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Apesar da agenda curta nesta primeira visita em trabalho, a autora fez questão de percorrer Lisboa a pé, beber café e visitar mercearias. “O lugar é uma personagem”, explicou. “Quando vou a um sítio novo, quero aprender o caráter desse lugar.”

O novo livro, Enterrai os Nossos Ossos no Solo da Meia-Noite carinhosamente abreviado para Bones (ossos), é descrito pela própria como uma história de “vampiras lésbicas e tóxicas”. Uma provocação? Sim, mas também um manifesto artístico. “Muitas vezes, na literatura queer, dizem-nos para suavizar certas características, para gerar atenção para o livro”, explicou. “Eu queria ser muito clara: este é um livro sobre mulheres queer, sobre toxicidade, sobre monstros. Não queria esconder isso.”

A obra reúne três protagonistas lésbicas em diferentes períodos. Na sinopse levanta-se o véu às histórias, a primeira parte passa-se em Santo Domingo de la Calzada, 1532. Uma jovem cresce selvagem e astuta, a sua beleza só é superada pelo desejo de fuga. Mas María sabe que apenas pode ser um prémio ou um peão nos jogos dos homens. Quando um estranho lhe oferece um caminho alternativo, María faz uma escolha desesperada e jura não se arrepender. A segunda "é uma história sobre amor". Londres, 1827. Uma jovem vive uma vida idílica, mas fechada na propriedade da família, até que um momento de intimidade proibida a leva para Londres, o coração terno de Charlotte e os seus desejos aparentemente impossíveis são varridos pelo convite de uma viúva, mas o preço da liberdade é mais alto do que ela pode imaginar. E a última "é uma história sobre raiva". Boston, 2019. A faculdade devia ser a oportunidade de se reinventar. Foi por isso que Alice se mudou para o outro lado do mundo e deixou a sua antiga vida para trás. Mas depois de um caso de uma noite fora do normal a deixar a questionar o passado, o presente e o futuro, Alice lança-se numa caça por respostas e vingança.

V.E Schwab sublinha a importância dessa pluralidade. Quando existe apenas uma personagem queer numa narrativa, explica, “ela torna-se representante de uma identidade inteira, e isso é injusto e irreal”. A intenção é precisamente o contrário: romper com a ideia de que existe um único molde de mulher, de que as identidades são monolíticas. “Às vezes somos esperançosas. Às vezes somos furiosas. E merecemos ser ambas”.

No primeiro capítulo do manuscrito lê-se que "esta é uma história sobre fome". A autora explica que não é apenas a fome literal, mas fome emocional, intelectual, física e social. “Sempre fui uma pessoa faminta”, diz, sem ironia. “E acho que as mulheres são ensinadas a não ter fome, pelo poder, pela liberdade, pela experiência. Somos ensinadas a encolher.”

Bones nasce desse impulso de recusar a diminuição. Durante anos, confessa, apagou a própria ambição para não incomodar. “Este livro sou eu a deixar de me tornar pequena em nome de outras pessoas.”

Quando o tema passa para o livro, A Vida Invisível de Addie Larue, o maior sucesso comercial, a autora recorda uma pergunta que a deixou desconfortável: “Como consegue continuar a escrever sabendo que nunca mais alcançará aquele nível?” Ela sorri com a memória, mas o impacto é visível. “Assume que o que me interessa são vendas. Mas o meu livro mais amado não é o mais vendido.”, revela mencionado o livro Vicious.

Pré-publicação de "A Vida Invisível de Addie Larue". Quando se negoceia a vida eterna, há sempre sacrifícios a fazer
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O verdadeiro desafio, confessa, é escrever antes que a ideia se torne demasiado preciosa. Addie levou dez anos, oito deles de medo, não de escrita. “Quanto mais tempo uma ideia existe apenas na minha cabeça, mais perfeita se torna. E impossível de concretizar.”
Aprendeu a não esperar tanto. Três anos, diz, é o tempo ideal para uma ideia germinar. Depois disso, tem de sair. “O primeiro rascunho é sempre o mais difícil, porque é o momento em que tornas a ideia imperfeita.”

Schwab fala da literatura como quem fala da sobrevivência. Para ela, a ficção é o primeiro ensaio da mudança: “Quando não nos sentimos empoderados no mundo real, criamos espaços onde vemos o que o empoderamento pode ser.” Muitos leitores dizem-lhe que personagens como Addie (personagem principal do livro A Vida Invisível de Addie LaRue) ou Sabine (Uma das protagonistas do novo livro Enterrai os Nossos Ossos no Solo da Meia-Noite) lhes ensinaram a ocupar espaço, e, surpreendentemente, a autora admite que precisa dessa força tanto quanto eles. “Um amigo disse: “Pergunta-te se a Sabine se desculparia por isto.” E tinha razão.

Num mundo saturado de estímulos, o 24notícias perguntou como protege o cérebro criativo. “É difícil. Tenho de o reabastecer constantemente”, responde. Lê cerca de 150 livros por ano, não como fuga, mas como ferramenta de trabalho. E não so livros: museus, música, filmes, arquitetura, pequenos gestos na rua. “Não coleciono ideias inteiras, coleciono vibrações, momentos, energias”.

É nesse mosaico de sensações que as histórias nascem. "Mas a coisa linda sobre ideias é que elas não são originais, mas a sua execução é. Então, se eu der a 100 pessoas a mesma ideia, essa ideia vai gerar 100 histórias diferentes."

Schwab mostra preocupação com a tendência atual, como o booktok, para consumirmos apenas aquilo que já sabemos que gostamos. “Se só lês o que te conforta, nunca descobres novas perspetivas.” O conselho que deixa aos leitores, e, sobretudo, aos escritores, é simples: por cada livro dentro da zona de conforto, escolhe outro completamente fora dela.

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É aí que, acredita, nasce a criatividade. E também a empatia. “A arte é um motor de empatia”, diz. “A arte é um desses espaços em que se é exposto a culturas, ideologias e identidades que não são as nossas."

Ao 24notícias confidenciou o seu livro preferido: "O conde de Monte Cristo", de Alexandre Dumas. "Eu acho que é perto de perfeito. É perigoso, engraçado, escuro, expansivo e um desses textos raros que não se sente do seu tempo, sente-se como se fosse tão perfeito agora como quando foi escrito. Muito poucos textos podem fazer isso.", afirma.

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