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Esbarrei com o filme “Perfect Days” sem querer, conheci Wim Wenders e acabei por ficar. Graças a este encontro descobri uma nova palavra — Serendipidade, “aptidão ou dom de fazer descobertas afortunadas, felizes e inesperadas, muitas vezes enquanto se procura outra coisa”. A única vantagem de ser procrastinadora.
"Perfect days" leva-nos até ao Japão, onde acompanhamos a vida de Hirayama que trabalha a limpar casas de banho, em Tóquio. Uma curiosidade exposta pelo realizador é que o mote do filme partiu de um empresário japonês que o chamou até ao país para conhecer o projeto "The Tokyo Toilet", um conjunto de casas de banho com arquiteturas contemporâneas. A ideia era apenas ser um short film sobre as casas de banho. A co-produção japonesa e alemão, acabou por ser apresentada no Festival de Cannes 2023, com uma pontuação de 96% no site de críticas Rotten Tomatoes.
“Next time is next time, now is now” (“A próxima vez é a próxima vez, agora é agora", em tradução livre)
Hirayama acorda sem despertador ao som da vassoura de uma senhora que limpa a rua, arranja-se e entra na sua carrinha. Como fundo coloca uma das suas cassetes com pérolas musicais como “Pale Blue Eyes” de Velvet Underground e “House of The rising sun” de The Animals. Deixo aqui a playlist feita pela Mubi no Spotify.
O homem é dedicado naquilo que faz, colocando em cada movimento de limpeza o máximo de foco. Quando alguém entra para usar a casa de banho, Hirayama retira-se e fica a apreciar o sol, as árvores e a dança conjunta que fazem na parede. Deixa-se consumir pelo tédio e pelo silêncio.
Na pausa de almoço infiltra-se no meio do jardim, enquanto come fica a olhar para as árvores e tira do bolso uma câmara analógica Canon para deixar registada na película aquela árvore.
Hirayama observa cada detalhe à sua volta, sorri para as pessoas, cumprimenta-as e se repara num rebento na árvore, retira do bolso os apetrechos necessários para levar a futura planta para casa, onde cuida de um pequeno "jardim".
Aos olhos da nossa sociedade esta descrição pode fazer pensar que “homem performativo”, mas para quem afunda as suas frustrações num dispositivo com uma maça mordida, tudo parece performativo.
Noutro dia decidi começar a fazer tricot (podem chamar-lhe a crise dos 20´s), ao meu lado estava a minha mãe (da geração X) que me ensinava o passo a passo e dizia "eu aprendi quando era mais nova do que tu e não me esqueci ainda". A minha calma perdia-se, como assim eu não conseguia já fazer um casaco ou uma mala como vi no Pinterest?
É nestes pequenos momentos, que me lembro deste filme, e apetece-me voltar a vê-lo, chamo-lhe um calmante natural.
Nunca chegamos a perceber durante o filme o porquê de Hirayama ter escolhido esta vida, quem o explica é o realizador (não vou contar para não dar spoiler), mas percebe-se que quando se fica sem chão, o mais importante era "aquele momento", que a espuma dos dias engoliu.
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