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Transformar um dos processos mais mediáticos da política portuguesa num musical pode parecer improvável, mas foi precisamente esse desafio que interessou a Henrique Dias. O autor, conhecido por projetos televisivos como Pôr do Sol e Telerural, partiu de uma constatação simples: a história já fazia parte do quotidiano coletivo há demasiado tempo para continuar a ser apenas matéria jornalística.
“Percebi há quanto tempo é que esta história anda nas nossas vidas e o absurdo que isto é”, explica. “E estava sempre a ser tratado de uma forma jornalística, como deve ser, e eu pensei que era interessante tratar isto de uma forma artística, muito mais ligada ao humor.”

O resultado é "Sr. Engenheiro” Alegadamente Um Musical' , em cena desde 1 de abril no Teatro Tivoli BBVA. O espetáculo acompanha, em tom assumidamente ficcionalizado, a trajetória de um antigo primeiro-ministro, das origens nas Beiras ao confronto com a justiça. A narrativa constrói-se em analepse, convocando episódios e figuras que marcaram o caso: do melhor amigo ao “motorista que sabia demais” e à licenciatura ao domingo.

Mais do que reconstituir factos, a peça opta pelo exagero como linguagem. “Levar isto a um exagero ainda maior, quase surrealista, pode ter um potencial cómico tremendo. E depois, não sei porquê, veio-me à cabeça um musical”, afirma o autor.

Questionado pelo 24notícias sobre o equilíbrio entre comédia e realidade, Henrique Dias explica que “a comédia só serve como uma espécie de ponte de ligação, como umas ancorazinhas ao longo do texto”, sublinhando que “tudo o que liga as coisas umas às outras é o perfeito exagero, é o perfeito disparate”.

Em palco, Manuel Marques assume o papel central. O ator destaca o processo de trabalho: “Durante dois meses tivemos o privilégio de ter este cenário gigantesco montado num armazém. E trabalhámos todos com ele, não só a representar, mas também a mudar pernas e adereços.”

Conhecido pelas suas imitações de figuras públicas, Manuel Marques recorda experiências anteriores: “Já tinha feito um ‘boneco’ do Sócrates no Donos Disto Tudo, na RTP, e também no Herman. Mas agora é um Sócrates adaptado ao teatro , um Sócrates que dança, que canta, que é diferente.”

A personagem principal é acompanhada por um elenco alargado: Alexandre Carvalho (o entregador de pizzas e outras personagens), Brienne Keller (a filha), Jorge Mourato (o melhor amigo), Marta Andrino (a namorada), Miguel Raposo (o advogado), Samuel Alves (o motorista), Sílvia Filipe (a secretária), Sissi Martins (a ministra) e Rita Cruz (a procuradora).

Jorge Mourato sublinha a receção do público: “O público gosta, e estes dois meses foram trabalhosos, mas cumpriram o objetivo.”
Marta Andrino acrescenta: “Sabe muito bem, ao fim destes dois meses, receber essa energia de volta. É também divertido perceber que coisas que achávamos que iam ter graça funcionam, e outras que já nem esperávamos.”

O ritmo em palco é exigente. “Há muito poucos momentos em que podemos relaxar”, refere Sissi Martins, que destaca também a relação com o texto: “Temos de levar isto para um lado de farsa para podermos brincar à vontade. Se olhássemos para o texto com toda a verdade que ele traz, seria muito duro transformá-lo em algo divertido.”

A seleção das personagens não seguiu uma lógica clássica de protagonismo. “Peguei nas pessoas que eram mais importantes para a história, as que faziam a narrativa avançar”, explica Henrique Dias.
Essa opção reflete-se na própria estrutura do espetáculo: “Não há propriamente um conflito clássico. Isto é uma espécie de biopic. Há um interesse amoroso que serve como linha condutora, mas não há protagonista e antagonista definidos.”

A encenação, assinada por Rui Melo, acompanha essa lógica ao privilegiar o tom sobre o realismo.
“O mais difícil foi descobrir o tom. Este texto tem graça só por si, mas era preciso perceber que tipo de espetáculo queríamos fazer.”

A resposta passou pela recusa do naturalismo e pela aproximação à farsa: “Nunca me interessou fazer um espetáculo documental, com cenários realistas. Interessou-me explorar a ideia de farsa teatral, em que o público conhece a história e os atores vivem cada situação como se fosse a primeira vez.”

A cenografia, concebida por Marta Carreiras, reforça essa opção estética. Em vez de espaços realistas, constrói-se um palco barroco, com telões pintados e mecanismos visíveis, evocando o teatro mais antigo. Um dispositivo que se desdobra num conceito central: “Um teatro dentro do teatro”, descreve Rui Melo. “Porque o Engenheiro é um teatro dentro deste teatro maior que é a nossa vida.”

A ideia aproxima o espetáculo de uma tradição teatral baseada na representação dentro da própria representação, embora, como sublinha Henrique Dias, com diferenças face ao teatro de revista:
“Há pontos de contacto, como os quadros autónomos. Mas a revista trabalhava para contornar a censura. Nós vivemos em liberdade e podemos dizer o que quisermos dentro dos limites da lei.”

A componente musical, com assinatura de Artur Guimarães, nasce do próprio texto e de um processo colaborativo entre autor e encenador. “À medida que escrevíamos as letras, íamos imaginando referências. Um momento podia ser ao estilo de Chicago, outro lembrar Avenida Q”, explica Rui Melo.

Esse trabalho coletivo estende-se a toda a produção, uma dimensão que Henrique Dias considera essencial:
“No teatro não há heróis sozinhos.”

No total, cerca de 70 profissionais estiveram envolvidos, com mais de 30 elementos nos bastidores. O espetáculo resulta de 36 dias de preparação e mais de 216 horas de ensaio, sustentando uma encenação que, apesar de fluida, é altamente coreografada, uma “máquina oleada”, como descreve Rui Melo.

Madalena Almeida, atriz e pela primeira vez assistente de encenação, destaca a importância da contextualização: “Foi importante perceber os contornos do caso e as referências no texto. Talvez leve o público, sobretudo da nossa geração, a querer saber mais.”

Sobre o seu contributo, acrescenta: “Quando se assume que isto é uma farsa, tudo passa a contribuir para isso.”
A sua participação é também valorizada pela equipa: “Foi essencial contar com uma pessoa que é uma mulher, mais nova, com esta visão e talento. A verdade é que isto não se fazia sem a Madalena, foi imprescindível no rigor e nessa atenção ao detalhe.”

Sem intenção de reproduzir fielmente os acontecimentos nem de os transformar num comentário direto, “Sr. Engenheiro” posiciona-se num território intermédio, onde o reconhecimento convive com a distorção. O resultado é um objeto cénico que surpreende parte do público:
“As pessoas vêm à espera de uma coisa mais realista e levam com algo quase onírico”, nota Henrique Dias.

Com a duração de 1h15, o espetáculo não exige conhecimento detalhado do processo que o inspira, ainda que convoque elementos facilmente reconhecíveis. E, como em qualquer narrativa construída a partir de material amplamente conhecido, há um jogo constante entre o que já se sabe e o que se reinventa.

O resto descobre-se em sala, e prolonga-se, possivelmente, à saída, em forma de refrão: “La Dolce Vita, que grande fita”.

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