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Neste filme, ambientado nos anos 70, acompanha-se a história de Jeanne — interpretada pela estreante Clara Pacini —, uma adolescente que foge do orfanato e assume uma nova identidade, numa tentativa de se reinventar. Esse gesto inicial anuncia desde logo um dos eixos centrais do filme: a instabilidade da identidade.
Ao refugiar-se num estúdio de cinema, Jeanne entra literalmente num espaço de ilusão. É aí que se depara com a figura da Rainha da Neve, interpretada por Marion Cotillard, cuja presença gélida e distante domina o ecrã. É nesse estúdio que estão a fazer uma adaptação cinematográfica do conto de Hans Christian Andresen "A Rainha da neve", onde Christina (Marion Cotillard) interpreta a Rainha. A sua primeira aparição é impactante: entre uma ranhura nas paredes falsas do cenário, Jeanne observa uma das cenas do filme, onde a Rainha aparece num lindo vestido branco acompanhada de uma luz angelical e neve.
Jeanne imiscui-se entre os bastidores e no camarim da atriz consegue roubar um cristal que faz parte do vestido. A visão desse cristal é usada pela realizadora como um dos planos onde se vai demonstrando que a visão infantil que Jeanne tinha da rainha se deteriora à medida que a sua relação com Christina começa a evoluir, quando esta se torna uma das figurantes do filme.
O filme beneficia dessa ingenuidade pueril do semblante de Clara Pacini e da maturidade e impacto do olhar e movimentos de Marion Cotillard. Há cenas que basta um silêncio acompanhado de um olhar para se perceber.
A relação que Jeanne desenvolve com essa figura rapidamente ultrapassa a curiosidade inicial e transforma-se numa obsessão. A Rainha deixa de ser apenas uma personagem e passa a funcionar como um ideal, uma projeção de desejo, poder e escape. No entanto, essa idealização revela-se ambígua: quanto mais Jeanne se aproxima dessa imagem, mais se afasta de si própria.
A mise-en-scène privilegia tons frios, luz difusa e uma composição quase escultórica das imagens, criando uma sensação constante de distanciamento emocional.
O filme evita uma narrativa convencional, optando antes por uma experiência sensorial, onde a banda sonora etérea e o ritmo contemplativo reforçam a dimensão psicológica da história.
Contribuindo para transformar a história num "melodrama hipnotizante que mistura sensualidade com uma ansiedade tensa, equilibrando-se à beira do precipício do desastre", tal como afirma Peter Bradshaw, crítico de cinema do The Guardian.
Assim, The Ice Tower transforma a história de Jeanne numa reflexão sobre o perigo da obsessão e da idealização. A Rainha da Neve não é apenas uma figura de fascínio, mas um espelho distorcido, o daquele cristal roubado, onde Jeanne acaba por confrontar o lado mais obscuro de si mesma.
Este filme marca a segunda colaboração entre a realizadora e a aclamada atriz, sendo o primeiro o filme “Inocência” de 2004. Antes de Marion Cotillard chegar a Hollywood, onde conquistou o Óscar de melhor atriz em 2008 pelo filme "La Vie en Rose" com a interpretação da cantora francesa, Édith Piaf.
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