punhado de tiranos, mas é mantido unido por uma multidão de irmãos e irmãs solidários”, afirmou, numa mensagem dirigida aos fiéis durante a sua viagem de 11 dias pelo continente africano.

As palavras do pontífice surgem numa altura em que enfrenta críticas vindas da administração norte-americana. O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, convertido ao catolicismo, criticou recentemente o Papa por se pronunciar sobre a guerra, sugerindo que deveria limitar-se a questões morais e evitar intervenções políticas.

Vance questionou ainda a posição do Papa relativamente ao conceito de “guerra justa”, referindo uma tradição com mais de mil anos na doutrina católica. No entanto, a Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos saiu em defesa de Leão XIV, afirmando que o vice-presidente interpretou de forma incorreta as suas declarações.

Num comunicado divulgado na quarta-feira, os bispos sublinharam que a Igreja sempre ensinou que o recurso à guerra só pode ser legítimo em situações de autodefesa e após o esgotamento de todas as vias pacíficas. Acrescentaram ainda que, ao pronunciar-se sobre estes temas, o Papa não está apenas a expressar opiniões, mas a exercer o seu papel como líder espiritual da Igreja universal.

Já durante a viagem para a Argélia, no início da semana, Leão XIV rejeitou qualquer receio em relação a Trump e procurou distanciar-se de um confronto direto. “Não sou um político e não quero entrar num debate com ele”, afirmou aos jornalistas. Ainda assim, garantiu que continuará a falar de forma firme contra a guerra, promovendo o diálogo, a paz e o multilateralismo.

Entretanto, também nos Estados Unidos, surgiram outros desenvolvimentos relacionados com esta tensão. Segundo o Miami Herald, a administração Trump terá decidido retirar financiamento a uma organização católica em Miami que presta apoio a crianças imigrantes.

A Catholic Charities da arquidiocese local revelou que um contrato de 11 milhões de dólares foi cancelado, colocando em risco um programa dedicado a menores não acompanhados e sem documentação, anteriormente detidos pelas autoridades de imigração.

O arcebispo de Miami alertou que o fim do financiamento poderá levar ao encerramento dos serviços no prazo de três meses, sublinhando o impacto numa população particularmente vulnerável. Ainda assim, fontes governamentais justificaram a decisão com a redução do número de menores sob tutela federal e com a reorganização de recursos.

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