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PRÓLOGO
Ele sempre soubera que a amava demasiado. Ninguém alguma vez se comparara a ela. Nem de longe. Se existem almas gémeas, então ela é a dele. O que sente por ela é simultaneamente uma bênção e uma maldição. Por vezes, perguntava-se se aquela necessidade que sente por ela, aquela obsessão, tem tudo que ver com se ter criado sem mãe, sem qualquer tipo de modelo feminino forte. Mas não, os seus sentimentos por ela vão muito além disso. É primordial, quase espiritual. Quando puseram os olhos um no outro pela primeira vez, houve uma faísca, um reconhecimento mútuo de que tinham finalmente encontrado a sua pessoa, a sua alma gémea, e uma sensação de calma apoderara-se dele, porque já não estava sozinho no mundo. Encontrara, por fim, alguém que o compreendia completamente. Todo ele, até as partes más. Especialmente as partes mais.
Nos últimos tempos, porém, uma outra emoção começou a insinuar-se. Algo indesejado, insidioso, que se repete na sua mente até ser impossível de ignorar.
Medo.
Apercebeu-se de que sente receio do poder que ela tem sobre ele. E do que ela pode levá-lo a fazer.
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PRIMEIRA PARTE
1
**LENA**
**Julho de 2024**
**Bristol**
Os novos vizinhos estão no jardim da frente da casa deles. Deixo-me ficar no carro um pouco mais de tempo só para os observar, com o ar condicionado a soprar-me na cara. Como se mudaram há poucos dias, ainda não nos apresentámos, mas ouvi dizer por aí (bem, pela Phyllis do número 52) que são um «casal aposentado bem na vida, dos seus sessenta e muitos anos».
A porta da frente deles está aberta, o que me proporciona uma visão tentadora do hall de entrada recentemente renovado e do enorme lustre que reflete a luz do sol do fim da tarde. As nossas casas situam-se numa bonita banda de casas vitorianas, numa rua ladeada por árvores, na zona de Redland, em Bristol, embora a deles fique na ponta da banda e seja maior, com uma conversão do sótão e uma ampliação moderna em vidro nas traseiras. Pertencia à Joan, mas, quando ela foi para um lar de terceira idade, a filha vendeu-a a um promotor imobiliário, que a renovou com um elevado nível de qualidade e a deve ter vendido a este casal. A nossa casa parece a irmã mais pequena e menos atraente. A mais franzina da ninhada.
Nos últimos dez dias, o tempo tem ficado cada vez mais quente, e cada passo que dou faz brotar o suor em partes do corpo onde nunca pensei que se pudesse transpirar. No entanto, os vizinhos parecem frescos como uma alface: ela, esbelta, num vestido de linho amarelo-pálido que contrasta com o seu cabelo castanho-escuro, e ele, de calções e camisa de linho, sem uma gota de transpiração à vista. É alto e bem parecido, à maneira de um ídolo da Hollywood dos velhos tempos, com o cabelo branco penteado para trás, afastado do seu rosto bronzeado que anuncia aos quatro ventos horas passadas em campos de golfe e praias das Caraíbas. Estacionado à porta da casa deles, mesmo atrás do meu carro, está um modelo clássico de um Jaguar azul que o meu filho adolescente, o Rufus, já anda a cobiçar.
A senhora repara em mi e sorri calorosamente. Aceno, com embaraço por ter sido surpreendida a olhar embasbacada, mas esta pode ser uma excelente oportunidade para me apresentar. Saio do carro, com o vestido já colado à parte de trás das coxas, e vou à mala do carro buscar os dois sacos de papel com as compras do supermercado para a minha noite de cinema com o Rufus. Todas as quintas-feiras fazemos a mesma coisa, que aprecio mais do que nunca, especialmente porque no ano que vem ele irá para a universidade. A nossa casa, que antes dava a sensação de ser tão pequena e sobrelotada, vai parecer tão ampla e vazia como uma praia na estação baixa.
Fecho a mala do carro com o cotovelo, e, quando me viro para a casa deles para lhes dar as boas-vindas à vizinhança, sobressalto-me ao ver a senhora a poucos centímetros de mim, com um sorriso radiante no rosto.
— Olá. Sou a Marielle Morgan. Acabámos de nos mudar para a casa ao lado.
Estende-me a mão, mas ri-se quando se apercebe de que tenho as duas mãos ocupadas com sacos de compras e deixa cair o braço ao lado do corpo.
— É um prazer conhecê-la. Sou a Lena — digo, numa voz mais aguda e animada do que pretendia. Nunca fui muito boa a dar a impressão de ser reservada ou descontraída. A Marielle agrada-me imediatamente. Tem uns olhos cinzento-esverdeados lindos, uns pés de galinha simétricos que se estendem em direção às têmporas, maçãs do rosto altas e uma voz cheia de mel, como a da atriz Joanna Lumley.
— Henry! — diz ela ao marido. — Vem conhecer a Lena!
Os sacos são pesados, mas ajusto-os nos braços enquanto o marido vem ter connosco. Parece mais reservado do que a Marielle e fala baixo, na sua autoconfiança calma. Cumprimenta-me e depois fica em silêncio ao lado da mulher.
— Tem filhos? — pergunta ela. — Vi um rapaz adolescente a entrar e a sair.
— Sim, o Rufus. Tem dezassete anos. Vai para a universidade no próximo ano. — Faço um esgar, e a Marielle acena com a cabeça com ar de quem compreende a minha expressão.
— É tão difícil quando eles voam do ninho. São só vocês os dois?
Penso no meu marido, o Charlie, que saiu de casa no final do ano passado, e digo que sim. Ela deve aperceber-se da tensão no meu rosto, porque muda rapidamente de tema.
— Parece ser uma vizinhança encantadora. Somos novos na zona e queríamos estar perto da família. Fomos avós recentemente. — Cora de orgulho quando diz aquilo.
— Oh, ena, parabéns. Que maravilha.
Sinto uma pontinha de inveja. Adoro bebés. Queria tener uma casa cheia de crianças, mas infelizmente não pôde ser, o que torna o Rufus ainda mais especial e a razão pela qual sempre fui um pouco excessivamente protetora em relação a ele.
Ela sorri e o Henry faz um meio-sorriso com laivos de embaraço, e depois olha para os pés. Parece um pouco desconfortável, e lembra-me o meu pai. Ele também detestava conversas de circunstância.
— Tem de vir tomar um copo uma noite destas — continua a Marielle. — O Rufus também.
— Obrigada, adoraríamos.
Vira-se para o Henry:
— Ótimo. Bem, não a empatamos mais.
E os dois preparam-se para voltar para o jardim da frente da casa deles quando um dos meus sacos decide rasgar-se e as compras caem no passeio. Olho para aquilo, consternada.
— Oh, que maçada! — diz a Marielle, ao mesmo tempo que estendo a perna para evitar que uma garrafa de Coca-Cola role para a estrada. — Espere, vou buscar outro saco. — Entra a correr em casa, deixando-me a mim e ao Henry sozinhos, com as minhas compras espalhadas pelo passeio. Sinto-me embaraçada por causa daquela comida de plástico toda.
— Espere, deixe-me ajudar — diz o Henry, pegando numa embalagem de bolinhos com recheio de creme de laranja e cobertura de chocolate e num pacote de bolachas com recheio de creme, entregando-mos.
— É um miminho das noites de quinta-feira — digo, atarantada. Pouso o outro saco no passeio. — Para mim e para o Rufus. Há fruta neste saco.
— Ei, não estou a julgá-la. — Ri-se, o que lhe ilumina todo o rosto. — Havia de ver as porcarias que eu e a Marielle comemos. A minha mulher é muito lambareira.
— A minha mãe vem visitar-nos este fim de semana e também é muito lambareira, portanto isto também é para ela...
Ele parece ligeiramente intrigado enquanto discorro sobre a minha mãe e explico que só pode ficar uma noite por causa dos seus cães, apesar de o companheiro dela, o Mick, estar em casa para tomar conta deles. Estou a partilhar demasiada informação, mas há qualquer coisa nele que me faz sentir como uma criança, não como a mãe de quarenta e três anos que sou.
A Marielle sai da casa deles com um saco de juta da charcutaria chique da esquina. Entre nós, apanhamos a embalagem de vários pacotes de bolachas, o saco de batatas fritas de tamanho familiar, uma tablete gigantesca de chocolate Dairy Milk, e metemos tudo no saco.
— Muito obrigada. Vou arrumar as compras agora, mas foi um prazer conhecê-los aos dois — digo de novo, consciente de que estou a tagarelar.
— A si também — diz a Marielle.
Entro em casa e fecho a porta atrás de mim, a sentir as axilas húmidas. Meu Deus, foi mesmo embaraçoso. Que bela primeira impressão que tiveram de mim, a abanar-me, a transpirar e a falar pelos cotovelos.
Reparo nas sapatilhas do Rufus deixadas à toa junto do capacho, contente por ele já ter chegado da escola. Levo as compras para a cozinha, e o Phoenix, o meu Cavachon cor de café com leite, vem a trote para me cumprimentar, comportando-se como se eu tivesse estado fora o dia todo e não apenas uma hora no supermercado. Pouso os compras na bancada e abro de par em par as portas do pátio. O nosso jardim das traseiras é muito soalheiro, e o relvado já está seco e irregular depois dos últimos dez dias de calor intenso. Segundo as previsões, podemos esperar que a vaga de calor se prolongue por mais uma ou duas semanas.
O Rufus está na sala com os estores corridos. Quando entro, põe a televisão em pausa num grande plano do rosto de James Stewart e vira-se para mi, com um ar culpado. Está a ver Janela Indiscreta outra vez. Esta noite é O Terceiro Homem, porque o Rufus está a fazer um módulo de film-noir para a disciplina de estudos dos média. Adoro que tenhamos tornado ver um filme juntos um evento regular das noites de quinta-feira desde novembro passado, que coincidiu com a saída de casa do Charlie. Sei que é a forma de o Rufus me oferecer o seu apoio: o nosso amor pelo cinema sempre foi uma coisa nossa. Com o pai, é a música.
— Já começaste sem mim?
O Rufus abana a cabeça.
— Ah, desculpa, mãe. Esta noite não posso. Esqueci-me completamente, o pai tem aquele concerto mais tarde, e perguntou-me se eu podia ajudar. Vai pagar-nos, a mi e ao Freddie, para sermos os roadies dele.
O Freddie é um novo amigo da escola de quem o Rufus tem falado muito nestes últimos meses. Parece ser um rapaz bastante simpático. O Rufus juntara-se ao grupo errado no décimo primeiro ano e foi vítima de bullying de um dos seus supostos «amigos», portanto sinto-me contente por ele estar a fazer novos amigos. Foi pena não ter ido para a mesma escola que o filho da minha melhor amiga Jo, o Archie, porque os dois sempre se deram bem, apesar de serem bastante diferentes. O Rufus não via a hora de ir para outra escola.
— Mas é quinta-feira à noite e amanhã tens aulas...
Passa a mão pelo cabelo farto.
— Eu sei, e normalmente nunca faltaria à nossa sessão de cinema, mas o pai disse que este concerto é importante. Vai haver, tipo, mesmo muita gente a assistir.
Afasto a desilusão. O Rufus é um rapaz novo: devia sair com os amigos, não ficar metido em casa comigo.
— OK. A que horas voltas?
— Fico em casa do pai esta noite e ele deixa-me na escola de manhã.
Cai-me o coração aos pés. Detesto passar a noite sozinha em casa, embora tenha de me habituar quando o Rufus for para a universidade. Para esconder o que sinto, vou até à janela e abro os estores.
A Marielle e o Henry ainda estão no jardim da frente da casa deles.
— E também, mãe, tenho andado para te perguntar. Posso ter aulas de guitarra?
Viro-me para ele.
— O teu pai não te está a ensinar?
Faz uma careta.
— O pai só sabe o básico e eu preciso de alguém... mais experiente. — O Charlie é um baterista brilhante, mas não é lá muito bom na guitarra.
— Quanto custam as aulas?
Desde que eu e o Charlie nos separámos, andamos apertados de finanças. Não ganho muito como conselheira no gabinete de apoio aos cidadãos, o Citizens Advice, e a herança que o meu pai me deixou há um ano e meio tem diminuído a olhos vistos.
O Rufus levanta-se do sofá e desliga a televisão.
— Não é muito. Há um tipo que faz um desconto se nos inscrevermos por um período. Não devo precisar de muitas aulas. O pai conhece o tipo. Disse que concordava, mas que eu tinha de te perguntar a ti também.
— Eu falo com o pai sobre isso — prometo. Na minha visão periférica, vejo a Marielle a arrancar uma erva daninha. — Espera um segundo. Tenho de devolver um saco aos novos vizinhos antes que me esqueça. — É uma longa história — acrescento, quando ele franze o sobrolho. — Parecem simpáticos. Mais velhos. Chiques.
Saio da sala e vou à cozinha, pego no saco que está na bancada e saio a toda a pressa pela porta da frente. Estou prestes a atravessar para o muro que separa as nossas casas quando a expressão do Henry me faz hesitar. A Marielle está de costas para mim, com os ombros descaídos.
— Já disse, não podemos discutir isto agora — sibila ele. — É demasiado perigoso.
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