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Um senhor indignado

Judite Furriel investigava o seu terceiro caso de linchamento vindo do nada, feito pipoca, num relativamente curto lapso de tempo.

Desta vez, o linchado era um violador. E, à sua frente, Judite tinha um homenzinho que não se calava.

Azar dela. Os suspeitos ora não falavam, ora falavam em demasia.

– Ó minha senhora, posso chamar-lhe minha senhora? Ah, prefere senhora inspetora? Inspetora? A senhora inspetora prefere que lhe chame apenas inspetora? Eu peço desculpa, eu cá sou assim, não tenho grandes estudos, fiquei-me pela quarta classe e já foi muita fruta, no meu tempo ainda não era obrigatório estudar mais. Como se isso de estudar uns anitos mais fizesse de uns melhores do que os outros, olhe que não faz, aqui que ninguém nos ouve não faz, seria bom se fizesse, mas não faz. A educação começa em casa, é o que eu digo sempre quando a minha mulher fica toda gemebunda por eu estar a ser demasiado severo com o nosso filho. “Ai que me matas o rapaz”, “Alfredo olha que é teu filho”, e eu só lhe digo “Cala-te mulher que a educação começa em casa”. A senhora diga lá, perdão, a senhora inspetora, a senhora inspetora diga lá se eu tenho ou não tenho razão. E o homenzinho lengalengava a sua arenga, arengava a sua lengalenga, lengarava até mais não. Não entendia por que raio era interrogado. Estivera apenas a fazer justiça. A mais e-le-men-tar justiça, diga-se de passagem. Ia ele muito sossegado metido na sua vida, que nunca fora de se meter na vida dos outros, as chatices todas do mundo é porque há gente a mais a meter-se na vida dos outros, a meter o nariz onde não é chamada, ia a caminho de casa já a pensar no jantar depois de um dia de honestíssimo trabalho, honestíssimo trabalho, senhora inspetora, quando viu um violador que tinha acabado de violar uma senhora de idade (ainda por cima uma senhora de idade!) e o coração falou mais alto do que a razão.

José Correia Guedes junta-se ao É Desta Que Leio Isto no próximo encontro, marcado para dia 27 de fevereiro, uma sexta-feirapelas 21h00. Consigo traz "Na Rota do Yankee Clipper", publicado pela Lua de Papel.

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"Na Rota do Yankee Clipper" conta a história do dia 22 de fevereiro de 1943, quando o Boeing 314 Yankee Clipper da Pan American mergulhou no rio Tejo quando se preparava para aterrar em frente a Cabo Ruivo, arrastando consigo 24 dos 39 ocupantes que trazia a bordo.

A razão disse-lhe para não se meter em sarilhos, Alfredo, tu vê lá a tua vida, a razão bem o avisou de que ainda acabaria como acabou, a ter de fazer um depoimento na esquadra, e a arriscar-se a ser olhado pelas autoridades como se tivesse cometido algum crime, porque hoje em dia a polícia via tudo ao contrário, protegia os criminosos mais do que às pessoas de bem.

O coração, todavia, falara mais alto. Então, tinha lá algum jeito um malandrim fazer uma maldade daquelas?! Ainda para mais, a uma senhora de idade?! Estava mal.

O homenzinho era daqueles que não se calavam. Ou então fingia muito bem. Judite Furriel já vira de tudo. Gente que se fechava em copas e em espadas e em paus, usando o silêncio como arma, muitos filmes americanos de tribunal nos cornos: “Tudo o que disser poderá ser usado contra si.”

A lei portuguesa as pessoas desconheciam, já a americana sabiam-na toda.

Ou julgavam que sabiam.

E depois havia aqueles que usavam a verborreia como outra forma de silêncio. Uma forma outra de silenciar a verdade. Escondendo-a bem escondida, por entre a folhagem espessa da diarreia verbal.

Seria o homenzinho um desses espertos? Ou seria (como parecia) o produto genuíno?

– E aí tive de explicar à minha mulher. Ó filha, se agora, enquanto o fedelho ainda tem cura, não for eu a dar-lhe com o cinto, ó depois será muito pior, a vida mais tarde dar-lhe-á o devido corretivo. E aí só te digo, aí não serão só açoites, que a vida não tem cá amor materno, quanto mais paterno. A senhora diga lá se não tenho razão, minha senhora. Perdão, senhora inspetora, a senhora inspetora desculpe, isto é mais forte do que eu. A senhora inspetora diga lá se tenho ou não tenho razão.

Noutras circunstâncias, Judite Furriel lembraria ao homenzinho que, hoje em dia, os castigos corporais violentos (ainda para mais com um cinto) constituíam crime punível por lei, inclusive com pena de prisão. Artigo 144/07. A lei já não via as crianças como propriedade dos pais. A lei também já não seguia a cartilha de São Paulo, que preconiza que a mulher e os filhos devem obedecer ao marido como a Igreja a Deus. Só que este não era o momento para dizer isso.

Por muito sérios que fossem os castigos corporais na casa do homenzinho, o assunto aqui era algo ainda mais grave. Um cidadão tinha sido assassinado em plena rua por (tudo o indicava) uma pequena multidão. E Judite estava ciente de que este cavalheiro à sua frente podia parecer muito humilde e simpático, mas era um dos algozes que, a sangue-frio, linchara um ser humano ao soco e ao pontapé.

– Diga-me lá, como soube que ele era um violador?

– Ó minha senhora, perdão, senhora inspetora, então, a senhora bem vê, o desgraçado estava a fugir a sete pés. Alguma havia de ter feito, não era? Caso contrário, não teria aquela gente toda atrás dele. Iam com uma fúria danada, uma fúria danada tão danada que só podia ser justa justiça. O mafarrico fugia com umas ganas tais que só podia ser culpado. Ó minha rica senhora, já lá diz o ditado, não há fumo sem fogo.

– Isso não explica por que motivo decidiu o senhor juntar-se à banda.

E ao coreto, pensou Judite, mas não disse.

O homenzinho remexeu-se na cadeira, como se quisesse dar um pulo à canguru. Ou à Incrível Hulk. Era mais pequeno do que Judite Furriel, mas era ainda assim um homem, e essa sua identidade fazia com que, ao revisitar o sucedido, a testosterona quase lhe saltasse poros fora.

– Ó minha senhora, eu já estou farto de lhe explicar, eu ainda perguntei a um rapaz que ia no grupo, lembro-me dele porque tinha uma mancha esquisita na testa, parecia que tinha levado com um ferro de engomar em cima, perguntei que diacho tinha feito o homem. Por que raio o perseguiam daquela maneira? Perguntei para tirar teimas, porque eu também não sou parvo. E quando o moço com a marca do ferro na testa me gritou que o magano que estavam a perseguir era um violador que tinha acabado de fazer patifarias indizíveis a uma senhora, ainda por cima uma senhora de idade, sem qualquer respeito, eu aí fiquei piurso. Adonde já se viu tamanho desaforo? Ainda se fosse uma moça nova... Eu sei, senhora inspetora, seria crime à mesma, mas, caramba, era mais compreensível, era mais humano, era mais decente. Que um homem às vezes também perde a cabeça, sobretudo quando as vê assim meio despidas, todas descascadas no meio da rua, sobretudo às estrangeiras, parece que se estão a pôr a jeito e a provocar. E isto digo eu que sou casado, mas por vezes quase tenho de morder a mão para eu próprio não fazer uma desgraça, que isto parece que anda tudo nu na rua, sobretudo elas. Agora abusar de uma senhora de idade?! É preciso ser muito javardo. É o que lhe digo, é preciso ser muito javardo.

– E assim, lá foi molhar o pé na sopa...

– E assim, lá fui, é bem verdade. Ó minha senho... ó senhora inspetora, eu nunca fui violento, é certo que a minha mulher às vezes critica-me por chegar a mão ao pelo do nosso filho, mas é para o bem dele, e até me dói mais a mim do que a ele...

Judite coibiu-se de perguntar como poderia esse milagre acontecer, o de, ao bater no miúdo, doer mais ao homenzinho do que ao miúdo, sobretudo se era com um cinto que o homenzinho batia (palavras suas) e nem sequer com a mão.

O importante, naquele momento, era conseguir obter um relato que, no fim, fizesse algum sentido. Mesmo que para isso tivesse de ficar a ouvir o homenzinho andar às voltas e voltas e voltas. Era a regra básica de qualquer interrogatório. Deixar as testemunhas seguirem o seu percurso, contarem à sua maneira.

Mesmo se esse percurso fosse mais sinuoso do que o rio Mekong num filme sobre o Vietname.

– Ó senhora inspetora, há muito mal no mundo. Há muito mal no mundo e nem todo o mal pode ser castigado, pois nem a justiça humana, ou sequer a divina, chega para tanto, sobretudo agora que o país está cheio desses imigrantes que, a pretexto de virem trabalhar e, como dizem os políticos, “salvar a Segurança Social”, só vêm cá para armar sarilhos e aumentar a bandidagem e tornar o país ainda mais inseguro do que já era. Isto quando não é para fazerem terrorismo! E eu tenho noção disso, não é possível fazer sempre justiça e há muito criminoso que passa incólume, muito bandido que vai à sua vida sem nunca ser chateado. Mas um violador? Ainda para mais, um violador de senhoras de idade? Ó senhora inspetora, se alguém estava a pedi-las era este energúmeno. Vá por mim. A senhora não estava lá, mas vá por mim. O burgesso estava a pedi-las.

Livro: "Olga salva o mundo"

Autor: Rui Zink

Editora: Porto Editora

Data de lançamento: 19 de fevereiro de 2026

Preço: € 17,75

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– E, então, fizeram justiça pelas próprias mãos.

– Não era essa a intenção, mas...

– Ou pelos próprios pés, porque ele foi morto ao pontapé.

– Ó senhora inspetora, a culpa foi dele, caiu.

– Podiam simplesmente tê-lo agarrado e entregado à polícia. O homenzinho fez um ar indignado.

– Ó senhora inspetora, justiça é justiça. Não fizemos nada ao biltrezinho que a polícia não lhe fosse fazer depois.

– Em Portugal, não há pena de morte.

O homenzinho baixou a cabeça, apenas para logo a levantar, fitando Judite, desafiador.

– Ó minha rica senhora, e não acha que é pena que assim seja? Só lhe digo, se ainda tivéssemos pena de morte, talvez energúmenos como este pensassem duas vezes. Veja a América, onde os meliantes não fazem farinha.

Judite suspirou. Não cabia a ela explicar o que, se o homenzinho não entendia, não valeria a pena tentar sequer explicar porque ele não entenderia. Aliás, era esse o busílis. E o berbicacho. Andava tudo tão algoritmado dos cornos, tão com a cabeça tão enfiada na sua redoma de latão, que já ninguém conseguia convencer ninguém.

(Errata: já ninguém conseguia convencer ninguém... através de palavras. Com bonecos e emojis era outra conversa.)

Se calhar, havia sido sempre assim. Víamos o que queríamos ver, não o que víamos, por (talvez defeito de fabrico) nos faltarem os instrumentos para ver. Ao menos os cegos sabiam que não viam. Agora, cegos julgando que viam? Haveria algo mais patético?

Se houvesse, Judite Furriel gostava de saber o quê.

– E digo-lhe mais, senhora inspetora, eu nunca desejei mal a ninguém, mas há crimes que deixam uma pessoa fora de si, crimes que nos tiram do sério, que dão connosco em doidos, que nos fazem perder as estribeiras, que até ao mais pacífico dão ganas de perder a cabeça. Um violador?! A senhora quer que eu tenha compaixão por um violador, minha senhora?! Perdão, senhora inspetora. Deus sabe que sou um homem crente, que acredito na bondade divina, que sei que o nosso destino está inscrito no Livro Divino desde o momento em que nascemos até ao dia em que morremos, e acredito que há muita violência no mundo e que não devemos desejar mal a ninguém. Mas...

– Acredita também na justiça de Talião, é isso? – disse Judite com excessiva simpatia, não fosse o homenzinho perceber o que ela na verdade achava daquela argumentação, por mais “néscia” e “ingénua” e “espontânea” e “cândida” que fosse.

Ou parecesse. Quanta manha se escondia dentro da aparente inocência, sob os panos confortáveis da famigerada ingenuidade.

– Eu acredito que alguma justiça tem de haver, senhora inspetora. Um violador não tem perdão, ainda para mais um bruto que viola uma senhora já de idade, senhora inspetora. Ainda se ela fosse mais nova...

– Compreendia-se?

– Ó senhora inspetora, não ponha palavras na minha boca. Mas seria... mais humano. Mais aceitável. Um homem não é de pau. Seria uma maldade à mesma, nisso estamos de acordo. Mas uma maldade que uma qualquer pessoa normal poderia compreender. Sabe como é, às vezes um homem fica de cabeça à roda.

Pelo modo como o homenzinho defendia as “violações legítimas” (no caso de a vítima ser atraente ou de idade atraente), Judite Furriel quase ficou com vontade de o investigar um bocadinho mais. A ver se não estaria ele a fazer aquilo que as pessoas faziam quando olhavam para um dado comportamento e o tentavam legitimar. A preparar a sua própria defesa, a justificar-se antecipadamente.

Só que Judite não se interessava por isso. Não se podia dar ao luxo de interessar. Desde logo porque, para um inspetor, a dose diária de crimes recomendada pela Organização Mundial da Saúde era de um crime de cada vez, não dois. E também porque muitas explicações triviais haveria para a peculiar circunvalação mental do homenzinho, todas envolvendo algum grau de sujidade mental, quiçá mesmo a dar para o repugnante, mas não necessariamente a prática de um crime.

E, pelo menos por enquanto, a imaginação perversa e pue- ril ainda não era punível por lei, o mesmo acontecendo infeliz- mente com a estupidez.

– Ó minha senhora, perdão, senhora inspetora, eu não cometi nenhum crime, disso tenho a consciência perfeitamente tranquila.

– Perseguiu a vítima...

– Porque era um violador!!!
– Podia não se ter juntado à mat... ao grupo.

Judite Furriel corrigiu-se a tempo. “Matilha” implicaria uma censura velada, e isso era sempre má ideia durante um interrogatório. Além de ser ofensivo para os pobres lobos que, a anos-luz do comportamento humano, nada tinham que ver com o assunto. Muito pouco séria, esta nossa tendência para atribuir a incautos animais os nossos piores comportamentos, como se fosse por Maléfica Influência deles que fazíamos inanidades.

– A senhora inspetora fala como se o que estivéssemos a fazer não fosse da mais elementar justiça. Mas fique sabendo que era, era da mais elementar justiça.

– Perseguir um desgraçado?

– Ó minha rica senhora, perseguir um violador! Ou deveria ele ficar à solta?

Judite Furriel levou o polegar e o indicador às pálpebras. Esfregou os olhos. Estava mais cansada do que julgava. E pensar que não tinha ido para professora do secundário por achar demasiado frustrante aturar garotos.

Ora, muitos dos homens que lhe apareciam no gabinete tendiam a ser garotos. Ou piores do que garotos porque, não sendo tecnicamente garotos, se comportavam como garotos.

– O trabalho do senhor era aplicar justiça? – perguntou Judite, embora soubesse já a resposta. – Acaso aplicar justiça é a sua profissão? Se o é, já podia ter dito.

– Ó senhora inspetora, pois se a polícia não estava lá... íamos fazer o quê, pode saber-se? Deixar o desavergonhado fugir? Escapulir-se? Ir em paz à sua vidinha, como se não fosse nada, depois de cometer um crime tão hediondo?

Por momentos, Judite Furriel pensou ter ouvido “um crime tão hodierno”. O que muito a surpreendeu, porque hodierno era, nos dias de hoje, uma expressão quase erudita. Hodierno: dos dias de hoje. Mas não, fora apenas “hediondo” o que o homenzinho dissera.

(Embora, pensando bem, talvez também “hediondo” passasse agora por palavra cara. Sobretudo neste hodierno tempo em que a linguagem atingia níveis hediondos de desidratação, mais baixos do que os de uma barragem em pleno Sara Ocidental.)

– Ó senhora inspetora, por amor de Deus, não fiz mais do que o meu dever – lamuriou o homenzinho. E, afoito: – Quando um cidadão vê um crime, não será um crime deixar passar o crime?

Era uma boa pergunta, a pergunta do homenzinho. Quando um cidadão via um crime, acaso não seria um crime ainda maior deixar passar o crime?

– A senhora inspetora veja bem, nós não fizemos mal. Nós só fizemos o bem.

O mais irritante era que não estava inteiramente errado. Em circunstâncias extremas, o silêncio podia ser cúmplice. Se fosse uma mala abandonada no átrio de um aeroporto, explodindo e matando dezenas de inocentes, alguém que a tivesse visto antes, suspeitado dela antes, e mesmo assim nada tivesse feito, acaso não teria as mãos manchadas de sangue, bem como (se uma tivesse) a consciência? Esse turista indiferente podia e devia ter feito qualquer coisa.

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