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O imaginário popular português está repleto de criaturas misteriosas que, durante séculos, povoaram rios, montanhas, florestas, grutas e aldeias. Apesar da existência de vários bestiários dedicados ao tema, foi apenas agora que esse património ganhou um atlas que localiza e reúne muitos desses seres míticos espalhados pelo território nacional.
A ideia surgiu de forma inesperada."Tudo começou quando, em 2022, tropecei num mapa da Escócia que tinha a localização das criaturas mágicas daquele território. Pensei logo que fazer algo semelhante, aplicado a Portugal, poderia ser interessante, uma vez que, embora já houvesse alguns bestiários, não havia nenhum atlas. Então decidi avançar com o projeto", explica Samuel F. Pimenta ao 24notícias.
O "Atlas das Criaturas Mágicas de Portugal" levou cerca de dois anos a concretizar, embora a investigação tivesse começado muito antes. Ao longo da sua carreira literária, Samuel F. Pimenta foi reunindo informação sobre o folclore português, trabalho que serviu de base para esta obra.
Entre as principais fontes consultadas estiveram os estudos de José Leite de Vasconcelos, bem como obras de Fernanda Frazão e Gabriela Morais. O autor recorreu ainda a arquivos municipais disponíveis online e a testemunhos diretos para complementar a pesquisa.
Uma das maiores surpresas foi perceber a dimensão do património mitológico nacional. "Acima de tudo, surpreendeu-me a imensidão de criaturas que existe em Portugal e o facto de 'partilharmos' criaturas com outros territórios. Por exemplo, na Galiza, são praticamente as mesmas", afirma, lembrando que essa proximidade cultural acompanha também a origem comum da língua.
Durante a investigação, distinguir as figuras pertencentes à tradição popular das criações mais recentes foi uma das preocupações. "O processo de pesquisa foi essencial nesse aspeto. Por exemplo, os Gambuzinos e o Fantasma da Costureirinha são criaturas muito recentes, ao contrário das Mouras Encantadas, que são das mais antigas no nosso território", conta.
Estas últimas são também um dos melhores exemplos da riqueza da tradição oral. Segundo o autor, cada região preserva a sua própria versão. "Ora surgem representadas como mulheres jovens e belas, de cabelos loiros ou pretos, ora surgem como velhas. Ora se transformam em serpente, ora se transformam em cabra. Ora surgem junto a nascentes, fontes, como junto a árvores ou grutas. Cada terra onde há histórias sobre Mouras Encantadas tem a sua própria forma de contar", explica.
A forte ligação entre muitas destas criaturas e elementos da paisagem não é, na sua perspetiva, uma coincidência. "Muitas delas são o que resta de cultos ancestrais dos povos deste território, tendo sido espíritos do lugar ou divindades", refere.
Entre todas as figuras reunidas no atlas, há uma que o fascinou particularmente: a Boa-Hora e Má-Hora, duas entidades femininas inseparáveis.
"Gostei especialmente de descobrir a história da Boa Hora e Má Hora, duas figuras femininas que andam sempre juntas. A Boa-Hora anuncia a chegada da peste, da guerra, de uma má colheita ou uma provação, permitindo que as pessoas se preparem para enfrentar esse mal; a Má-Hora traz o que a Boa-Hora anunciou. Parece-me uma criatura fascinante, ao mesmo tempo benévola e malévola", evidencia.
Há também criaturas menos conhecidas que, na opinião de Samuel F. Pimenta, mereciam maior notoriedade. "O Saca-Unhas, que vive na torre da igreja de Algoso, merecia ser mais famoso. Imaginar uma criatura que tem um gosto especial por arrancar unhas às pessoas, em particular às crianças que se atrevem a subir à torre, é muito divertido".
Mas estas são mais do que simples histórias fantásticas. "A grande maioria destas criaturas nasceu de uma relação profunda das comunidades com o território. Mostram-nos um tempo em que a paisagem e o meio natural não estavam dissociados da vida concreta das pessoas. No limite, são fragmentos de sociedades que protegiam o meio natural, e por isso parece-me que temos algo a aprender com elas", defende.
O autor sublinha ainda que muitas destas figuras tinham uma função educativa e protetora. "Muitas destas criaturas têm como propósito educar e controlar o comportamento das crianças, mas também de proteger. Muitas delas são, até, companheiras de ritos de passagem: se em crianças pareciam assustadoras, quando crescemos percebemos que, afinal, elas estavam a proteger-nos de alguns perigos. Lembro-me da Maria Gancha, por exemplo, que vive dentro dos poços, com o propósito de que as crianças não se aproximem deles".
Apesar das mudanças sociais, Samuel F. Pimenta considera que a tradição oral ainda resiste, especialmente em meios rurais, embora reconheça que a urbanização e uma visão cada vez mais racional da sociedade têm contribuído para a perda de parte dessa memória coletiva.
"Ainda há zonas em que essa memória resiste, porque continua a ser importante manter as histórias vivas para a conservação da identidade das comunidades. Por exemplo, no Algarve, ainda há famílias que juram ter lençóis de linho fiado pelas jãs", conta.
Para o escritor, a literatura desempenha um papel essencial na preservação deste património, permitindo que as criaturas mágicas continuem a ser conhecidas e reinterpretadas.
Convencido de que os leitores mais jovens podem descobrir neste universo um novo fascínio, o autor acredita que o sucesso de livros, filmes e séries dedicados a seres fantásticos demonstra que existe interesse por estas histórias. "As novas gerações já foram conquistadas por histórias de criaturas mágicas, não faltam livros, séries e filmes com essas temáticas. Não são é sobre Portugal. Espero que, com este livro, tenham a oportunidade de descobrir que o nosso país tem um património riquíssimo de seres míticos e que também se apaixonem por eles".
Se o atlas fosse adaptado ao pequeno ecrã ou a um videojogo, a escolha seria clara: as Mouras Encantadas seriam as protagonistas, por serem, segundo o autor, as criaturas mais antigas e com maior presença em todo o território nacional.
E garante que o universo está longe de se esgotar. "Ficaram muitas criaturas de fora do atlas, mas mais por falta de espaço no livro do que de informação sobre elas. Felizmente, somos um país habitado por muitas criaturas mágicas, sobre as quais se podem escrever mais e mais livros."
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