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I
O juiz mandou-me finalmente erguer e, sem tirar os olhos dum maço de processos que tinha sobre a mesa, perguntou-me:
— Tem mais alguma coisa a alegar em sua defesa?
Era um homem de olhos pequeninos, penetrantes, entrincheirados nuns óculos de míope, e tinha os cabelos raros e revoltos sobre a testa vasta e luzidia. Acompanhara todo o julgamento com a mesma automática indiferença com que certos padres oficiam. Digo mesmo: como se não acreditasse na eficácia da Justiça.
O delegado, esse, compusera uma grande e nobre seriedade para a galeria, que seguiu com ávido interesse o julgamento, não decerto por amor da Justiça, nem porque eu lhe inspirasse comiseração: mas para ouvir relatos dramáticos e torpes. Que disse ele na sua acusação? Não me posso lembrar precisamente: coisas confusas, palavras ocas, gestos... Apenas sei que terminou pedindo contra mim a mais grave das penas aplicáveis aos meus crimes.
Quanto aos senhores jurados, bocejavam, quando não dormiam. Do meu defensor, é estranho, mal me lembro. É inútil insistir. Ai de mim, no meu passado alguma coisa há-de ficar inexplicável. Durante o julgamento caí provavelmente numa destas letargias que me alheiam por completo do ambiente. Desde muito novinho que certos estados de abstracção, ou de torpor, me perturbaram ou inibiram a atenção: durante eles o espírito como que me abandonava, deixando-me entregue ao puro mecanismo vegetativo.
Estremeci. A pergunta do juiz fez-me voltar a mim. Ergui-me e levei a mão direita ao bolso interior do jaquetão, na intenção de puxar do manuscrito que compusera para ler ao tribunal. Um instinto, porém, advertiu-me a tempo: em lugar dos papéis, saquei do lenço, e enxuguei com ele o suor que me escorria da testa. Deixei o rolo no fundo da algibeira e, depois duma pausa, com as mãos pendentes, inclinando-me um pouco, respondi com voz nítida e pausada:
— Declaro mais uma vez que pratiquei todos os crimes de que sou acusado!
Ao dizer isto, o meu coração palpitou vivamente, de quase amorosa alegria.
— Está bem — disse o juiz, sem olhar para mim. — Sente-se além e espere.
— Aí não, daquele lado! — explicou o beleguim, atalhando-me a passagem.
Ouvi atrás de mim um soluço abafado num lenço (era a Luísa) e depois um rumor de comentários excitados. Senti-me cheio de orgulho e atirei um olhar de desafio à multidão que enchia o tribunal. É que eu sou na verdade um caso raro!
Sentei-me num banco, junto da teia, no meio de outros réus, que me olhavam com estranheza e curiosidade. Um deles, que eu nunca vira, acotovelou-me e disse-me ao ouvido num tom de voz familiar e um hálito medonho:
— Apanhas a carga toda!
Encolhi os ombros com indiferença.
Houve em seguida um burburinho; os senhores jurados ergueram-se, batendo as solas no estrado, esticando as pernas que a imobilidade entorpecera, e foram saindo em fila por uma porta baixa, ao fundo, conversando e rindo, com muitas vénias e teimas, enquanto o juiz, reanimado, dava instruções ao presidente. O delegado sumiu-se, muito digno, sobraçando a pasta. No vão duma janela, dois advogados de longas cabeleiras discutiam como dois fariseus sobre pontos da Lei, com afectada e quase cómica solenidade, e segredavam rindo. Na bancada da defesa, absorvido em admiração e estupidez, um estudante seboso e cabeludo procurava fixar-lhes a atitude e o gesto. Era o meu defensor!
O escrivão não se mexeu do seu lugar: amarelo e distraído, tinha o ar dum processo arquivado e esquecido sob o pó. Conservou as mãos descoloridas e magras cruzadas sobre o pano vermelho da mesa, todo esburacado, e não se atrevia a fitar-me nos olhos. Reparei no entanto que me observava a espaços, disfarçadamente, com uma expressão de mágoa ou piedade: então, pus-me a olhá-lo com tal insistência que o obriguei a corar. Ri-me e deixei-o em paz.
É quase certo que, lá por dentro, me chamou cínico e descarado.
O tempo corria devagar, naquela sala que mais parecia um longo esquife, de paredes empoeiradas com painéis antigos de azulejos pintados a flores convencionais. De quando em quando ouvia-se o tilintar das armas dos soldados. Uma aranha, indiferente às misérias e pompas da Justiça, tecia a sua teia num velho bico de gás, sobre as nossas cabeças.
Cheirava mal: a suor, a aguardente e a pó. O ar espesso e envenenado entorpecia. Os guardas dormitavam de pé. O rumor das conversas subia num crescendo, até que o beleguim lhes punha termo com um berro. Podia-se então ouvir o zumbido de duas moscas que turbilhonavam sobre a calva do escrivão como dois acrobatas numa pista. O pobre homem sacudia-se com um desespero fatalista. Assoei-me para que não me vissem rir.
Nesse momento, um sujeitinho gordo e corado veio cochichar-lhe qualquer coisa ao ouvido, deu-lhe uma palmada amigável e eloquente nas costas atrofiadas, e desapareceu, sorrindo para a turba com ar de alegre suficiência e fazendo adeusinhos com a mão papuda para todos os lados. Era um causídico famoso nos anais do crime. Concluí que o escrivão devia sofrer de enterocolite muco-membranosa e de contrariedades domésticas.
Mas tanta expectativa acabou por me impacientar: para que diabo haviam de perder tanto tempo, se a minha condenação era certa e segura, e eu a desejava do mais íntimo da alma? Pensei na penitenciária, e alvorocei-me: devia ser bem melhor que o tribunal. Este aparato sem dignidade nem grandeza, a acumulação de gente, o movimento incessante, a companhia dos outros réus, tudo me desviava dos meus interesses mais vivos e profundos. Eu não tinha sequer esboçado uma defesa. Estava morto por me ver dali para fora, condenado, arrumado para sempre, livre do mundo.
Minha mulher esperava atrás de mim, para além da teia. Voltei-me a olhá-la, e vi-a sorrir entre as lágrimas. Creio que me fez um sinal, mas não cheguei a percebê-lo. Tinha os olhos pisados. Ergui os ombros, desinteressado, pois nenhuma dor, nem mesmo a dela, já me impressionava. Ao contrário, desejaria não tornar a vê-la, esquecer tudo, seguir um rumo novo. A dor humana perdera para mim todo o sentido.
O manuscrito que eu tinha na algibeira era a tentativa de explicação do meu procedimento. Não se riam. Não queria, com ele, atrair sobre mim a complacência do digno tribunal, mas provar que a natureza do meu crime era duma complexidade excepcional, que o punha fora e muito acima dos seus fáceis juízos. Escrevera-o à pressa, na cadeia, durante a instrução do meu processo, pensando, comovido, no efeito que a sua leitura iria produzir no julgamento. Mas na verdade, que importavam àqueles homens indiferentes as razões do meu crime e da minha serenidade, que eles por certo classificaram de cinismo?
Os cidadãos desejam que se lhes torne o mais leve possível o «direito» de julgar. Teriam morrido de tédio, ter-se-iam talvez rido, ao escutar a verdade minuciosa dos meus estados de alma. A Verdade, para os cidadãos, é sempre cómica ou corrosiva: desperta o riso — ou reclama medidas de segurança. A que interessa aos tribunais é uma verdade formal, relativa, decalcada nos figurinos da Lei. No fundo, os jurados eram necessariamente estúpidos: a ordem psíquica e moral estava-lhes vedada. Factos! Factos! — Eu seria para eles, apenas, o homem que matou para roubar.
De repente, abriu-se a porta do fundo e o beleguim bradou:
— Está reaberta a audiência! Façam favor de se alevantar!
O juiz e os jurados entravam de novo no pretório. Toda a sala se encheu de rumor e agitação. Respirei aliviado. Era o epílogo da farsa — para mim, o começo de tudo. À custa de ameaças e empurrões, no meio dos quais se erguia o choro desesperado e agudo duma criança, tudo serenou em menos de um minuto, e o presidente do júri, todo curvado, ajeitando as lunetas aflitivamente, leu quesitos e respostas no meio dum silêncio tumular. A sala inteira parecia pender dos seus lábios ressequidos e incolores. Atrás dele, hirtos e inexpressivos como acólitos de padre num enterro, os jurados esperavam a sua própria libertação. O juiz interrompia às vezes a leitura, impaciente, para dar esclarecimentos, e eu mordia a boca para não rir nem gritar. A cada resposta — «está provado por unanimidade» — acendia-se um rumor de comentários. O juiz sentou-se por fim, e, folheando um velho código de folhas amareladas e cobertas de notas, redigiu rapidamente a sentença. Ouvia-se o ranger do aparo, o roçar das folhas do livro e o pigarro dum jurado velho. Chegou-me um aroma fresco de laranja vindo da janela, como um raio de sol... Apanhei a carga toda, conforme profetizara o camarada.
Senti-me empurrado, sacudido, levado pelo braço. Seguiu-se uma enorme confusão. Não me posso lembrar do que se deu a partir daquele instante: recaí decerto no meu alheamento, como num sono de ópio. Só muito mais tarde, na cadeia, consegui com muito esforço, e mesmo assim com falhas, reconstituir a cena do julgamento, que de todo se me varrera da memória. Não há dúvida, eu reconheço que há qualquer coisa em mim. Por isso já não estranho que estas recordações me subam indistintas, enevoadas, sem nexo — como se outro, e não eu, as houvesse vivido.
II
Sinto-me bem nesta cadeia. É um belo edifício claro, em pavilhões de dois andares, isolados no meio duma grande cerca arborizada, que um alto muro separa, julgo eu, de caminhos e terras cultivadas. Nenhum rumor chega de fora. Às vezes, vou até junto desse muro, que a hera muito densa envolve de poesia, e, numa sombra repousante e fresca, abandono-me a ouvir os pequenos murmúrios da terra e do ar — uma folha que tomba, um pássaro que trila, um insecto que zumbe, um gorgolejo de água — e assim levo muitas horas do meu dia, meditando e escrevendo, como os frades antigos, até que um toque de sineta me venha chamar para a comida ou para o recolher.
Tudo me parece raro, novo e extraordinário. Só agora descubro o oculto sentido de muitas coisas — e mais pela emoção que me provocam do que pelos juízos que formulo. Assim, depois dos meus erros e crimes, pergunto a mim mesmo se será legítimo viver com tanta calma e despreocupação: um criminoso não deveria ter dores, ser torturado? A punição é apenas isto?
Sim, tenho há muito a impressão de que vivo num sonho. A/vida corre com uma serenidade impressionante. Penso quanto, noutro tempo, eram felizes os homens a quem se concedia o direito de fugir, como eu fugi, afinal, à vida angustiosa do mundo.
Quase me julgo feliz. E porque não?
A cadeia não é como eu supunha, nem o que se diz lá fora. Nada nos falta, tratam-nos bem, embora vivamos numa quase completa solidão. Isto a mim agrada-me, de resto: aborreço o convívio dos homens. Só na aparência os considero meus semelhantes. Aqui, sou apenas um número: o 28.
Vejo agora quanto a criminologia tem progredido no sentido da mais ampla liberdade: cada qual faz o que quer — ou não faz nada. Muitos presos passam os dias metidos na cama. O trabalho deixou de ser obrigatório. A regeneração do criminoso obtém-se agora, ao que parece, por uma forma espontânea, a que eu, se dão licença, chamaria a «psicoterapia da indulgência».
Toda a casa é irrepreensivelmente asseada. O meu quarto é branco, limpo, tem um tecto alto e uma enorme janela sem grades, donde enxergo um vasto panorama de pinhais e terras de lavoura.
Não posso deixar de registar, no entanto, um facto muito estranho: às vezes, durante a noite (eu durmo pouco e tenho o sono leve), sobressalto-me ouvindo gritos, discussões, gemidos, um ru- mor de luta e de pancadas, e mesmo um estilhaçar de vidros... A/primeira vez que tal aconteceu, cobri-me de suores e fiquei todo arrepiado. Receei que se aproveitassem da noite para nos aplicar um tratamento um pouco rude. Como tudo se calou, tornei a adormecer. O caso repetiu-se, e cheguei a julgar-me vítima de alguma ilusão. Porque gritavam? Intrigado, ergui-me várias vezes para escutar, mas acabei felizmente por me desinteressar do que se passa nesta grande casa de aspecto misterioso. São presos que se revoltam, ou que brigam, e a quem aplicam penas corporais? Não sei. Renuncio a sabê-lo. Ninguém me dá, nem eu peço, explicações. Nada me importa, os outros não existem para mim... Que façam como eu: calo-me, obedeço, vivo tranquilamente. De que serve a liberdade? Livre, o homem corre ao precipício.
Outro facto que de começo me indispôs: não me deixam ler os jornais, nem mesmo os antigos, onde poderia encontrar certos dados cuja falta me perturba.
Que terá dito de mim a grande imprensa?
Não tenho notícias do que vai pelo mundo. Não sei mesmo onde me encontro. Vivo como um cenobita.
Isto é bom.
O que desta gente me separa é o receio de ser diferente, um outro.
Oh, este horror de sentir a realidade fugir sob os meus próprios passos! Trabalhosamente, recomponho o «Eu», que a presença dos outros dissipa e confunde.
Isto é claro e horrível... Muitas vezes, subitamente, parece que deixo de ser eu, e a própria ideia do meu crime se obscurece, o meu passado é outro, como se uma força poderosa me arrastasse para um novo plano da existência. Então, fujo e luto comigo, a sós, desesperado.
O isolamento e a calma da prisão permitem-me pensar melhor e ordenar tantas recordações. Embebido em mim mesmo, sinto arder, mais vivo, o meu poder de concepção, e ainda espero compor alguns volumes de análise introspectiva. Vou meter o Nietzsche num chinelo.
Penso às vezes com piedade na insensatez dos que lutam apaixonadamente pela vida livre; chego a rir do meu próprio passado, eu, que já me deixei arrastar pelo remorso e pela dor. Agora sinto-me perfeitamente sereno. Não imaginam o que isto representa para mim! Estou sentado a escrever; sinto um sopro de Primavera vir de fora, pela janela aberta, nos raios do sol, e ouço na cerca o ramalhar das árvores cobertas de verdura nova, que o vento acaricia brandamente. Vozes... Também um sentimento novo de alegria me agita o coração.
Toda a gente aqui tem, para mim, deferências impressionantes. Só alguns dos companheiros, pobres náufragos que passeiam como eu na cerca, parecem querer às vezes provocar-me. Que mal lhes fiz? Estranhos tipos a quem a clausura parece ter roubado o senso! Dizem coisas perfeitamente infantis e sem sentido; mas os guardas que nos vigiam levam-nos logo para longe de mim.
Não me admira que estejam loucos, se, como se julga, o isolamento produz graves afecções, mesmo em quem foi sempre equilibrado. Sim, a solidão é um privilégio de raros, o domínio dos fortes! Uns aproximam-se para me fazerem confidências absurdas ou monstruosas. Um declarou chamar-se Ivanov e ser domador de leões: é um pobre raquítico, que mal se tem nas pernas. Outro jurou-me ser o imperador Guilherme, e estar aqui esperando que o Hindemburgo o venha buscar para tomar Paris de assalto. Provavelmente são as alcunhas que outrora lhes deram, e com as quais as suas imaginações sobreexcitadas compuseram lendas... Outros insultam-me ou segredam-me obscenidades, aventuras de amor que são de arrepiar, ocorridas aqui dentro, com mulheres misteriosas que ninguém sabe donde vêm nem para onde vão. E há os que me fazem gestos lascivos ou provocadores, de longe, por entre as árvores da cerca. Volto-lhes as costas, com indiferença. Nem já sequer me causam piedade. Porque os não metem numa enxovia?
Recebo poucas visitas e, coisa estranha, não reconheço algumas das pessoas que se dizem das minhas relações. Interrogam-me, invocam nomes, datas, olham-me com espanto e curiosidade. Com franqueza, irritam-me. Às vezes trato-as mal. A impressão que me fica é de tê-las conhecido, sim, mas numa vida anterior de que me não resta lembrança viva... Há certos enigmas contra os quais luto em vão.
São talvez pessoas que se interessam pelo meu «caso»: romancistas, quem sabe, ou psicólogos. Deixá-lo. Minha mulher também vem, às vezes na companhia de estranhos. Faz-me dó. Olha-me com tristeza e com receio, como se eu estivesse transtornado.
Veste de escuro. Trabalha decerto para comer, e tem os olhos pisados. Agarra-se de repente a mim, a soluçar, e diz-me: «Lembra-te! Lembra-te!...»
Oh, meu Deus, estas cenas perturbam-me, e eu não posso, não posso mais! Sinto que perco o equilíbrio... Deixem-me só! Deixem-me só! Que queres tu que eu recorde? Porque teimam todos que me lembre? Que me lembre — de quê? de quem?
Recebo-a, pois, sem nenhum entusiasmo. Imaginem que às vezes me vem surpreender num dia de inspiração ou de trabalho: procuro despachá-la o mais depressa que posso. As mulheres imaginam que nós devemos sacrificar os mais altos fins da existência às futilidades sentimentais, ou à recordação do que passou — do que deixou de ser.
Quero-me só com o meu presente. O passado não me importa. É bom adormecer com a certeza de que «amanhã» será uma coisa diferente. Porventura o eu de hoje continua o de ontem? O passado não existe, é uma ideia que alteramos a nosso gosto. Cada dia que nasce traz uma vida nova.
Entre nós tudo acabou. Tenho pena dela. Mas porque não se divorcia? As mulheres não compreendem certas coisas... Se encontrasse um marido honesto e dedicado, ainda podia ser feliz, e eu ficava contente. Como eu consigo já não ter ciúmes! E acreditem: estimo-a muito. Pobre Luísa!... É preciso ser puro. Mas ela não entende!
O director da cadeia é muito amável para mim. Não sei que lhe fiz. Tem comigo atenções que não posso esquecer. Anda sempre de bata muito branca. Interroga-me às vezes demoradamente, e já conseguiu reavivar-me a lembrança de certas coisas que eu julgava ter esquecido para sempre, talvez por serem tão banais. E fá-lo de tal modo que não me atrevo a resistir-lhe.
— Vês tu? — disse-me ontem de manhã, sentado na minha cama. — Já conseguiste recordar coisas bem sugestivas. Temos de continuar!
Prometi mostrar-lhe este manuscrito, logo que o tivesse acabado. (É a revisão do que levei ao tribunal.)
— Pois sim. Mas trabalha devagar. E escreve tudo — tudo!
— É impossível. Há coisas que eu não consigo esclarecer.
— Mas faz um esforço. Talvez eu possa ajudar-te. É para teu bem.
— Mas eu não quero sair daqui!
Acorda-me de noite, sem motivo aparente, para me fazer certas perguntas. Mostra-me retratos, conta-me incidentes que me parece ter já lido algures...
— Hás-de curar-te — diz. — Hei-de acabar por te restituir a memória completa de ti mesmo! — E de repente: — Quem era o Abílio?
Estremeço. O Abílio... Uma angústia indefinível:
— Espere! Espere! Eu lembro-me... Conheci um...
— Quem era? Onde vivia?
O Abílio... Eu sabia, eu sabia! Mas é impossível distinguir...
Eu quero, mas há um muro que me separa não sei de quê... Uma angústia, como se dentro de mim um animal lutasse contra a minha vontade...
— Não posso! Não posso! Não quero...
Àquele simples nome, tudo se convulciona em mim.
— Há um mês não conhecias este nome. Hoje conhece-lo?
— Conheço...
— Obrigado.
Obrigado — porquê? Que interesse tem ele nisso? Que lhe importa o que adormeceu cá dentro? Detesto que me façam perguntas.
Eu já sofri. Já fui um descontente, um revoltado, se quiserem. Hoje vivo serenamente. A serenidade é a maior virtude da inteligência. O que houve em mim foi um simples conflito dos meios e dos fins. Todo o meu drama se resume nisto. Não discutam se sou mau ou bom. Os actos são bons ou maus não segundo a vontade, mas segundo os efeitos. E há fatalidades que nos impelem, através do mal, para um destino de beleza perfeita.
A ideia do mal faz-me pensar na Sociedade: estamos quites!
Nada fez por mim, nada lhe devo, vivi à margem dela como um cardo à beira dum caminho. Também a não acuso. Não passa duma abstracção para que apela quem já nada espera de si mesmo... Não há senão indivíduos. (Verdadeiramente, só eu existo, eu e estes pensamentos.) E todos exigimos dela alguma coisa!
Mas porque hei-de eu pensar no mundo? É um hábito que fica. Detesto a vida activa. Os gestos que faço, os passos que dou, perturbam-me a vida interior, que é o meu prazer. Esquecimento, quietação! Doutor, não me olhe assim! Não me pergunte mais nada!... Tenho amor a esta casa onde adquiri a certeza definitiva de que existo, porque penso.
Nesta hora solene em que revejo, comovido, a minha biografia, para que hei-de mentir? Eu sou o homem que obedeceu.
Não me considerem pois um criminoso.
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