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LIÇÃO N.º 1
Sumário:
O Incidente: sobre os fins e os princípios.
Tudo o que costumava pedir era um pouco de silêncio. Chegava a gritar para que lho dessem. Havia dias assim, virados do avesso:
a sua voz era mais uma na massa sonora que percutia nas paredes da sala, nos vidros das janelas, no estrado de madeira gasta. Quase implorava. Senão, exigia, de peito inchado, queixo erguido. Batia com os punhos na mesa, com o livro, com o termo do chá. Às vezes fazia o contrário, num improviso de psicologia invertida: calava-se ostensivamente, mirando no tecto o olho perdido do Camões.
Cruzava os braços, encostava-se ao quadro o tempo que fosse preciso até o ruído amainar. Uma vez saiu da sala, simplesmente. Foi-se embora. A meio do corredor, deu de caras com a auxiliar e sentiu-se constrangido a regressar, a lidar com a situação como um profissional. O resultado foi medíocre, mas contou como estratégia, mais uma no rol de repentes que ia ensaiando para domar as feras antes de se deixar devorar por elas.
Só que naquele dia foi diferente. O mesmo barulho, mas diferente. Sentou-se na cadeira junto ao quadro: feito inédito. Talvez por ser a última aula, poucos notaram. É consabido que a última aula do ano não serve para nada, já que por acordo tácito não se dá matéria.
Há até quem deixe trazer comida e fazer uma festa com música.
Mas não, não foi só isso. Sentou-se e não pediu silêncio, isso é que foi de estranhar. O barulho crescia como uma massa de água a ferver em cascatas e zunia-lhe nos ouvidos sem que ele desse acordo de si. Parecia não ouvir. Talvez tivesse ficado surdo, submerso num certo submundo ouvindo a vozearia e os risos como que por refracção, chegando em ondas abafadas até aos fundos da inércia autística em que parecia emparedado. O olhar cavo, alheio e meio esgazeado em que quase ninguém reparou parecia anunciar qualquer coisa de sinistro. Talvez trágico.
— Stor?
Uma voz. A voz é como uma impressão digital. Pode haver duas parecidas, mas nunca iguais. Mesmo naquelas, pré-púberes, de timbre rachado, indeciso entre dois tons, o da infância que não acaba e o da maturidade que não chega. Passado e futuro sufocados no diafragma, enleados nas cordas vocais, entrançados um no outro, com um pouco de expectoração.
— Stor, está tudo bem?
O eco afunda-se no corredor dos sentidos, afunilando para dentro, direito a um centro de si ofuscado e reteso. Chamam-no. Levanta por um momento o olhar vago, mas o que vê é o som caótico de gargalhadas estrídulas, como vidro a partir, o ruído das cores e dos gestos. Riem muito. Riem de quê estes diabos?, talvez pergunte. De si, sem dúvida, que ainda não disse palavra, apesar do seu corpo presente, latejante, suado, sentado à mesa, em cima do estrado velho de madeira que o empola dois palmos acima do barulho. A cabeça arde-lhe como arde um incêndio numa tarde de canícula, nos cimos da onda de calor que liquefazem o verde dos plátanos ao longe. Tudo ondula em torno do espaço. Os raios do sol trespassam as vidraças e vêm despenhar-se de chofre na sua mesa, onde pousa as mãos inertes. No rebordo da mesa dá com um entalhe hieroglífico. Nunca tinha reparado nele. Ou já? Uma coisa existe antes que reparemos nela?
Existe agora, gravado a x-acto e corrector, como uma tatuagem branca, aquele símbolo aleatório, ilegível, amálgama de iniciais, corações, falos ou suásticas, que só com os dedos se percebe. O significado transcende as leis da sintaxe e da hermenêutica, como numa língua dolorosa escrita só para cegos e profetas. Passa os dedos no relevo e desencrosta um pouco de corrector, descobrindo, às escuras, como num palimpsesto, a forma primitiva de um olho.
— Está bem, stor?
Talvez nem tudo tenha sido mau. Depois do suor e do sangue, as bocas que riem, que gritam, que mastigam e que insultam hão-de aprender o dom do silêncio, que é onde realmente medra o conhecimento do mundo. Demolir para começar de novo. Isto não é um pensamento mau. É uma obra. E vem-lhe à lembrança a ideia pertinaz, e tantas vezes repisada, como um refrão: deixar um legado, uma marca no mundo, construir uma posteridade. A minha obra. E então quase se sacode do torpor, assume o controlo das mãos, frias e húmidas, enxuga com elas o suor da testa e corre o fecho da mochila de pele coçada, que parece fitá-lo de boca aberta, sentada no seu colo, como um bicho das funduras marinhas pré-cambrianas, perguntando-lhe
— Stor?
e ele sorri para ela sem saber porque sorri, sem saber sequer que sorri, sem saber que tudo está bem, porque tudo está tal como devia estar, e que se chegou até aqui foi pelos seus próprios passos. Abre a mala, sente-lhe o bafo quente a mofo e sandes molhada. Penetra na fenda o punho, o antebraço, o ombro e quase a cabeça, o corpo todo, imaginando-se a mergulhar nas entranhas de um leviatão para ressurgir purificado, passado o dilúvio, regurgitado como uma excrescência ambarina que viesse dar à costa de um mundo novo. Um mundo diferente, inaudito, indizível. O avesso deste. Um desmundo.
É então que emerge do fundo da mala, do outro lado da vida
— Stor!
e o punho armado de um revólver vem estoirar bem no céu da boca.
LIÇÃO N.º 2
Sumário:
Arquitectura de uma ruína, ou vista panorâmica sobre um jardim de cactos.
Talvez tenha já avançado algumas ideias escusadas, por desmazelo ou ingenuidade, armadilhas retóricas que deixam transparecer uma ilusão de lógica no encadeamento da acção. Desculpem. É puro estilo, bom ou mau. Um homem morreu (matou-se), e isso não é mais do que uma peripécia no romance da sua vida. Pouco importa se é ponto de partida ou de chegada. Li algures, parece-me que foi num livro ordinário do Houellebecq (passe a redundância), que o ponto de partida de uma história é absolutamente arbitrário. Não cito: evoco.
E subscrevo, já agora. Tão arbitrário como tudo o resto, da matéria mítica que gera o herói à expressão linguística, passando por todas as categorias da narrativa que os meus alunos de sétimo ano recitam de cor: espaço, tempo, personagens, narrador, acção. Os românticos é que carregaram tudo isso de símbolos poéticos. Patéticos. Não digo que não haja um percurso a construir, reconstruir, desconstruir ou demolir, mas temos tempo. Para já, digamos somente que o professor morreu (matou-se) no último dia de aulas, e que isso teve causas e consequências indeslindáveis umas das outras, tão incoerentes, fortuitas, complexas e banais que não apetece tentar compreendê-las. Para quê?
Por exemplo:
Consta que o professor era jovem, embora os alunos não o soubessem. Havia já uma década que era um «jovem professor». Entre os colegas, diferentes de ano para ano, encarquilhados veteranos, era até há pouco tempo o depositário imediato de uma certa esperança no futuro da pedagogia. Isto foi-lhe dito por um colega de história, sindicalizado e à beira da reforma, procurando mobilizá-lo para a luta pela dignidade da profissão. Os outros, sabendo-o ainda a contratos, votavam-lhe a mais cordial indiferença. Quanto a ele, professor credenciado, sabia o bom calceteiro que era, numa já longa carreira a tapar os buracos do sistema de vaga em vaga, vendo esmaecer de um ano para o seguinte os ideais que lhe pintaram os mais ilustres pedagogos da história, de Platão a Piaget, os mesmos que o fizeram durante um breve compasso da sua história íntima acreditar no ensino como projecto de vida.
Solteiro, filho mais novo, ateu baptizado antes de ter voto na matéria, activista contra o novo acordo ortográfico e resignado à condição de seminómada, era conservador no método, rigoroso na avaliação, severo na disciplina; mas também essa rectidão tendia a flectir com o decorrer das estações. Lançadas anualmente as sortes a concurso, um programa informático sediado no intestino grosso do Ministério da Educação ditava a sua fortuna e a de milhares de colegas. Nos últimos dez anos, vivera em oito casas diferentes, apartamentos T0, anexos em moradias periféricas, quartos arrendados em residências familiares, enfim, as pousadas de convenção para trabalhadores recém-formados, essa fornada de carne fresca acabada de ingressar na idade adulta e afortunada por participar numa vida activa e tributável, ciosa das suas garantias em matéria de segurança social. Assim o nosso professor. Palmilhando o avesso mais recôndito do território em dias de labuta e noites de insónia, foi sepultando por esse país adentro, ano após ano, as suas fantasias de educador do povo e formador de uma nova geração de guardiães da República.
Ganhou calo. Pouco a pouco, fez-se profissional da ideia feita, mestre na arte de encadear chavões de manual, de maneira a cumprir escrupulosamente o programa curricular, ensinando as mentiras que todos os jovens devem conhecer para sentirem que pertencem ao mesmo mundo que os pais e os pares.
Sem família na via descendente, não foi sem um certo espírito de aventura que acatou os atravancos de uma carreira de docente.
Entrevia neles a promessa de um percurso de descobertas e experiências que, uma vez sedimentadas, lhe dariam a estabilidade propalada pelas brochuras de propaganda universitária sobre empregabilidade e emancipação financeira. Alguns sacrifícios ser-lhe-iam exigidos, isso era expectável: não só a mala, que mal chegava a desfazer, e as deslocações de fim-de-semana à casa materna, tanto mais esporádicas quanto maior a distância ao novo posto, mas também os sobressaltos costumeiros de quem se vê quase de repente sozinho a cargo de uma multidão de adolescentes irrequietos e ensimesmados, implacáveis na demolição de qualquer figura de autoridade que se lhes apresente. «Ossos do ofício», diziam-lhe os colegas mais experimentados, efectivos decanos, com uma piscadela de olho condescendente. E ele repetia, quando solicitado a exprimir estados de alma sobre o assunto, «são ossos do ofício», encolhendo os ombros como quem diz tudo sem dizer coisa nenhuma.
Recatado por natureza, frugal no estilo de vida e solitário, era desde sempre dado à introspecção, o que lhe vincava por vezes na fronte uma ruga de taciturnidade artístico-filosófica, indistinta das carrancas de azia ocasionadas por uma úlcera na boca do estômago. Um leitor minucioso, mais do que voraz, atento a detalhes, cauto com armadilhas, crítico nas margens, frequentava assiduamente livrarias e bibliotecas, onde gozava, acima de tudo, do silêncio imposto pelo pó das estantes. O resto do tempo útil passava-o na escola, qualquer que ela fosse, onde se encharcava de café a cinquenta cêntimos enquanto cumpria o horário corrigindo trabalhos de casa.
Às vezes aproveitava para ir à cafetaria comer um croissant prensado e beber um café de qualidade razoavelmente superior. Nunca lhe punha açúcar, mas guardava sempre os pacotes para quando fosse ao Norte encher o açucareiro da mãe, que lhe fazia um bolo de nozes. Era (creio) o seu preferido.
Na solidão do lar, dedicava-se à música. Melómano inveterado, coleccionava ainda CD quando o revivalismo do vinil os tornou obsoletos. Enquanto músico amador, mal provido de bases teóricas, limitava-se a percorrer de improviso o braço da guitarra, por facilitismo, em escalas de blues e hard rock dos anos 80. Cantava, também, com afinação razoável. Chegou a actuar, por brincadeira e em inusitada condição de embriaguez, com uma interpretação irónica de «My Heart Will Go On» no casamento da irmã, façanha de que viria a arrepender-se, horrorizado de vergonha, ao aterrar de cabeça no chão da sobriedade para descobrir que a performance estava disponível no YouTube, cortesia do cunhado, que o desprezava manifestamente. Foi isto há anos, e a lista de escolas por onde passara permitia-lhe, já por essa altura, temer por qualquer coisa a que chamava, à falta de melhor, a sua «reputação». Esperava, relativizando o episódio de ano para ano, de uma escola para a seguinte, que o desaire nunca chegasse ao conhecimento de colegas, directores, pais e, sobretudo, alunos. Enquanto isso, calcorreava a província acumulando milhas terrestres e esquecendo-se um pouco mais do assunto a cada novo começo.
Enfim, no último ano, algo revigorado por um lapso sabático, veio parar a Portalegre, terra onde nunca havia pousado e sobre a qual não conhecia uma única trivialidade. Isto não aumentou nem diminuiu o entusiasmo com que aceitou a vaga, que era próximo de nenhum: condescendeu, posto que sempre lhe pagassem, sem a curiosidade de outros tempos, que o teria feito pesquisar no Google em que arrabalde de Badajoz se situava Portalegre, se era Beira Baixa ou no Alto Alentejo, se não seria antes para os lados de Portel, e que relação teria, se alguma, com a longínqua vila de Montalegre e a exorbitante metrópole de Porto Alegre.
Por cá ficou. Ali está ainda, na sala de aula, surdo perante os gritos: um buraco no topo do crânio onde coagula um fragmento de massa encefálica.
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