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Naturalmente, a coisa não era fácil; os edifícios estavam em ruínas, as ervas daninhas tinham invadido os jardins, os edifícios agrícolas haviam sido despojados do que quer que tivesse préstimo, e só restavam paredes nuas, como se a cooperativa tivesse sido bombardeada. Mas para Irimiás não havia impossíveis! Precisava também de alguma sorte, claro está, porque sem ela as coisas não avançam! Mas a sorte vem quando há inteligência! E Irimiás era fino como uma lâmina! E Futaki lembrou‐se, com um sorriso, do dia em que ele foi nomeado chefe das oficinas de máquinas, com todos, mesmo os dirigentes, apertados à sua volta, porque, como dizia Petrina, Irimiás era «o homem das situações desesperadas e pastor de homens sem esperança». Mas perante a estupidez até ele se mostrou impotente e, ao fim de um ano, não foi de admirar que fizesse as malas.
Após a sua partida, começaram logo a atolar‐se, e cada vez mais. Primeiro veio a geada, seguiram‐se as frieiras nos lábios e nas mãos, o rebanho fora dizimado, e, então, começaram a receber os salários com uma semana de atraso, quando não havia já nada para comprar... e chegou um momento em que as pessoas disseram que era o fim, que a loja ia fechar. E assim foi. Aqueles que tinham para onde ir desapareceram; os outros permaneceram; e logo vieram as brigas, planos inviáveis voavam pelo ar, todos sabiam melhor do que os outros o que fazer, e, é claro, nada sucedeu. Por fim, estavam reduzidos àquela impotência, só já acreditavam em milagres, contavam nervosamente as horas, as semanas, os meses, e depois já nem sequer isso era importante, passavam o dia encolhidos na cozinha, e se aparecia algum dinheiro, iam logo gastá‐lo à taberna. Nos últimos tempos, também ele não saía da casa das máquinas, salvo para ir à taberna ou para visitar a senhora Schmidt, porque acreditava que nada iria mudar. Resignara‐se a ficar ali até ao fim dos seus dias, sem saber o que mais poderia fazer. Começar uma vida nova? Na sua idade? Oh, mas tudo isso era passado. Irimiás iria «pôr ordem nas coisas»... Impaciente, mexia‐se no lugar, porque por mais de uma vez lhe pareceu ouvir alguém a tentar abrir a porta, mas decidiu acalmar‐se («Paciência, um pouco mais de paciência...»), e até pediu um café. Futaki não era o único: uma certa excitação percorria visivelmente a sala, especialmente quando a senhora Kráner, olhando pela janela, declarou solenemente: «O dia ergue‐se no horizonte»; animaram‐se, o vinho voltou a correr, e a senhora Kráner, subitamente alegre, exclamou em voz alta: «Mas o que é isto?! Um funeral?!»
Ondulando os quadris enormes, atravessou a sala e estacou diante de Kerekes. «Eh, pare de dormir! Toque‐nos alguma coisa no acordeão!» O agricultor levantou a cabeça e arrotou. «Tem de pedir ao taberneiro, não a mim. O instrumento é dele.» «Eh, taberneiro!», gritou a senhora Kráner. «Tem aí o acordeão?» «Sim, tenho... trago...», murmurou, e desapareceu no armazém. «Desde que bebam bastante...» Tirou de trás das latas de conserva o instrumento decorado com teias de aranha, limpou‐o à pressa e entregou‐o a Kerekes. «Tenha cuidado! É a menina dos meus olhos...» Kerekes afastou o taberneiro, puxou as correias, tocou algumas notas, e inclinou‐se para esvaziar o copo. «Então esse vinho?!» A senhora Kráner dava voltas, de olhos fechados, no meio da taberna. «Vá, traga‐lhe uma garrafa!», disse ao taberneiro, batendo o pé impaciente. «Então, preguiçosos! Parem de dormir!» De mão na anca, desafiava os homens, que gargalhavam. «Vermes cobardes! Ninguém se atreve comigo?!» Halics, que não tolerava que lhe chamassem cobarde, levantou‐se e, sem fazer caso das palavras da mulher («Ficas aqui!»), correu para a senhora Kráner. «Um tango!», gritou ele, e empertigou‐se. Como Kerekes não reagisse, Halics agarrou a senhora Kráner pela cintura e «marcou o passo».
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