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Thera‑Me

Exercício n.º 1

Enfio o lápis atrás da orelha. Ponho o caderno de esboços ao lado do meu rosto e inclino­‑me para o espelho. Faço o inventário das minhas feições no autorretrato. Vejamos. Reproduzi a forma oval do meu rosto, as sobrancelhas pretas bem arqueadas alla Puglia e um nariz toscano satisfatório, que se destaca mas não é demasiado grande. Os lábios são cheios no centro, com vírgulas nos lados. E finalmente. Os olhos. Dois planetas redondos e escuros de dor.

Apoio o caderno de esboços em cima da mesa e ponho­‑me de pé para observar o desenho de uma perspetiva diferente. Já olho para este rosto há trinta e três anos, portanto seria de esperar que não houvesse surpresas. Debruço­‑me sobre o meu trabalho e semicerro os olhos. O cabelo não está bem. Seguro entre os dedos a ponta do lápis de grafite HB paralela à folha e passo­‑a acima da testa em riscos rápidos e sucessivos, esfumando a linha do cabelo com o polegar e suavizando as madeixas finas nas têmporas. Já usei todas as técnicas para aligeirar o efeito geral e levantar o ânimo desta faccia, mas, por mais que tente, continuo a olhar para o retrato de uma mulher infeliz.

Tiro uma fotografia ao esboço.

Cara Dra. Sharon,

Anexo o autorretrato que solicitou. Ganho a vida a desenhar instalações de mármore à escala. Sou uma desenhadora que também fornece projetos de design a clientes. Perdoe‑me a ausência de subtileza no esboço, mas é uma reprodução fiel de como me vejo.

Diz‑se que um viagem de mil quilómetros começa com um só passo, mas ao que parece a minha começou com uma série de passos em falso que levou a uma queda aparatosa. É por essa razão que estou aqui. Preciso da sua ajuda para me levantar e avançar.

Emocionalmente.

Dulce de Souza Gonçalves junta-se ao É Desta Que Leio Isto no próximo encontro, marcado para dia 30 de julho, uma quinta-feirapelas 21h00. Consigo traz "O Processo", publicado pela Gradiva.

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Li na Internet as suas Dicas para o Contentamento. Faz a tua própria felicidade. Com todo o gosto, quando conseguir defini‑la. Segue o teu coração. É fácil de dizer aos outros, claro, segue o teu coração, mas só se tiver um bom sentido de orientação. Escuta a tua voz interior. Estou a tentar. Quando sigo as publicações diárias no Instagram que mostram uma chávena de café, uma bolacha e o conselho de filósofos, dá‑me a impressão de que a minha vida só fica pior. Estou a tentar mudar, mas a reinvenção é um trabalho impossivelmente difícil para alguém que não sabe ao certo por onde começar. Ou como.

Sabe, eu sou a pessoa da minha família que faz tudo para agradar, a cozinheira, criada, ama e motorista que todos tomam como certa. Se pensar no futuro, vejo‑me como a cuidadora, responsável pelos nossos pais, que em breve serão idosos, porque o meu irmão e a minha irmã têm a sua própria família. Saí recentemente de uma relação e não tenho filhos, o que significa que estou disponível para prestar serviço – mais ainda do que antes.

O meu papel está definido como se tivesse sido gravado em mármore. E eu conheço bem o mármore. Criei um quadro de sonhos, com fotografias e imagens de tudo aquilo por que anseio: tem a forma da Itália, o que deve dizer‑lhe alguma coisa sobre o meu grande desejo. Há as colinas ondulantes da Toscana, as pedreiras de mármore de Carrara e as lanchas do Lago Como. Quero celebrar a vida, não temê‑la.

Mudei‑me para o apartamento na cave da casa dos meus pais quando decidi deixar o meu marido. A minha família reza para que eu reconsidere e volte para o meu ex. Não são os únicos. A população da nossa cidade concorda. De facto, na nossa igreja, a Confraria, a irmandade das mulheres equivalente à dos homens, os Cavaleiros de Colombo, até ofereceu uma missa (humilhante) pela nossa reconciliação. Rezavam fervorosamente para um lado enquanto eu rezava para o outro. Rezei o terço tantas vezes durante o meu processo de divórcio que apaguei o rosto de Jesus do crucifixo.

Tenho passaporte desde os dezoito anos, mas nunca o usei. É só página atrás de página em branco num padrão azul‑marinho imaculado sem um único carimbo de qualquer país ou a mínima esfoladela na capa de pele. Quando fui renová‑lo no ano passado,
o funcionário do serviço de passaportes perguntou‑me, «Para quê dar‑se ao trabalho?».

Quero dar‑me ao trabalho! Quero saber como é ver os lugares em que já vivi na minha imaginação desde que li sobre eles pela primeira vez em livros. Há alguma coisa para mim por esse mundo fora, Dra. Sharon? A felicidade existe? Se sim, pode ajudar‑me a encontrá‑la? Com ou sem a bolacha que aparece nas publicações do Instagram.

G. C. B., Lake Como, Nova Jérsia

2

O Negócio de Família

A luz vermelha dos faróis traseiros do Impala amareloesverdeado do tio Louie piscam enquanto ele tira o carro da garagem para me dar uma boleia para o trabalho. Ele e a tia Lil vivem na última casa do quarteirão, na esquina antes do cruzamento da Surf Avenue, que leva à praia. A casa dele, a que deram o nome de Cape Cod, com o jardim mais bem cuidado de Nova Jérsia, destaca-se entre a série de casas típicas desta zona pintadas de branco ou de azul­‑claro que debruam a curva da marginal de Lake Como como uma fiada de opalas cintilantes.

Ao longo dos anos, a tia Lil e o tio Louie têm instalado todo o tipo de ornamentações e apontamentos arquitetónicos aos dois mil metros quadrados do seu terreno. Há um lago com carpas koi, uma fonte de mármore com três andares e um caminho de acesso à casa com ladrilhos raiados de dourado que serpenteia até à porta da frente qual estrada de tijolos amarelos. No jardim das traseiras há uma réplica do Partenon construída em mármore de Carrara onde todos os anos recebem os Cavaleiros de Colombo para o churrasco de salsichas do 4 de Julho.

– A minha casa é um anúncio do meu negócio – diz o tio Louie. – Trabalho artesanal italiano e elegância americana? – pergunta, e de seguida responde: – Sou o homem certo para si.

Se ele é o homem certo, eu sou a ajudante certa. O tio Louie é o meu patrão na Capodimonte Marble and Stone, o nosso negócio
de família desde 1924.

O meu tio para na berma. Inalo o ar frio da manhã. Faz­‑me cócegas no nariz e enche­‑me os pulmões, o que me faz espirrar com o corpo todo. Procuro um lenço de papel na mala de mão.

– Jess? A sério?! – diz o tio Louie pela janela aberta enquanto limpo o nariz.

Entro no carro e aperto o cinto. Ele faz um gesto com a mão fechada.

– Deixa a janela aberta do teu lado para os germes saírem.

– Não estou doente. É a temperatura.

– Ah, agora és cientista? Se não apanhares frio, não apanhas um resfriado. Palavras sábias da minha mãe.

– A tua hipocondria agrava­‑se sempre que a estação do ano muda.

– Reparaste, hem? – A boca do tio Louie curva­‑se num sorriso.

Reparo em tudo, vejo tudo, mas não vale a pena gabar­‑me disso. Uma visão do mundo não serve de muito quando se vive numa cidade pequena, a não ser que se tenha um passaporte válido.

No que diz respeito a Lake Como, na Nova Jérsia, as famílias Capodimonte e Baratta são donas de North Boulevard. Os meus avós Cap viviam a duas casas da nossa, os avós Baratta a três na outra direção. Já se foram todos; a casa dos Baratta ficou para o nosso
primo Carmine em 2019, e a casa dos Cap permanece intocada desde a morte da avó em 2022. Chamamos­‑lhe o Museu Lake
Como, porque se mantém intacta: nem uma colher de chá foi retirada desde o falecimento da avó. Ao longo da curva do lago, o resto das casas é ocupado por outros parentes.

Livro: “Uma Janela sobre o Lago Como”

Autor: Adriana Trigiani

Editora: ASA

Data de lançamento: junho de 2026

Preço: € 20,90

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Sempre que fazíamos uma festa do quarteirão, fechávamos a rua e tornávamo­‑nos uma versão do restaurante Villa Capri em Paterson na noite de buffet livre para a família. Éramos um arraial italoamericano sem o espetáculo, com petiscos à discrição e consumo mínimo de duas bebidas. Além da vida social, a nossa família partilha a rua, uma canoa e a devoção a Nossa Senhora.

Pode encontrar­‑se uma estátua da Virgem Maria em todos os jardins das casas junto ao lago. Talvez pareça que impera o regime patriarcal, mas os italo­‑americanos sabem que é a mãe que tem o poder nas mãos.

Philomena Capodimonte Baratta, a minha mamma mia Madonne, é prova disso.

– A que vem o casaco? – O tio Louie mira a minha indumentária.

– Deu­‑mo a Connie.

– Ainda continuas a herdar a roupa da tua irmã?

– Fica­‑me mal? – Aliso o tecido de linho azul­‑marinho com as mãos.

Não estou à altura do código de elegância no vestir do meu tio Louie. Nunca estive. Louie Cap é o último de um grupo de homens
italo­‑americanos que se criaram com os Beatles, mas nunca se esqueceram de Louis Prima (1).

Veste­‑se a rigor, ao estilo Rat Pack dos anos 1950. Usa mocassins de pele como Frank Sinatra e fatos com colete como Jerry Vale, alterados para se ajustarem ao seu corpo magro. Usa sempre um colete cintado por baixo do casaco, porque gosta de se sentir apertado.

– As roupas fazem a mulher – recorda­‑me o tio Louie. – Que diabo aconteceu aqui? Pareces a Central da Depressão.

– Estou a tratar disso. Inscrevi­‑me no Thera­‑Me. É um programa de terapia online. Aparecem­‑me tantos anúncios desse site que devo estar na lista do público­‑alvo deles.

– Seja o que for que isso queira dizer – resmunga Louie. – O meu objetivo é chegar às portas do Céu sem ter de instalar nem mais
uma aplicação.

– Foi­‑me atribuída a doutora Sharon no Zoom.

– É uma médica a sério? – pergunta o tio Louie.

– Inscrita na Ordem dos Médicos. Mandou­‑me desenhar um autorretrato. E pediu­‑me que escrevesse um diário. Quer que registe
as minhas recordações, as felizes e os tempos dolorosos. Disse que a experiência passada é o alicerce da saúde mental no futuro. – Mostro o meu autorretrato ao tio Louie.

Ele lança­‑lhe um olhar enquanto conduz.

– Não se parece contigo.

– O que queres dizer?

– Se fosse a ti, tentava outra vez. – O tio Louie faz uma careta.

– Demasiado tarde. Já o enviei.

– Essa coisa da terapia é cara?

– Custa mais ou menos o mesmo que a mensalidade num ginásio.

– Hum. Que roubalheira! Para que precisas de uma psiquiatra quando me tens a mim? Sou como um padre. Na minha idade, não
há nada que possas dizer­‑me que me choque minimamente.

– Há coisas de que nem sequer a ti poderia falar.

– Embora eu tenha um lado feminino muito sensível?

– Não tem piada, tio Louie.

O telemóvel do tio Louie toca. Ele atende.

– Ei, Googs.

– Tenho um par de placas de granito preto. Davam­‑te jeito? – O Googs parece estar muito longe, como se estivesse a telefonar da
Lua.

– Estamos a assentar um chão em Basking Ridge. Quanto tens?

– Três metros por um e oitenta. Parece que temos seis placas no total. É um átrio? Pequeno?

O tio Louie olha para mim. Confirmo que podíamos usar o stock do Googs.

– Por um preço bom – diz o tio Louie ao telefone. – Não me esfoles, Googs. Não estou com disposição para isso.

– Manda­‑me a morada e eu entrego. – Rolando «Googs» Gugliotti desliga. É um dos colegas de trabalho mais antigos do tio
Louie. Seria Joey Bishop no Rat Pack do tio Louie. Aparece, faz o que tem a fazer e desaparece como vapor no ar até voltarmos a
precisar dele ou ele de nós.

Olho para o meu telemóvel.

– Como é que ele sabe exatamente quando telefonar? É sinistro.

– De maneira nenhuma. É um vendedor intuitivo. Toma nota.

Abro a aplicação das notas no telemóvel e aguardo instruções.

– Renovação de Aldo e Rena Lovisone. Entrega de granito. Combinar com cliente. – O tio Louie dita enquanto vira à direita
na Sixteenth Avenue para Main Street e a zona comercial.

Abranda, a observar os edifícios de um lado da rua e do outro.

– O estilo Riviera italo­‑americana está de volta. – Louie assobia baixo com aprovação ao ver o novo prédio residencial ao lado do
armazém renovado de utilização mista, entre restaurantes, a loja de bebidas, a estação de rádio e os outros prédios residenciais na rua principal. Para em frente ao quartel dos bombeiros desativado, debruça­‑se da janela e semicerra os olhos. – Vão abrir uma churrasqueira, vão­‑lhe chamar Five Alarm (2).

Bem escolhido. Os nomes têm importância.

Sim, importam mesmo. Eu tinha treze anos em 2004 quando South Belmar, em Nova Jérsia, se tornou um lastimável posto suburbano de abastecimento entre Belmar e Spring Lake. A nossa bonita cidade de gente trabalhadora transformara­‑se num jardim zoológico para folgazões. O valor das casas caíra a pique. Decidiu­‑se que a melhor maneira de salvar a nossa cidade seria recomeçar do zero.

Precisávamos de um novo nome.

A população da cidade concordou que quanto mais cedo South Belmar ficasse para trás, vista pelo espelho retrovisor, melhor.

A nossa cidade tinha sido criada junto ao lago perto do oceano havia cem anos por imigrantes irlandeses, holandeses/alemães e italianos, e ali permaneciam passadas três gerações. Os italianos fizeram campanha para mudar o nome de South Belmar para Lake Como. Ao princípio, os irlandeses e os holandeses/alemães resistiram à ideia de dar à cidade o nome do lago italiano, mas os italianos argumentaram que Como era fácil de escrever. Bom argumento.

Também era verdade que ninguém ficara entusiasmado com as alternativas. Fuerstenfeldbruck ou Lake Nobber.

O tio Louie liderou a campanha, e, sob a sua liderança, Lake Como venceu esmagadoramente, por cento e sessenta e sete votos!

Deixámos de ser South Belmar, Nova Jérsia. O novo nome trouxenos sorte. Um nome lírico cria um espaço a encher com beleza,
como uma contralto quando avança para um círculo de luz dourada no palco de um teatro.

Ninguém melhor do que eu sabe como os nomes importam, já que tenho sido torturada pelo meu toda a vida. Quando nasci, os
meus pais, decididos a enfaixar­‑me em história da família e na versão do estilo toscano da minha mãe, deram­‑me o nome Giuseppina Capodimonte Baratta. Como o meu irmão não sabia pronunciá­‑lo, começou a chamar­‑me por um diminutivo, Jess. Colou­‑se­‑me. Toda a gente me chama Jess exceto a minha mãe, a purista.

Eu e o tio Louie avançamos lentamente até parar, juntandonos à fila de trânsito em East Street.

– Mau timing – resmunga o tio Louie.

– São os pais a deixar os filhos. – Fico a ver um bando de raparigas com camisolas azul­‑marinhas subir os degraus da frente da escola. Como é possível que as raparigas da Saint Rose continuem a usar o mesmo uniforme que eu usei há vinte e cinco anos?

Enquanto esperamos, abro a aplicação das notas no telemóvel. Sigo a sugestão da Dra. Sharon. Ligo o sentimento a palavras enquanto me recordo de esperar pela minha mãe. Escrevo.

Era uma daquelas tardes quentes de outubro que dava a sensação de ser tão abrasadora como os dias mais abafados e húmidos de agosto.

O suor escorria‑me pelo corpo enquanto abria caminho por entre a fila de carros que lançavam mais calor para o ar. As mães esperavam‑nos no conforto do ar condicionado dos carros com o motor ligado, a rasgarem um buraco permanente na camada de ozono por cima de Nova Jérsia. Havia uma boa razão para toda a escola rezar um terço no Dia da Terra. Queríamos viver.

Entrei para o monovolume Plymouth da minha mãe com protetores de plástico nos assentos que se me colaram às pernas quando me sentei. Estávamos no ano 2000; eu tinha nove anos. Trazia uma camisola da escola herdada da minha irmã e mocassins da Lands’ End. A minha irmã, a Connie, tinha onze anos. Estava sentada com o cinto afivelado no lugar de trás, atrás da mãe. Esse fora o meu lugar toda a vida até a Connie descobrir que a probabilidade de quem vai no lugar da frente morrer primeiro num acidente de automóvel é maior; desde então, esse lugar estava reservado no meu nome.

Os meus colegas de turma pareciam um bando de pássaros azuis com as camisolas e os casacos de malha do uniforme atados à volta da cintura como aventais. Fazia tanto calor que as raparigas tinham enrolado as meias brancas até aos joelhos nuns tubinhos à volta dos tornozelos. Era o tipo de tendência de moda que pegava na Saint Rose, e toda a gente tinha de a seguir, ou arriscava‑se a sofrer uma lenta morte social. Recusei‑me a enrolar as meias até ter permissão para rapar os pelos das pernas.

– Mãe, quando posso rapar os pelos das pernas?

– Tens de esperar – respondeu a Connie na vez da mãe. – Só agora é que a mãe me deixou rapá‑las.

– Não te perguntei a ti. Perguntei à mãe. – Se os pelos das minhas pernas crescessem durante outros três anos, teria de os
rapar duas vezes por dia, como o primo Bear Baratta, a quem crescia a barba entre o pequeno‑almoço e o jantar.

– Deixa‑me pensar no assunto, Giuseppina.

– Ei, Jess! – chamou a Lisa Natalizio do passeio. As tranças louras da Lisa eram grossas como medas de feno e tinham‑se expandido com a humidade no ar. Sorria de orelha a orelha e tinha uma grande cabeça redonda. Empunhou o chocolate Butterfinger como se fosse o ponteiro da irmã Jean na aula de Música e berrou:

– Não te esqueças do pacote de leite!

– Mãe, preciso de um pacote de leite para trazer para a escola amanhã. Eu e a Lisa vamos fazer um marco do correio. Vamos
mandar postais a desejar as melhoras ao papa.

– Aquelas freiras. Sempre com os seus projetos. Posso pôr a arejar um hoje à noite. É uma sorte que o teu irmão esteja numa fase de crescimento. Bebe leite que se farta. Põe o cinto.

A mãe trazia um fato‑macaco de um tecido cor‑de‑rosa com elasticidade e com um folho à volta da cintura que a fazia parecer um caramelo. Acabara de vir de uma aula de Zumba. Tinha o peito sardento e trazia uma cruz de ouro pendurada numa volta fina
aninhada entre os seios. Deu‑me um beijo rápido e abriu a lancheira pousada no meu colo. – Comeste o almoço! Muito bem.

– O Bobby Bilancia roubou‑mo.

A mãe franziu a testa.

– Disseste à Irmã Theresa?

– Ninguém gosta de bufos – recordei‑lhe. – O Bobby também rouba o almoço da Lisa, e ela desistiu. Agora a mãe dela põe mais
um pacote de bolinhos só para o caso de ele vir assaltá‑la.

– Recuso‑me a dar de comer à turma inteira do quarto ano da Saint Rose. – A mãe acendeu um cigarro Virginia Slims à terceira tentativa e estendeu o braço para fora da janela para nós não ficarmos com cancro do pulmão por fumo passivo. – Vou telefonar para a escola quando chegarmos a casa. – Suspirou. – Giuseppina, tens de lhe fazer frente.

– Não posso, mãe.

– Porque não?

A Connie respondeu por mim.

– Porque todas as raparigas da turma dela e todas as freiras na nossa escola estão apaixonadas pelo Bobby Bilancia. E a Jess
também gosta dele, não gostas, Jess?

– Podemos parar para comer um gelado? – Porque seria que o nome Bobby Bilancia me dava fome?

– Fiz lasanha para o jantar.

– Não posso esperar até lá. Ainda desmaio. – Encostei‑me à porta e amparei o rosto com a mão.

O meu irmão, o Joe, na altura com catorze anos, entrou para o carro e fechou a porta. Trazia o equipamento do basebol bem engomado; o cabelo, que é preto, penteado com a risca ao lado.

Pousou a mochila no assento. Não tinha uma única esfoladela; parecia tão nova como no dia em que a mãe lha comprara no
Target.

– Que tal foi o teu dia, Joe? – perguntou a mãe num tom de voz agradável.

– Razoável. Mãe, podes deixar‑me no campo de treino?

– Vivo para vos servir. – Sorriu. – Que tal foi o teu dia, Connie?

– Irritante. Andavam a fazer pouco do nome da Jess.

Os olhos escuros da mãe dardejaram entre os da Connie no espelho retrovisor e os meus no lugar da frente.

– O que queres dizer com «fazer pouco»?

– Algumas das raparigas gozam‑na – disse Connie.

– Chamam‑me Giuseppina‑colada.

– Como o cocktail? – A mãe franze a testa.

– Às vezes coisas piores, mãe – disse a Connie. – Chamam‑lhe Jose‑penis.

– Idiotas – disse Joe entre dentes. O meu irmão já olhava de alto as palermices da escola básica, embora oficialmente ainda a frequentasse.

Era mais como um pai para mim do que como um irmão.

– Quem te gozou? – A mãe queria saber. Fulminou a minha irmã com o olhar pelo espelho retrovisor. – Connie, o que fizeste
para defender a tua irmã?

– Não posso passar a vida a andar à socapa pelos corredores da Saint Rose a confrontar as raparigas mazinhas que implicam com
a Jess.

– E porque não? – berrou a minha mãe. – Só tens uma irmã! – Virou‑se para mim. – Giuseppina, tens de aprender a defender‑te!

Senti a garganta fechar‑se. Levei as mãos ao pescoço e tentei inalar ar, mas não conseguia encher os pulmões. Os ataques de pânico costumavam ser desencadeados por uma série de desafios que não conseguia defrontar. Aquele dia tinha sido especialmente brutal; só fizera asneiras, e depois havia o gozo das outras. Era demasiado para mim.

– Connie! O saco de papel! – guinchou a minha mãe. Do banco de trás, a Connie passou calmamente um saco à mãe. A minha irmã já conhecia a rotina. A mãe abriu o saco e deu‑mo. – Respira para dentro do saco, Giuseppina! Para dentro do saco!

Os meus ataques de pânico tinham começado no jardim de infância. Foi a nossa pediatra que me ensinou o truque do saco
de papel. Sempre que eu não conseguia respirar, punha um saco de papel contra a boca, expelia ar para dentro dele e depois sugava esse mesmo ar para dentro dos pulmões. Quando o saco começava a esvaziar‑se, voltava a enchê‑lo com a minha respiração.

Aprendi a gostar do restolhar do saco quando o enchia com ar.

Nesse dia, os pensamentos que me passavam pela cabeça acompanhavam o ritmo da minha respiração. Repeti mentalmente Bobby Bilancia Respirar, Bobby Bilancia Respirar até o meu coração deixar de bater acelerado e os meus pulmões se abrirem.

– Quando vai deixar de me acontecer isto? – Olhei para a mãe e limpei uma lágrima à manga.

– A médica disse que pode ser a qualquer momento. Tens de ser paciente.

A mãe parou na berma para deixar o Joe no campo de jogos.

O meu irmão estendeu o braço para a frente e apertou‑me a mão antes de saltar do carro. Fechou a porta com força e correu a juntar‑se à equipa. Não tardou a ser engolido por um mar de equipamentos de basebol às riscas vermelhas e brancas como se tivesse mergulhado na taça de doçarias da avó Cap cheia de chupa‑chupas.

A mãe voltou para a estrada e ficou atenta à carrinha de gelados Mr. Twisty. Senti‑me melhor depois de dar a primeira dentada no cone, furando a carapaça dura do chocolate até ao creme de baunilha frio por baixo.

Encalhado num engarrafamento, o tio Louie observa o autocarro escolar enquanto este se esvazia para o pátio da escola. Os alunos dividem­‑se em duas filas, formando um rio de azul que passa num fluxo pela estátua de Santa Rosa de Lima para o átrio da
escola.

– Consegues crer que alguma vez foste assim tão pequena?

– Eu era a menina mais baixa com o nome mais comprido – respondo, e fecho a aplicação das notas.

– Bem disse à minha irmã para te dar um nome normal. Ela teve de te dar o nome daquela nossa tia solteirona porque mais ninguém queria sobrecarregar as filhas com esse horror. A zia Giuseppina era uma brutamontes. – O tio Louie levanta o indicador para provar o que diz. – Com o seu metro e setenta e sete e meio, era a pessoa mais alta na família Capodimonte, homem ou
mulher.

Não cheguei a conhecer a minha tia­‑avó – morreu antes de eu nascer – mas, segundo consta, a zia Giuseppina era um verdadeiro
potentado em North Boulevard.

– Tinha a estatura de um camião – explica o tio Louie. – Falava tão alto que a voz dela ecoava até à outra margem do lago quando
não estava a ensurdecer toda a gente. Não andava propriamente, reverberava.

Não tenho a estatura nem a solenidade necessárias para ostentar um nome grande; desde o princípio, foi de mais. Era como pedir a uma menina de oito anos que calçasse os sapatos do pai para ir para a escola ou que manobrasse um camião de betão.

– Porque era a tia solteirona?

– Ainda tentou ter namorado, mas impediram­‑na.

– Quem?

– O meu avô e os irmãos dele, os Cap de Itália. Reza a história que, numa noite de neve em 1949, o nonno Cap e os rapazes encenaram uma intervenção a que, do ponto de vista do presente, se chamaria um rapto.

– Onde estava ela?

– No Motel 6 da autoestrada Garden State Parkway.

Digamos apenas que, desde então, me refiro sempre ao quarto número 7 de qualquer motel como o Quarto Zás Prás.

– A zia estava lá para se divertir?

– Para todos os efeitos, sim. Mas o nonno e os rapazes chegaram mesmo a tempo. Ele arrancou a filha aos braços do namorado, o Petey Palma, um verdadeiro achado de Manasquan.

Digamos apenas que o que quer que se tenha passado, o Petey voltou para Manasquan sozinho.

– Nunca tinha ouvido isto. – Não me surpreende. Quaisquer histórias que envolvam sexo ficam enterradas bem fundo no jardim das traseiras como a estátua de São José sempre que vamos vender uma casa.

– A zia desistiu de qualquer envolvimento romântico para o resto da vida, tal foi o impacto da situação. Foi nessa noite que se
tornou a tia solteirona, e remoeu aquela vergonha azeda como o fel até ao dia em que morreu. Mas, como também era uma católica devota, redimiu o pecado pondo­‑se ao serviço dos outros. Dedicou a vida aos pobres, e, quando não estava ocupada com eles, cuidava dos velhos pais e olhava por nós crianças. Fazia o almoço de domingo todas as semanas.

– Que vida!

– Eu disse que ela era feliz?

– Não admira que andasse sempre zangada. – Recosto­‑me no meu lugar. – A vida dela não era dela.

– Ninguém diz que tu tens de ser como ela – assegura­‑me o Louie. – Não és a tia solteirona.

Ainda não, pelo menos, penso enquanto o tio Louie passa pelo campo de jogos e sai da cidade. Não cheguei a conhecer a zia Giuseppina, e no entanto carrego o nome de alguém que nunca conheci numa vida que não quero ter. Outra questão a abordar na
terapia.

Quando nos aproximamos de Spring Lake, a rua estreita­‑se e transforma­‑se num corredor entre sebes de salgueiro pintalgadas de verde e branco. Deixamos Lake Como para trás, com as suas casas de estilo rancho e parques infantis de plástico a imitar a selva, e entramos em Spring Lake, onde mansões faustosas com relvados bem cuidados cravejados de estátuas de bronze se sucedem umas às outras. Debruço­‑me da janela para inalar os aromas frescos dos cedros e dos abetos altos enquanto o tio Louie acelera a dirigir­‑se para o encontro marcado.

Viramos para o parque de estacionamento da igreja. Se fosse possível mandar vir de avião de Florença para Nova Jérsia um Duomo, uma catedral Beaux Arts e um jardim de meditação digno da família Medici, a igreja de Saint Catharine seria o resultado.

O granito branco polido, os pináculos esculpidos e a torre sineira, posicionados num ângulo imponente nas margens do lago, são uma amostra da arquitetura da Renascença Italiana na sua manifestação mais divinal. Os batismos, casamentos e funerais dos Cap e dos Baratta realizam­‑se nesta igreja há décadas.

O tio Louie estaciona. Saio do carro e faço uns alongamentos.

O tio Louie acompanha­‑me no relaxamento dos ombros.

– Ai!

– Se te dói, para de o fazer – digo­‑lhe.

– O que ainda não me dói está prestes a doer­‑me. Tenho setenta e três anos.

– O que me recordas todas as manhãs.

– Porque não consigo acreditar. Olha para mim. Ainda ontem era jovem e vibrante. Não precisava de andar de camisa em lado
nenhum. Podia andar em pelota, só com uma fralda, e até desconhecidos me teriam aplaudido o físico.

– Que homem de sorte!

– Falo a sério. Tinha um corpo como o da estátua de David, só que não tão alto. Olha para mim agora. Estou a encolher.

– Tu não és velho.

– Encara a realidade. O que me resta pode ser cronometrado pelo tempo que leva a cozer um ovo, e mesmo assim eu chegaria
atrasado à festa. Tenho um potencial limitado. E com isso vem uma de duas coisas: ou um desespero que tolhe ou o ímpeto de
levar as coisas a bom porto. Portanto, pus­‑me a pensar. O que vai ser deste negócio de família centenário? O que acontecerá à Cap
Marble and Stone?

O coração cai­‑me aos pés. Aqui vamos nós. A única coisa na minha vida que me anima é o meu trabalho. Se também ele se for,
não sei o que farei.

– Vais vender a empresa?

– Este negócio tem de ir para alguém que sinta paixão por ele.

Não estou a pensar vendê­‑lo; tenho a esperança de lhe garantir o futuro. Para esse fim, chegou o momento de tomares tu as rédeas, que eu já não consigo segurá­‑las.

– Eu?

O tio Louie olha à sua volta.

– Está mais alguém por aqui? Sim, tu! É claro que és tu. Mas primeiro precisas de uma visão abrangente do negócio. Precisas de ver as pedreiras em Itália. Não me parece que alguém possa dirigir esta empresa sem compreender a extração da pedra em Carrara. Portanto, vamos lá. Alinhas? – O tio Louie convida­‑me a ir à Itália casualmente, como se estivéssemos a combinar ir buscar um lavalouça a Passaic.

Não consigo falar. Não previ esta conversa quando o tio Louie me foi buscar a casa esta manhã. Se a tivesse previsto, ter­‑me­‑ia
vestido melhor.

Subitamente, illuminata! O sol de outono encharca os degraus da igreja numa luz de coral. Estarei a presenciar um verdadeiro milagre? Devo estar! Tenho tentado toda a vida ir à Itália, mas houve sempre alguma coisa a fazer descarrilar os meus planos. Na
faculdade, não tinha posses para o programa de estudo no estrangeiro, embora frequentasse o curso de Cultura Italiana e tivesse notas para concorrer. Queria ir à costa de Amalfi na lua de mel, mas o Bobby disse que Las Vegas seria mais divertido. Pensei em ir à Itália com um grupo, mas não me interessavam as excursões para turistas. Queria ver as vilas dos meus antepassados. Para falar verdade, tinha medo de ir sozinha. Veja­‑se o que aconteceu à Katharine Hepburn em Loucura em Veneza ou ao Daniel Craig em Casino Royale. O tio Louie vê­‑me o medo estampado na cara.

– Pensa nisso, Jess. Não tens de me dar uma resposta agora.

A única preocupação que tenho em relação à Itália é que alguma coisa possa arruinar esta oportunidade.

– É um grande sim, tio Louie! Sim! Sim! Sim!

– Pronto, já chega. Ótimo. Então, planeamos uma viagem, tu metes a mão na massa, trabalhas com os tipos lá, e depois decides como queres avançar com a empresa. Talvez devamos rezar por isto? – O tio Louie só está meio a brincar quando abre a porta de
bronze da igreja e a segura para eu entrar.

(1) Cantor, ator e trompetista italo­‑americano da época do swing. (N. da T.)

(2) Jogo de palavras entre Five Alarm (Cinco Alarme) e Fire Alarm (Alarme de Incêndio). (N. da T.)

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