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Após três anos de obras de reabilitação financiadas pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), num investimento próximo dos 10 milhões de euros, o Teatro Nacional D. Maria II prepara-se para regressar à sua casa histórica no Rossio. A reabertura oficial está marcada para 18 de setembro de 2026, mas até 25 de julho o público pode já conhecer os espaços renovados através do programa Prólogo, que inclui visitas guiadas e debates artísticos.
A obra de renovação incidiu sobretudo em áreas críticas do edifício, sem constituir uma remodelação integral. Entre as principais melhorias está a remodelação da Sala Garrett, onde foram modernizados os sistemas de som e climatização. Este último aspeto assume particular relevância numa sala frequentemente associada às histórias dos chamados "fantasmas do D. Maria II", alimentadas pelo antigo sistema de ventilação, que distribuía o ar de cima para baixo. Com as obras, o sistema foi invertido, melhorando o conforto dos espectadores.
Durante os trabalhos foi também descoberta uma inscrição histórica. Numa parede do segundo balcão surgiram as siglas "M.D.P." — Movimento Democrático Português — pintadas a branco. A atual direção optou por preservar a marca, valorizando-a como testemunho da história do edifício e do próprio país.
O 24notícias acompanhou uma das visitas guiadas ao teatro, conduzida pelo arquiteto Francisco Pólvora e pela vogal da administração e gestora de projeto, Sofia Campos. Segundo a responsável, a intervenção teve como principal objetivo" melhorar as condições de trabalho dos profissionais da instituição" e "reforçar a segurança do edifício".
O percurso permitiu conhecer novos espaços de circulação, salas de ensaio, oficinas de costura e áreas administrativas. Entre as novidades está também um novo espaço destinado aos departamentos financeiro e de recursos humanos, com vista para o Castelo de São Jorge.
Preservar o património, abrir o teatro à cidade
Inaugurado em 1846, o Teatro Nacional D. Maria II nasceu de um projeto liderado por Almeida Garrett, a convite do Governo de Passos Manuel, tendo sido desenhado pelo arquiteto italiano Fortunato Lodi. É hoje uma das mais antigas instituições culturais portuguesas.
A sua história ficou marcada pelo incêndio de 1964, que destruiu praticamente todo o interior do edifício, deixando de pé apenas as fachadas exteriores. A reconstrução permitiu a reabertura ao público em 1978, introduzindo melhorias técnicas e cénicas, mas também alterações significativas na organização dos espaços interiores.
Segundo Francisco Pólvora, a atual intervenção procurou recuperar a relação entre o edifício e a cidade.
"Na reconstrução de 1978 foram criados mais pisos que, por exemplo, encerravam muitas janelas", explicou o arquiteto. O objetivo passou agora por "abrir essas janelas para aumentar a relação do teatro com o exterior e da cidade com o edifício".
O responsável sublinha que a obra procurou respeitar os valores patrimoniais do monumento, conciliando-os com uma leitura contemporânea das novas áreas. "Do ponto de vista do edifício original, um edifício neoclássico incrível, o interior foi bastante alterado em 1978, mas mantivemos, em alguns aspetos, esse lado mais simétrico", referiu, destacando a recuperação da ideia das escadarias simétricas presentes nos desenhos originais de Fortunato Lodi.
A apresentação da temporada 2026/2027 decorreu na Sala Garrett, com o palco rotativo a servir de cenário para a divulgação da programação cultural que marcará o regresso do D. Maria II ao Rossio.
O presidente do conselho de administração, Rui Catarino, abriu a sessão lembrando o significado simbólico do momento.
"Este é um momento de apresentação, um momento de passagem. Estamos entre o que está a terminar e o que começa", afirmou.
Durante os três anos de encerramento, o Teatro Nacional D. Maria II manteve uma intensa atividade artística fora de portas, levando espetáculos a mais de uma centena de municípios portugueses. Produções como Filodemo passaram por espaços tão diversos como os jardins do Hospital Miguel Bombarda e várias cidades do continente e das ilhas.
"Quando encerrámos o edifício para obras, em janeiro de 2023, podíamos ter vivido este período como uma suspensão, um intervalo, uma espera. Não foi isso que aconteceu", recordou Rui Catarino.
A experiência permitiu repensar o próprio conceito de teatro nacional. "Um teatro nacional sem o seu edifício não deixa de ser um teatro", afirmou, defendendo que a missão da instituição não pode ficar limitada ao espaço físico que ocupa.
Segundo o responsável, este período permitiu perceber que "a escala nacional não se mede pela distância percorrida, mas pela qualidade das relações criadas".
Uma nova temporada para um teatro renovado
A programação da nova temporada foi apresentada pelo diretor artístico Pedro Penim, que assumiu funções em 2021, sucedendo a Tiago Rodrigues.
Refletindo sobre o período de transição vivido pela instituição, Pedro Penim destacou a responsabilidade associada ao regresso ao edifício histórico.
"Há momentos em que a história deixa de ser apenas uma coisa que herdámos e passa a ser uma responsabilidade que temos de assumir", afirmou.
O diretor artístico recordou ainda os 180 anos da instituição. "Reabrimos uma casa que celebra 180 anos. Uma casa que atravessou monarquias, repúblicas, ditaduras, revoluções, incêndios, reconstruções e transformações profundas do país. Poucas instituições culturais portuguesas conseguem olhar para trás e encontrar uma história tão longa."
Mas, para Pedro Penim, o valor da instituição não reside apenas no seu passado. "Uma instituição não vive da sua história. Vive da sua capacidade de transformar essa história em futuro. É isso que procuramos fazer nesta temporada."
Entre as novidades da programação está o regresso das longas temporadas de exibição. "Uma das decisões que mais nos entusiasma é o regresso das carreiras mais longas. Os espetáculos que permanecem em cena durante várias semanas podem ser vistos, revistos, recomendados, discutidos e apropriados pelo público", explicou.
A temporada que marca o regresso ao Rossio será também, segundo Penim, marcada pela diversidade de vozes, geografias e perspetivas. "O Teatro Nacional deve ser um lugar seguro", afirmou, destacando uma programação fortemente marcada pela presença de mulheres criadoras e por artistas provenientes de diferentes contextos culturais.
As celebrações da reabertura decorrem entre 18 e 20 de setembro, com uma programação de entrada livre aberta a toda a cidade. O momento inaugural será marcado pela estreia de Macbeth, de William Shakespeare, com encenação de Pedro Penim, em cena entre 18 de setembro e 31 de outubro. No dia da reabertura, a praça do Rossio acolhe um espetáculo de videomapping da United VJs, que revisita momentos marcantes da história da instituição, bem como atuações dos DJs ZenGxrl, Beatbombers e DJ Marfox.
Nos dias 19 e 20 de setembro realizam-se visitas ao edifício, integrando o percurso da exposição 180 anos do Teatro Nacional D. Maria II, com curadoria de Paula Gomes Magalhães. A programação inclui ainda, a 20 de setembro, o lançamento da publicação Macbeth e a apresentação do Coro do Recomeço, conduzido pela estrutura artística ondamarela.
Ainda em setembro, Keli Freitas reinaugura a Sala Estúdio com um projeto participativo construído a partir das experiências de vida de pessoas imigrantes residentes em Lisboa, apresentado entre 23 e 27 de setembro. Em outubro, o mesmo espaço recebe Sumário: Auto da Barca do Inferno (8 a 31 de outubro), espetáculo com direção artística de Raquel Castro integrado no projeto Próxima Cena, iniciativa de circulação teatral em território nacional. Segue-se Desver (23 a 25 de outubro), de Joana Craveiro, criado a partir de uma investigação sobre a ocupação da Palestina.
O Alkantara Festival regressa ao D. Maria II com Menos de Cão Solteiro & André Godinho (13 a 15 de novembro) e Quando vi o mar (27 e 28 de novembro), de Ali Chahrour, dedicado às trabalhadoras domésticas migrantes no Líbano. Ainda nesse mês estreia A Cantora Careca (26 de novembro a 13 de dezembro), de Eugène Ionesco, com encenação de Beatriz Batarda.
Em dezembro, o Khashabi Theatre Palestine apresenta Al-Sirah Al-Hilaliyyah (3 e 4 de dezembro), "inspirado numa das grandes epopeias da tradição oral árabe". O mês acolhe também Suplicantes (11 a 13 de dezembro), de Sara Barros Leitão, uma "revisitação contemporânea da obra de Ésquilo".
O início de 2027 é marcado pelo Foco Lígia Soares, que reúne os espetáculos Memorial (20 a 22 de janeiro), Cinderela (22 e 23 de janeiro), Romance (23 e 24 de janeiro) e DRESSING ROOM (27 a 29 de janeiro). Ainda nesse mês sobe à cena Barber Shop Chronicles (28 a 30 de janeiro), de Inua Ellams, uma produção internacional centrada no mundo das barbearias negras contemporâneas.
Em fevereiro estreia Pessoas, Lugares e Coisas (6 a 27 de fevereiro), de Duncan Macmillan, com encenação de Sara Carinhas e protagonizado por Benedita Pereira
Em março, O Fantasma de D. Maria II (12 de março a 17 de abril) junta Hugo van der Ding e Martim Sousa Tavares, com encenação de Mónica Garnel, numa viagem pela história do próprio Teatro Nacional. No mesmo mês, Cláudia Jardim apresenta uma nova criação desenvolvida com os intérpretes estagiários do D. Maria II. O projeto Boca Aberta inclui Isto é o fim? (6 e 13 de março), Quem vai ao mar (10 e 17 de abril) e Quem espera (8 e 15 de maio), três textos de Inês Fonseca Santos e Maria João Cruz criados em colaboração com artistas e estruturas culturais de Lagos, Ourém e Ponte de Lima.
A primavera traz ainda Habitar (9 a 30 de abril), da companhia Hotel Europa, um espetáculo de teatro documental sobre a crise da habitação em Portugal e na Europa.
Em maio, o D. Maria II recebe BLUR (7 a 15 de maio), criação de Craig Quintero e Phoebe Greenberg; Blackface (20 de maio a 5 de junho), de Marco Mendonça; e Ajoelha-te e diz-me que me amas (26 de maio a 11 de junho), de Mário Coelho. A Sala Estúdio acolhe ainda um espetáculo integrado no FIMFA Lx27 – Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas, enquanto o Festival PANOS decorre em Évora, Capital Europeia da Cultura 2027.
Já no final da temporada apresenta-se Navalha na Carne (18 a 26 de junho), criação de Àkila a.k.a. Puta da Silva, vencedora da mais recente edição da Bolsa Amélia Rey Colaço. A programação inclui ainda um espetáculo do Teatro Nacional São João com criação de Victor Hugo Pontes, Pândiga (1 a 4 de julho), de Cátia Terrinca e Santi Senso, o regresso do Festival de Almada (9 e 10 de julho) e os espetáculos finais da Escola Superior de Teatro e Cinema (14 a 17 de julho).
A participação continua a ocupar um lugar central na atividade do Teatro. Nesta temporada nasce A Última Sexta-Feira, projeto mensal desenvolvido por jovens artistas e ativistas em torno da crise climática, coordenado por Alice Azevedo, Cátia Terrinca e Joyce Souza/Segundo as Marias. Prossegue igualmente o programa ATOS, desenvolvido no Funchal, Lamego, Loulé e São João da Madeira, que integra projetos artísticos participativos e plataformas de participação cultural. Arranca também Ocupar o Centro, projeto trienal dedicado à formação, criação artística e empregabilidade de artistas com deficiência.
A temporada integra ainda uma nova edição da École des Maîtres, um dos mais relevantes programas internacionais de formação teatral avançada, este ano orientado pela encenadora francesa Nathalie Béasse. A programação contempla igualmente oficinas, masterclasses e a entrega do Prémio Revelação Ageas Teatro Nacional D. Maria II, destinado a distinguir jovens artistas do teatro português.
Entre as iniciativas complementares destacam-se Que Informação Dramática!, ciclo criado por Bárbara Branco e Vítor Silva Costa dedicado à história do Teatro, e o projeto europeu TRUST – TRUth on STage, que cruza jornalismo de investigação e criação teatral. Ao longo da temporada serão ainda lançadas novas publicações, entre as quais Carlota Talassi (vol. 1) e uma coleção dedicada a Gil Vicente.
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