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CAPÍTULO UM
A recém-chegada
Nizamuddin dormia quando se ouviram as primeiras emissões nas horas escuras como breu que precedem a aurora. Eram tão fracas que só os morcegos as ouviram, enquanto voavam descrevendo arcos solitários entre o canal e o dargah, o antigo santuário sufi em torno do qual se enroscavam, muito juntas, as casas de alvenaria do bairro. Um dos morcegos chiou, nervoso, quando as palavras sussurradas e assustadas chegaram até ele, ecoando-lhe na cabeça: «Escuro. Quero a minha mãe. Porque é que os cães estão a rosnar? Porque é que não dizes nada? Está tão escuro aqui dentro.»
Depois, mais nada, e o morcego rapidamente esqueceu o que tinha ouvido. No entanto, quando se pendurou de cabeça para baixo nas ruínas perto do baoli — um dos poucos poços com degraus de Deli ainda alimentados pelas profundezas de uma nascente subterrânea —, dormitando à luz nacarada do dia, sonhou que era uma criatura perseguida num espaço escuro e apertado, indefesa perante os seus predadores.
Muito tempo depois, chegou a segunda série de emissões, agitando o ar pós-monção e assustando um milhafre-preto que fazia incursões sobre o grande parque no centro de Nizamud-din Ocidental. «A Mara tem medo, põe-me no chão! Para onde foi a minha mãe? Quem és tu? Para onde me estás a levar? Não quero sair do cano de esgoto! Estás a assustar-me, seu horrível Pé-Grande!»
As asas de Dente inclinaram-se, fazendo com que ele mergulhasse a uma distância perigosamente curta dos telhados, enquanto abanava a cabeça, tentando livrar-se da sensação de que havia um gato a miar-lhe em pleno voo, baixinho, mas o suficiente para agitar as delicadas penas que lhe cobriam o ouvido interno. Sentiu-se inquieto, até que os seus olhos perspicazes avistaram uma ratazana a correr pelo chão, maior e mais gorda do que as ratazanas habituais, com o seu focinho comprido a tremer nervosamente, quando a sombra do predador caiu sobre ela e a caçada do dia começou a sério. Quando matou a presa, o milhafre-preto já tinha esquecido o estranho encontro.
A Emissora permaneceu em silêncio depois disso. Não havia gatos nem cães na zona àquela hora, e a única outra criatura no bairro de Nizamuddin a ouvir a segunda emissão fora um pequeno rato castanho, que se sentara sobre os quartos traseiros, olhara em redor com preocupação e, não vendo gatos nem gatinhos, continuara o seu caminho.
Os dias passaram tranquilamente. Era a época mais feliz do ano para os residentes de Nizamuddin e dos outros bairros de Deli. O verão acabara, e o Diwali, o festival anual das luzes com o seu fogo de artifício ameaçador e as suas tempestades de ruído, só começaria a meio do outono. Livres do calor do verão, os gatos de Nizamuddin podiam começar a caçar outra vez.
Beraal estava satisfeita pela mudança de ares. Passara quase todo o verão no baoli, a apreciar a tranquilidade do poço em desuso, e no terreno abandonado onde os gatos encontravam abrigo entre as pilhas de entulho. Nesse ano, o calor fora intenso, fazendo mirrar as folhas das árvores-flamejantes e secando as flores vermelhas das paineiras-vermelhas-da-índia, pelo que a jovem gata já tinha saudades de poder fazer longas peregrinações. Espreguiçou-se, bocejou e sacudiu as patas, pensando que talvez estivesse na altura de fazer a caminhada até ao Túmulo de Humayun e ver o que os gatos que viviam nas partes mais tranquilas dos seus vastos jardins, sem serem perturbados pelas multidões que visitavam o monumento antigo, estavam a fazer.
Havia muito barulho no parque, com a criançada dos Pés-Grandes da vizinhança a discutir por causa de um jogo de críquete e os milhafres-pretos a ecoarem essa discussão numa batalha na copa das árvores, lá muito em cima. Beraal afastou-se a passo vagaroso em direção ao estábulo que ficava no meio das casas dos Pés-Grandes, acomodando-se no muro de tijolos partidos para tratar da sua higiene em paz. Foi uma limpeza mais demorada do que aquilo que as abluções felinas habituais exigiam: Beraal tinha pelo comprido, preto e branco, que caía, sedoso, até às patas quando estava limpo, mas era um íman para folhas secas, pó e outros detritos.
Estava empoleirada no muro, a lamber diligentemente uma teia de aranha pegajosa que se lhe prendera à pata, quando o ar em redor das suas orelhas pareceu cintilar e rasgar-se.
«Ai!», disse uma vozinha cristalina mesmo ao seu ouvido. «A Mara está incomodada! A Mara está sozinha com os Pés-Grandes! Eles são assustadores e não se calam, e não gosto de que me peguem ao colo e me virem de cabeça para baixo!»
Beraal quase perdeu o equilíbrio e teve de dar uma cambalhota para voltar para o muro, num gesto que em nada contribuiu para a sua dignidade. Com os olhos esbugalhados, os bigodes eriçados e a cauda tufada com o dobro do tamanho habitual, virou-se em cima do muro, à procura de um gato que não estava em lado nenhum. Ignorou o ratinho castanho que saiu a correr de um buraco, igualmente assustado. O sussurro silencioso que o rato, que se chamava Jethro, ouvira havia quase uma lua estava muito mais alto, muito mais forte do que da primeira vez.
Beraal prestou pouca atenção aos guinchos do rato, sacudindo as suas orelhas sedosas. Aquela voz parecia tão próxima — estaria na árvore-de-neem? Perto do chão, ao lado das vacas? Mas não havia nada ali, e a gata estava realmente perplexa. Entesou-se quando as folhas secas das trepadeiras farfalharam, mas depois relaxou. Era só Hulo, que saltara da árvore-de-neem e aterrara no muro, ao lado dela.
— Que raio foi aquilo? — perguntou ele.
— Então, também ouviste — disse ela, lentamente.
Em jeito de resposta, Hulo agitou a cauda preta e desgrenhada. — Aposto que todos os gatos e gatas de Nizamuddin andam à
procura de quem quer que fosse... Ainda me tremem os bigodes!
— Parecia-me que estava a falar diretamente comigo, Hulo.
— Tive a mesma sensação. Aquele gato emitiu mais alto do que qualquer animal que eu me lembre de alguma vez ter visto no nosso território!
— E para mais longe — completou Beraal, sentindo um formigueiro nos bigodes.
Os outros gatos de Nizamuddin conectaram-se — Miao, Katar, Abol e Tabol do canal, Qawwali —, e o ar zumbia com perguntas. O pelo desgrenhado de Hulo eriçou-se enquanto ele escutava. — Eles ouviram-na até do outro lado do canal! — disse ele a Beraal. — Quem quer que fosse, Mara-Shara, ou lá o que seja, é uma Emissora, não é uma gata comum. E aquilo que me preocupa é o facto de não ser uma de nós!
Beraal sentiu o pelo arrepiar-se, fio a fio. Os gatos de Niza-muddin estavam habituados a conectar-se a longas distâncias, como todos os animais selvagens faziam dentro da sua própria espécie. Os miados só chegavam até certo ponto; os cheiros e as transmissões dos bigodes formavam uma teia invisível e forte em torno do clã de gatos do bairro e do dargah. Mas a conexão só lhes permitia ouvirem-se uns aos outros. Uma emissão verdadeira, em que o pelo do Emissor parecia roçar no ouvinte, em que as suas palavras e os seus odores tocavam nos bigodes do ouvinte, era rara. E apenas um verdadeiro Emissor conseguia conectar-se a animais de outras espécies, bem como da sua própria espécie; o clã, como todos os clãs que não tinham Emissores, usava os miados, os chilreios e os latidos de selvês, em vez de se conectar pelos bigodes, quando tinha de falar com membros de outras espécies. De vez em quando, gatos forasteiros, viajantes e vagabundos de outras partes da cidade conseguiam romper a teia, conectando-se acidentalmente... mas havia já muitos anos que o clã de Nizamuddin não tinha nenhum Emissor no seu seio nem recebia uma emissão tão forte como aquela.
Beraal deixou a cauda cair enquanto pensava na emissão: parecia que vinha do fundo da sua cabeça.
Ela e Hulo sentiram os bigodes a estalarem quando Katar, o gato selvagem mais respeitado do clã, enviou um boletim para todos os gatos através da conexão de Nizamuddin.
— Suponho que todos tenham ouvido — disse Katar. Um coro de concordância percorreu todos os bigodes, desde os bangalôs em frente, passando pelo parque onde Beraal e Hulo se encontravam, até aos limites onde o bairro propriamente dito acabava e os telhados baixos dos bairros de lata, ilegais, mas omnipresentes, tomavam conta do espaço. — Alguém sabe quem, ou o quê, é essa tal Mara? Alguém viu, recentemente, gatos vadios vindos de outros lugares? Miao, alguma ideia?
Miao era a mais velha de todos os gatos selvagens de Nizamuddin.
— Teríamos sabido se houvesse algum forasteiro por aqui — disse ela. — Esta gata deve ter acabado de chegar. Não é nada habitual que um gato vadio tão poderoso escape à atenção de todos nós. Talvez o Qawwali e os gatos do dargah tenham mais informações.
Qawwali, contudo, disse que não havia sinal de forasteiros havia muitas luas. Abol e Tabol afirmaram que nenhum gato vadio atravessara o canal, e os gatos do mercado também não tinham visto estranhos.
Beraal partilhou uma ideia que lhe ocorrera.
— Há algo de estranho na forma como a gata falou — comentou ela. — As emissões dela não soaram simplesmente a algo que viesse de fora. A própria emissão em si foi invulgar.
— Isso é por não ser uma de nós, Beraal — salientou Hulo, impaciente. — Os forasteiros soam sempre diferentes.
— Não foi isso que eu quis dizer — afirmou Beraal. — Havia imagens muito nítidas, embora eu não conseguisse distinguir exatamente o que eram.
A conexão crepitou quando anuíram lentamente. Katar interrompeu:
— Viste o que eu vi, Beraal? Pareceu-me ver um pequeno borrão cor de laranja a pairar no ar.
— Algo assim — respondeu Beraal. — E a quem se destinava aquela emissão? Saberia a gata sequer que estava a emitir?
Hulo enviou um espasmo exasperado pela linha de conexão.
— Seja o que for — disse ele —, é uma gata vadia que não é como nós, os gatos selvagens, e, se consegue emitir com tanta potência que quase me fez cair do galho da árvore em que me encontrava, quero vê-la morta. Há muitos anos que nenhum de nós ouve uma emissão tão forte como esta.
— Espera — disse Katar. — Miao, quem foi o último Emissor de Nizamuddin?
— Não chegaste a conhecê-la, Katar — retorquiu Miao. — Quase nenhum de vocês se há de lembrar da Tigris, ela não foi do vosso tempo. Se se estão a interrogar sobre os descendentes dela, não teve nenhum. A Tigris não tinha companheiros que nós conhecêssemos, e não houve mais nenhum Emissor em Nizamuddin desde então, embora tenhamos observado com atenção todas as crias de cada nova ninhada. E embora a Tigris conseguisse emitir com certa habilidade, a emissão que acabámos de ouvir é muito mais forte. Esta Emissora é seguramente uma forasteira... e, a julgar pelo poder que crepita em todos os nossos bigodes, uma adulta experiente, possivelmente até uma veterana de batalhas. Não há gatos selvagens que correspondam a essa descrição aqui na zona. Se houvesse, saberíamos pelo cheiro ou pelos bigodes, portanto ela deve ter vindo com uma família de Pés-Grandes.
— Então, talvez devêssemos tentar descobrir mais sobre essa tal Mara — começou Beraal a dizer, quando Katar interrompeu suavemente a conexão.
Katar e Miao eram os mais experientes dos gatos selvagens de Nizamuddin. A colónia não tinha líder, como era normal entre os gatos, mas, quando todos os gatos selvagens tinham de se reunir, Miao ou Katar conduziam os conclaves do clã.
— Estou a limpar a conexão — informou ele. — Devem estar todos em estado de alerta. Procurem forasteiros, fiquem atentos a qualquer relato de animais vadios que possam ter atravessado o canal ou vindo do abrigo de animais. Observem com atenção as casas dos Pés-Grandes; ela falou nos Pés-Grandes, se a memória não me falha. Esperem encontrar uma grande lutadora, provavelmente uma gata adulta, como diz a Miao. Esta gata deverá ter um tamanho considerável, para ter um poder de transmissão como este.
— Katar — começou Beraal —, o que devemos fazer quando a encontrarmos?
— Matem-na — respondeu ele. — Se não for uma de nós e, especialmente, se estiver a viver com os Pés-Grandes. Beraal, espero que te empenhes pessoalmente na execução.
Beraal não esperava outra resposta. Forasteiros, principalmente aqueles que viviam com Pés-Grandes, eram sempre vistos com desconfiança, e uma Emissora desconhecida era ainda pior. As suas capacidades diferenciavam-nos dos outros gatos selvagens, e aquela abalara profundamente o clã de Nizamuddin.
Se fosse uma gata de interior, uma gata doméstica, matá-la podia ser um pouco mais difícil, mas Beraal calculou que resolveria esse problema quando chegasse o momento. Beraal era a mais feroz entre as gatas adultas de Nizamuddin e conseguia enfrentar muitos dos machos. Era uma caçadora exímia — rápida, silenciosa e precisa —, e a sua principal preocupação, naquele momento, era encontrar a forasteira que ameaçava a paz do clã.
Foi uma noite desassossegada para a população felina de Niza-muddin. Duas novas emissões ecoaram na escuridão, perturbando tanto os que rondavam pelas ruas como os que dormiam. «O lugar novo cheira a novo, tenho saudades da minha mãe, novo, novo, novo, a Mara está sozinha, a Mara está triste.» Isto aconteceu uma hora depois da primeira conexão dos gatos de Nizamuddin e voltou a pôr todos os bigodes a tremer. Foi ainda mais forte do que a primeira mensagem, e o medo fez com que todos pusessem as orelhas para trás, de pelos eriçados, empáticos.
Enquanto caminhava, irrequieta, pelo parque, apenas superficialmente atenta aos cães, Beraal encontrou-se com Katar. O bonito gato cinzento tocou-lhe no nariz com o seu para a saudar e tentou impedir que o gatinho castanho que andava a segui-lo tropeçasse nas patas de Beraal.
— Eu e o jovem Canhoto vamos até ao dargah para verificar os rastos de cheiro no perímetro, caso todos nós tenhamos deixado passar alguma coisa — disse ele. — A Miao e o Hulo estão a patrulhar o canal. Canhoto, pára de brincar com a minha cauda, senão tenho de te dar outra palmada! Estou preocupado, Beraal, não me lembro de nenhum Emissor tão forte ou tão estranho como esta. Tentei comunicar com ela, e a Miao também, mas não conseguimos estabelecer a conexão. Não estou a perceber. Não me agrada nada. É melhor encontrá-la e matá-la o mais depressa possível.
Beraal enrolou a cauda em torno da dele, um gesto de consolo pequeno, mas agradável; ela e Katar tinham acasalado uma vez e — embora nem o seu gatinho nem nenhum dos outros gatos filhos de outros machos tivessem sobrevivido, e embora ambos tivessem tido outros parceiros desde então — gostavam muito um do outro.
— E é claro que o Canhoto tem de ir contigo — disse ela, tocando ao de leve com os bigodes na cabeça do jovem gatinho. — Não devias estar a dormir, pequenote?
Canhoto era o órfão da colónia, e, até agora, tinha sido necessário o esforço conjunto de todos os gatos de Nizamuddin para o manter longe de sarilhos: o gatinho era dado a rebolar do formigueiro para dentro do ninho de térmitas, como dizia o velho ditado.
— As emissões acordaram-no — disse Katar —, e encontrei-o a vaguear pelos telhados como se fosse um membro da patrulha dos gatos, sozinho.
Não foi preciso acrescentar que era mais seguro levar o gatinho com ele. Canhoto conseguia ouvir os outros gatos na conexão, mas os seus bigodes ainda não tinham crescido o suficiente para que ele conseguisse enviar mensagens através da conexão sem que ficassem terrivelmente distorcidas. Além disso, a última tentativa do gatinho de patrulhar os telhados acabara com ele emaranhado num estendal, com as cordas e as peças de roupa molhadas a aba- farem os seus miados, enquanto ele pedia ajuda. Três horas depois, chegou a terceira emissão. Quase estavam à espera dela, mas não fez sentido nenhum. Soava tão alta quanto a anterior, mas menos assustada. «Novo, continua a ser novo, não gosto de coisas novas, mas os Pés-Grandes são queridos, os Pés-Grandes fazem-me sentir menos assustada.»
Os telhados de Nizamuddin raramente tinham visto tanta atividade.
Miados ecoavam por todo o bairro, fazendo com que os Pés- -Grandes se revirassem, inquietos, nas suas camas. Formas fantasmagóricas e ágeis percorriam os telhados, desciam por calhas e escadas traseiras, patrulhavam caixotes do lixo, enfiavam-se devagarinho debaixo dos carros, à procura de uma Emissora que não se deixava ver. Os cães ganiam no sono, sentindo no ar o crepitar das mensagens que iam e vinham; os poucos suficientemente tolos para tentarem perseguir os gatos que viam ficavam surpreendidos quando se deparavam com olhos a faiscar e sibilos e cuspidelas agressivas. Os gatos de Nizamuddin tinham trabalho a fazer nessa noite; não iriam permitir que uns quantos rafeiros se pusessem no seu caminho.
Na sua terceira ronda da noite, Beraal sentou-se pesadamente nos degraus que levavam à porta de uma das casas e decidiu que estava na altura de cuidar um bocadinho da sua higiene. Conforme a língua lhe soltava o pelo sedoso, libertando parte da tensão que lhe contorcia as entranhas, ela teve mais facilidade em concentrar-se no problema. Era como desembaraçar um novelo de lã muito complicado: era preciso encontrar as pontas e puxá-las uma a uma.
Schlep, schlep, a sua língua deslizava suavemente para a frente e para trás ao longo do pelo. «A gata assustada chama-se Mara. Mas, se fosse uma veterana de batalhas, porque estaria assustada? Por estar num lugar novo e, portanto, assustador?» Começou a desembaraçar os nós do pelo. Tossiu levemente ao engolir um nó de pó e pelos soltos, o que provavelmente significaria uma bola de pelo na manhã seguinte. Bem, não havia nada a fazer.
Equilibrando-se em três patas, esticou uma com cuidado e, com a língua, começou a tirar a sujidade de entre as garras. «Estará com uma família nova? Numa nova casa?» A cauda enrolou-se-lhe para facilitar o alcance, e ela começou a lambê-la distraidamente. As emissões iam ficando cada vez mais nítidas, bem como a imagem perturbadora de uma bolinha de pelo cor de laranja, fosse lá o que fosse. Mas não fazia sentido. Por que razão aquela poderosa Emissora iria invadir o bairro dos gatos selvagens e recusar-se a falar com eles?
Quando os primeiros raios de sol surgiram, Beraal convenceu-se de que sabia o que tinha de fazer. Tinha de encontrar uma casa para a qual uma família de Pés-Grandes tivesse acabado de se mudar. Depois, tinha de descobrir se havia algum gato grande nessa casa. Achatou ligeiramente as orelhas: não gostava da ideia de entrar numa casa estranha habitada por Pés-Grandes. E se encontrasse a gata? E se fosse a Emissora mais poderosa que qual- quer um deles alguma vez vira e tivesse pressentido que ela estava lá para a matar? Então, Beraal perceberia, certo?
A primeira morte de Beraal fora uma ratazana velha e manhosa três vezes maior do que ela, quando ainda estava na sua quinta lua. Essa fora apenas a primeira de muitas vitórias. A gata nunca deixara de matar uma presa, e não lhe parecia que, desta vez, isso fosse acontecer.
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