Três décadas depois da morte de Alcindo Monteiro, o racismo continua a matar?
Faz hoje 30 anos que Alcindo Monteiro foi assassinado, vítima de violência racial no Largo do Carmo, em Lisboa - um dos crimes de ódio mais marcantes da democracia portuguesa.
Mais de meio milhar de pessoas realizaram hoje a maior homenagem a Alcindo Monteiro no centro de Lisboa, num protesto contra o racismo.
Alcindo Monteiro, filho de pais cabo-verdianos, tinha 27 anos e no dia 10 de junho de 1995 tinha saído de casa para se divertir. No entanto, a saída, e a vida, do jovem foram interrompidas por um grupo de skinheads, que o espancou brutalmente, provocando a sua morte, dois dias depois.
Mas Alcindo não foi o primeiro, nem o último, a ter a sua vida retirada, pelas mãos do ódio.
Seis anos antes da morte de Alcindo, José Carvalho foi esfaqueado à porta da sede do Partido Socialista Revolucionário, do qual era militante. Foi a primeira vez que skinheads mataram em Portugal. O homicida, Pedro Grilo, fugiu da prisão.
Luís Giovani Rodrigues, um estudante cabo-verdiano de 21 anos, morreu a 31 de dezembro de 2019, após ter sido espancado com paus e ferros por 15 homens à saída de uma discoteca, em Bragança.
Bruno Candé, ator de 25 anos e filho de pais oriundos da Guiné-Bissau, foi assassinado a 25 de julho de 2020 em Moscavide, vítima de um crime de ódio racial, segundo a acusação do Ministério Público.
Era pai de três filhos e residia no Casal dos Machados, na freguesia do Parque das Nações.
O homicida, Evaristo Marinho, de 76 anos, teria iniciado uma discussão com o ator devido ao ladrar da cadela de Bruno Candé. Dias antes, tinha proferido insultos como “volta para a senzala”, “fui à tua mãe e àquelas pretas todas de merda”, e ameaçou matá-lo com “armas do Ultramar”. Dias depois, disparou quatro tiros à queima-roupa, tirando a vida a Bruno Candé.
Trinta anos depois, o nome de Alcindo Monteiro continua a ser um símbolo da brutalidade do racismo, mas também da urgência da memória.
A violência que o matou não foi um caso isolado, nem ficou presa aos anos 90.
Se o nome de Alcindo Monteiro ainda ecoa, é porque a sua história continua a repetir-se — com outros nomes, outros sotaques, e outras caras.
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