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"Diz a lenda que alguém olhou para esta paisagem e disse: 'Aqui o Campo é Maior'." É desta forma que José Sá Fernandes introduz o novo episódio (disponível na RTP Play) pela vila raiana, portuguesa desde 1297, na sequência do Tratado de Alcanizes assinado por D. Dinis. O episódio, recorda ainda que Campo Maior partilha essa origem histórica com Ouguela e Olivença.

No Monte da Fronteira da Muralha, o apresentador aponta para o povoado pré-histórico de Santa Vitória e lembra que naquele território "cruzam-se séculos", onde subsistem vestígios de ocupação romana, fortalezas muçulmanas, construções medievais e as grandes fortificações erguidas durante a Guerra da Restauração.

É precisamente sobre as muralhas que deixa uma das principais recomendações do programa: "Recomendo o passeio pelo percurso amuralhado, sete quilómetros. Comecemos no castelo." A partir da fortaleza, recorda que Campo Maior "sempre foi conhecida por leal e valorosa", distinção conquistada ao longo de uma história marcada pela resistência.

Entre os episódios mais dramáticos está a explosão do paiol, em 1732, que destruiu grande parte da vila e provocou centenas de mortos. Mais tarde, em 1811, a população enfrentou cerca de quatro mil soldados franceses durante as invasões napoleónicas. "É uma luta desigual, mas correu mundo", sublinha José Sá Fernandes, lembrando que a bravura dos campomaiorenses inspirou até o escritor escocês Walter Scott.

Mas Campo Maior não vive apenas das memórias da guerra. O programa destaca também o esforço coletivo de recuperação do centro histórico, resultado da colaboração entre a Direção Regional de Cultura, a Câmara Municipal, associações locais e Rui Nabeiro. O apresentador faz questão de salientar o processo de realojamento da comunidade cigana e recupera uma frase do comendador que considera exemplar: "O mundo só é bom se for para todos."

No Mosteiro da Imaculada Conceição, José Sá Fernandes recorda a vida de Santa Beatriz da Silva, fundadora da Ordem da Imaculada Conceição, cuja relíquia permanece na igreja. Já na Igreja Matriz chama a atenção para "uma imagem rara, a da Nossa Senhora da Expectação", representação pouco comum da Virgem grávida.

Ao lado, a Capela dos Ossos preserva a memória das vítimas da explosão do paiol. A inscrição gravada no espaço continua a interpelar quem entra: "Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos." Para o apresentador, estas são memórias de um concelho que "caiu e sempre se reergueu", ideia que associa ao percurso de Rui Nabeiro e à capacidade de superação da população.

A gastronomia surge como parte essencial da identidade local. O restaurante Primavera merece uma paragem obrigatória, mas é também pretexto para recordar uma passagem de O Almoço ao Domingo, de José Luís Peixoto, sobre a infância do fundador da Delta Cafés. José Sá Fernandes conta que a mãe tratava o filho por "o meu Rui", expressão que, com o tempo, deu lugar ao tratamento respeitoso de "Senhor Rui", pelo qual acabaria por ser conhecido em toda a vila.

A viagem continua até Ouguela, onde o apresentador revisita episódios da Guerra da Restauração e recupera duas histórias populares: o duelo entre os alcaides Silva e Galindo, que terminou com a morte de ambos, e a lenda do Tamborzinho, o rapaz que atravessou as linhas inimigas para pedir reforços e ajudar a salvar a praça-forte.

O percurso regressa depois a Campo Maior para destacar algumas das suas figuras maiores. Entre elas estão João Braz, Mário Ruivo, Sérgio Niza e o escritor Hugo Santos, nomes que ajudam a contar uma história que vai muito além da condição fronteiriça da vila.

As Festas do Povo ocupam um dos momentos centrais do episódio. José Sá Fernandes explica o funcionamento desta tradição, distinguida pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade, e revela um dos seus segredos: "Até ao dia há sigilo. Cada rua tem o seu cabeça. E na noite da enramação das flores começa o encanto." Uma celebração inteiramente organizada pelos habitantes e que transforma Campo Maior num enorme jardim de papel.

Já na paisagem envolvente, o apresentador percorre os campos da raia, antigos territórios de contrabando e refúgio. A partir de um excerto de Memórias do Rui Nabeiro, de José Luís Peixoto, recorda uma infância marcada pela proximidade da fronteira: "Não tememos o escuro, tememos os carabineiros. Não por eles (...), mas por ficarem com o café."

A homenagem ao fundador da Delta Cafés atravessa praticamente todo o episódio. Na Adega Mayor, projetada por Álvaro Siza Vieira, José Sá Fernandes brinda com um vinho Reserva Comendador e recorda outra das frases de Rui Nabeiro: "Quem ama a vida tem tudo."

O programa termina no Museu do Café, onde se conta a história da Delta Cafés e do seu fundador. A despedida faz-se na "Taberna do Ministro", que tem esse nome depois de um pedido de última hora de Mario Soares ao comendador Rui Nabeiro para um almoço com o primeiro-ministro espanhol Felipe González. No final, José Sá Fernandes recupera aquela que considera ser a frase que melhor resume o espírito dos campomaiorenses e do próprio Rui Nabeiro: "Fiz sempre questão de andar com os pés na terra e o coração nas pessoas."

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