INTRODUÇÃO
As Crónicas de Gelo e Fogo iniciaram a vida como uma trilogia e desde então expandiram‐se para sete livros.
O ambiente dos livros é o grande continente de Westeros, num mundo que é ao mesmo tempo semelhante ao nosso e diferente dele, no qual as estações duram anos e por vezes décadas. Encostado ao Mar do Poente, no limite ocidental do mundo conhecido, Westeros estende‐se desde as areias vermelhas de Dorne, a sul, até às montanhas geladas e campos gélidos do Norte, onde a neve cai mesmo durante os longos verões.
Os filhos da floresta foram os primeiros habitantes conhecidos de Westeros, durante a Aurora dos Dias: uma raça de baixa estatura que fazia as suas casas na floresta e esculpia estranhas caras nos represeiros brancos como ossos. Depois chegaram os Primeiros Homens, que atravessaram uma ponte terrestre vindos do continente mais vasto do Leste com as suas espadas de bronze e os seus cavalos, e guerrearam os filhos durante séculos até finalmente fazerem a paz com a raça mais antiga e adotarem os seus deuses ancestrais e anónimos. O Pacto assinalou o início da Era dos Heróis, quando os Primeiros Homens e os filhos da floresta partilharam Westeros e uma centena de pequenos reinos surgiu e caiu.
Com o tempo chegaram outros invasores. Os ândalos atravessaram o Mar Estreito em navios e com ferro e fogo varreram os reinos dos Primeiros Homens e expulsaram os filhos das suas florestas, abatendo muitos dos represeiros à machadada. Trouxeram a sua própria fé, venerando um deus com sete aspetos, cujo símbolo era uma estrela de sete pontas. Só no Norte distante conseguiram os Primeiros Homens repelir os recém‐chegados, liderados pelos Stark de Winterfell. Nas outras regiões, os ândalos triunfaram e criaram reinos seus. Os filhos da floresta reduziram‐se em número e desapareceram, enquanto os Primeiros Homens se cruzavam com os seus conquistadores.
Os roinares chegaram alguns milhares de anos depois dos ândalos, não como invasores mas como refugiados, atravessando os mares em dez mil navios para escapar ao crescente poderio da Cidade Livre de Valíria. Os senhores de Valíria governavam a maior parte do mundo conhecido; eram feiticeiros, grandes em conhecimentos, e só eles entre todas as raças dos homens tinham aprendido a criar dragões e a vergá‐los à sua vontade. Quatrocentos anos antes do início de As Crónicas de Gelo e Fogo, contudo, a Perdição caiu sobre Valíria, destruindo a cidade numa única noite. Depois disso, o grande império valiriano desintegrou‐se em discórdia, barbarismo e guerra.
Westeros, do outro lado do Mar Estreito, foi poupado ao pior do caos que se seguiu. Por essa altura só restavam sete reinos onde em tempos houvera centenas — mas não resistiriam muito mais tempo. Um jovem nobre da perdida Valíria chamado Aegon Targaryen aterrou na foz do Água Negra com um pequeno exército, as duas irmãs (que eram também suas esposas), e três grandes dragões. Montando os dragões, Aegon e as irmãs venceram batalha atrás de batalha e dominaram seis dos sete reinos de Westeros através de fogo, espada e tratado. O conquistador reuniu as espadas fundidas e retorcidas dos inimigos caídos e usou‐as para fazer uma monstruosa, gigantesca, cadeira farpada: o Trono de Ferro, de onde governou daí em diante como Aegon, o Primeiro do Seu Nome, Rei dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, e Senhor dos Sete Reinos.
A dinastia fundada por Aegon e as irmãs perdurou ao longo de quase trezentos anos. Outro rei Targaryen, Daeron Segundo, trouxe mais tarde Dorne para os seus domínios, unindo todo o Westeros sob um único governante. Fê‐lo através do casamento, não pela conquista, pois o último dos dragões morrera meio século antes. O Cavaleiro de Westeros tem lugar nos últimos dias do reinado do Bom Rei Daeron, cerca de cem anos antes do início do primeiro dos romances d’As Crónicas de Gelo e Fogo, com o reino em paz e a dinastia Targaryen no seu apogeu. A Espada Ajuramentada, a história que se lhe segue, regressa às suas personagens cerca de um ano mais tarde e O Cavaleiro Mistério desenrola‐se logo em seguida.
Introdução
O Cavaleiro de Westeros
“O Cavaleiro de Westeros” é uma prequela para a minha série de fantasia épica, As Crónicas de Gelo e Fogo, ambientada nos Sete Reinos de Westeros cerca de noventa anos antes de A Guerra dos Tronos. Uma vez que o épico propriamente dito está longe de terminado, nunca me teria ocorrido escrever uma prequela se Robert Silverberg não me tivesse telefonado para me convidar para contribuir para Legends, a sua gigantesca antologia de nova fantasia. Já antes tinham sido organizadas enormes antologias de fantasia, claro, mas Silverberg juntara uma lista estelar de contribuidores para Legends que incluía Stephen King, Terry Pratchett, Ursula K. Le Guin e a maior parte dos outros principais fantasistas do mundo. Era evidente que este livro ia ser coisa séria, e eu percebi que tinha de estar presente. Não queria revelar nada sobre o fim das Crónicas de Gelo e Fogo nem sobre o destino das suas personagens principais, portanto uma prequela parecia ser o caminho certo. (E aconteceu que vários dos outros autores presentes em Legends seguiram o mesmo caminho.)
“O Cavaleiro de Westeros” é alta fantasia, nada pode ser mais evidente. Ou será que pode? A fantasia não precisa, bem... de magia? Eu tenho dragões n’“O Cavaleiro de Westeros”, certíssimo... em cimeiras de elmos e bandeiras. A que acresce outro recheado de serradura, a dançar na ponta de cordéis. Oh, e Dunk lembra‐se de ouvir o velho Sor Arlan falar de ter visto uma vez um dragão verdadeiro e vivo; talvez isso seja suficiente. Se não, bem... podem dizer que “O Cavaleiro de Westeros” é mais aventura histórica do que verdadeira fantasia, exceto pelo facto de toda a história ser imaginária. Então isso faz dela o quê? Não me perguntem, eu só a escrevi.
O CAVALEIRO DE WESTEROS
Uma História Dos Sete Reinos
A s chuvas da primavera tinham amolecido o terreno, e Dunk não teve problemas em cavar a sepultura. Escolheu um local na vertente ocidental duma pequena colina, pois o velho sempre gostara de observar o pôr do sol. — Mais um dia terminado — suspirava — e quem sabe o que o amanhã nos trará, hã, Dunk?
Bem, uma manhã trouxera chuvas e ensopara‐os até aos ossos, a manhã seguinte trouxera ventos tempestuosos, e a seguinte um resfriado. Pelo quarto dia, o velho estava demasiado fraco para cavalgar. E agora fora‐se. Só uns dias antes, estivera a cantar enquanto cavalgava uma velha canção sobre ir a Vila Gaivota ao encontro duma bela donzela, mas em vez de Vila Gaivota cantara sobre Vaufreixo. A caminho de Vaufreixo ao encontro da donzela, olaré, olaré, pensou Dunk, infeliz, enquanto cavava.
Quando o buraco ficou suficientemente profundo, ergueu o corpo do velho nos braços e levou‐o para lá. O homem fora pequeno e magro; despido de lorigão, elmo e cinturão da espada, parecia não pesar mais do que um saco de folhas. Dunk tinha uma altura enorme para a idade; era um rapaz desajeitado, desgrenhado e de grandes ossos, com dezasseis ou dezassete anos (ninguém tinha muita certeza da idade certa) que se aproximava mais dos dois metros do que da altura normal dos homens, e só começara a encher de músculos a ossatura. O velho elogiara‐lhe frequentemente a força. Sempre fora generoso com os elogios. Tinham sido tudo o que tivera para dar.
Pousou‐o no fundo da sepultura e ficou algum tempo parado por cima dele. O cheiro da chuva estava de novo no ar, e sabia que devia encher o buraco antes de começar a chover, mas era difícil atirar terra para cima daquela velha cara fatigada. Devia haver aqui um septão, para dizer algumas preces por ele, mas só me tem a mim. O velho ensinara a Dunk tudo o que sabia sobre espadas, escudos e lanças, mas nunca fora grande coisa a ensinar‐lhe palavras.
— Deixar‐vos‐ia a espada, mas ela ia enferrujar na terra — disse por fim, como quem pede desculpa. — Os deuses dar‐vos‐ão uma nova, suponho. Gostava que não tivésseis morrido, sor. — Fez uma pausa, sem ter a certeza do que seria preciso dizer mais. Não conhecia nenhuma ora‐ ção, pelo menos até ao fim; o velho nunca fora grande adepto de rezas. — Fostes um verdadeiro cavaleiro, e nunca me batestes quando eu não merecia — conseguiu enfim dizer — exceto daquela vez em Lagoa da Donzela. Eu disse‐vos que foi o moço da estalagem quem comeu a tarte da viúva, e não eu. Agora não importa. Que os deuses vos protejam, sor. — Pontapeou terra para dentro do buraco, depois começou a enchê‐lo metodicamente, sem nunca olhar para a coisa que estava no fundo. Ele teve uma vida longa, pensou. Devia estar mais perto dos sessenta do que dos cinquenta anos, e quantos homens podem dizer isso? Pelo menos vivera para ver outra primavera.
O Sol estava a descer para oeste quando deu de comer aos cava‐ los. Eram três; o seu castrado de dorso arqueado, o palafrém do velho, e Trovão, o seu cavalo de guerra, que só era montado em torneios e batalhas. O grande garanhão castanho não era tão rápido ou forte como fora em tempos, mas ainda tinha o olho brilhante e temperamento intenso, e era mais valioso do que qualquer outra das posses de Dunk. Se vendesse o Trovão e o velho Castanha e também as selas e os freios, arranjava prata suficiente para... Dunk franziu o sobrolho. A única vida que conhecia era a de um cavaleiro andante, a de viajar de fortaleza em fortaleza, pondo‐se ao serviço deste ou daquele senhor, combatendo nas suas batalhas e comendo nos seus salões até a guerra terminar, seguindo depois caminho. De vez em quando havia também torneios, embora com menos frequência, e sabia que alguns cavaleiros andantes se tornavam ladrões durante os invernos magros, embora o velho nunca o tivesse feito.
Podia encontrar outro cavaleiro andante com falta dum escudeiro que lhe tratasse dos animais e lhe limpasse a cota de malha, pensou, ou talvez pudesse ir para alguma cidade, Lanisporto ou Porto Real, e alistar-me na Patrulha da Cidade. Ou então...
Empilhara as coisas do velho sob um carvalho. A bolsa de pano continha três veados de prata, dezanove dinheiros de cobre e uma grana‐ da lascada; tal como acontecia com a maioria dos cavaleiros andantes, a maior parte das suas riquezas materiais tinha sido investida nos cavalos e nas armas. Dunk era agora dono de um lorigão de cota de malha a que limpara a ferrugem mil vezes; de um meio‐elmo de ferro com uma larga proteção nasal e uma amolgadela na têmpora esquerda; de um cinturão de espada de couro castanho e estalado, e de uma espada longa numa bainha de madeira e couro; de um punhal, de uma navalha, de uma pedra de amolar; de grevas e gorjal, duma lança de guerra de madeira torneada de freixo com dois metros e meio de comprimento e uma cruel ponta de ferro, e dum escudo de carvalho com rebordo de metal amolgado, ostentando o símbolo de Sor Arlan de Pataqueira: um cálice alado, de prata sobre castanho.
Dunk olhou para o escudo, pegou no cinturão da espada e voltou a fitar o escudo. O cinturão fora feito para as ancas magricelas do velho. Nunca lhe serviria, tal como o lorigão nunca lhe serviria. Prendeu a bainha a uma corda de cânhamo, atou‐a em volta da cintura, e puxou pela espada.
A lâmina era direita e pesada, bom aço forjado em castelo, o punho de couro mole enrolado em madeira, o botão uma pedra lisa, preta e polida. Simples como era, a espada ajustava‐se bem na sua mão, e Dunk sabia como era afiada por ter trabalhado nela com pedra de amolar e oleado muitas noites antes de irem dormir. Ajusta-se ao meu punho tão bem como se ajustava ao dele, pensou de si para si, e há um torneio no Campo de Vaufreixo.
***
Passo-Suave tinha um andamento mais fácil do que o velho Castanha, mas mesmo assim Dunk estava dorido e cansado quando vislumbrou a estalagem à sua frente, um edifício alto de madeira e argamassa erguido ao lado dum ribeiro. A morna luz amarela que jorrava das janelas pare‐ cia tão convidativa que não podia recusá‐la. Tenho três moedas de prata, disse a si próprio, o suficiente para uma boa refeição e tanta cerveja quanta quiser beber.
Enquanto desmontava, um rapaz nu saiu a pingar do ribeiro e começou a secar‐se num manto de ráfia castanha.
— És o moço de estrebaria? — perguntou‐lhe Dunk. O rapaz não parecia ter mais de oito ou nove anos, uma coisinha magra e macilenta, com os pés nus envoltos em lama até aos tornozelos. O cabelo era a coisa mais estranha nele. Não tinha nenhum. — Vou querer o palafrém escovado. E aveia para os três. Podes tratar deles?
O rapaz fitou‐o com descaramento.
— Podia. Se quisesse.
Dunk franziu o sobrolho.
— Não quero ouvir mais disso. Sou um cavaleiro, para que fiques sabendo.
— Não tendes ar de cavaleiro.
— Os cavaleiros têm todos o mesmo ar?
— Não, mas também não se parecem convosco. O vosso cinturão da espada é feito de corda.
— Desde que me segure a bainha, serve. E agora trata‐me dos cavalos. Recebes um cobre se tratares bem, e um carolo nas orelhas se não tratares. — Não esperou para ver como o moço de estrebaria acolhia aquilo; virou‐lhe costas e empurrou a porta com o ombro.
Àquela hora esperava encontrar a estalagem cheia de gente, mas a sala comum estava quase vazia. Um jovem fidalgo com um manto de bom damasco estava desacordado sobre uma mesa, ressonando suave‐ mente para dentro dum charco de vinho derramado. Fora ele, não havia ninguém. Dunk olhou em volta, inseguro, até que uma mulher robusta, baixa e pálida apareceu vinda das cozinhas e disse:
— Sentai‐vos onde quiserdes. É cerveja que quereis, ou comida?
— As duas coisas. — Dunk escolheu uma cadeira junto da janela, bem longe do homem adormecido.
— Há bom carneiro, assado em crosta de ervas, e uns patos que o meu filho abateu. O que querereis?
Havia um ano ou mais que ele não comia numa estalagem.
— As duas coisas.
A mulher riu‐se.
— Bem, tendes tamanho para isso. — Encheu uma caneca de cerveja e levou‐lha à mesa. — Também ireis querer um quarto para passar a noite?
— Não. — Nada havia que Dunk mais desejasse do que um colchão mole de palha e um teto sobre a cabeça, mas precisava de ter cuidado com o dinheiro. O chão serviria. — Alguma comida, alguma cerveja e ala para Vaufreixo. Ainda é muito longe?
— A um dia a cavalo. Virai para norte quando a estrada se bifurcar junto ao moinho queimado. É o meu moço que está a tratar dos vossos cavalos, ou ele voltou a fugir?
— Não, ele está lá — disse Dunk. — Parece não ter fregueses.
— Metade da vila foi ver o torneio. Os meus também tinham ido se eu deixasse. Vão ficar com esta estalagem quando eu me for, mas o rapaz prefere andar por aí a pavonear‐se entre os soldados e a rapariga derrete‐se em risinhos e suspiros de todas as vezes que um cavaleiro passa por cá. Juro que não sou capaz de perceber porquê. Os cavaleiros são feitos da mesma maneira que os outros homens, e nunca ouvi dizer que uma justa mudasse o preço dos ovos. — Deitou uma olhadela curiosa a Dunk; a espada e o escudo diziam‐lhe uma coisa, o cinto de corda e a túnica de tecido grosseiro outra bem diferente. — Ides também para o torneio?
Ele bebeu um gole de cerveja antes de responder. Era de um castanho de avelã, e espessa na língua, mesmo como ele gostava.
— Sim — disse. — Pretendo ser um campeão.
— Ah sim? — respondeu a estalajadeira, com razoável polidez.
Do outro lado da sala, o fidalgo levantou a cabeça da poça de vinho.
A sua cara tinha um tom amarelado e pouco saudável por baixo do ninho de ratos que era o seu cabelo castanho arenoso, e uma barba rala e loura cobria‐lhe o queixo. Esfregou a boca, fitou Dunk a piscar os olhos e disse:
— Sonhei contigo. — A sua mão tremeu quando apontou um dedo. — Fica longe de mim, estás a ouvir? Fica bem longe de mim.
Dunk fitou‐o, confuso.
— Senhor?
A estalajadeira debruçou‐se para ele.
— Não ligueis àquele, sor. Não faz nada a não ser beber e falar dos sonhos. Eu vou buscar a comida. — E foi‐se embora, apressada.
— Comida? — O fidalgo transformou a palavra numa obscenidade. Pôs‐se cambaleantemente em pé, apoiando uma mão na mesa para evitar cair. — Vou vomitar — anunciou. A parte da frente da sua túnica estava coberta de vermelho, com manchas velhas de vinho. — Queria uma rameira, mas aqui não se encontra nenhuma. Foram todas para o Campo de Vaufreixo. Pela bondade dos deuses, preciso de vinho. — Abandonou a sala comum num passo instável, e Dunk ouviu‐o a subir umas escadas,
cantarolando em surdina.
Uma triste criatura, pensou. Mas porque terá pensado que me conhecia? Refletiu naquilo por um momento em frente da cerveja.
Nunca comera carneiro tão bom como o que a mulher lhe levou, e o pato ainda estava melhor, cozinhado com cerejas e limão e nem de perto tão gorduroso como a maioria. A estalajadeira também serviu ervilhas em manteiga, e pão de aveia ainda quente do forno. Ser cavaleiro é isto, disse ele a si próprio enquanto arrancava ao osso o último bocado de carne. Boa comida e cerveja sempre que a quiser, e ninguém para me dar carolos na cabeça. Bebeu uma segunda caneca de cerveja com a refeição, uma terceira para a empurrar para baixo, e uma quarta porque não havia ninguém para lhe dizer que não podia, e quando terminou, pagou à mulher com um veado de prata e mesmo assim recebeu de volta uma mancheia de cobres.
Era noite cerrada quando Dunk saiu da estalagem. Tinha o estômago cheio e a bolsa um pouco mais leve, mas sentia‐se bem enquanto se dirigia aos estábulos. Em frente, ouviu um cavalo a relinchar.
— Calma, rapaz — disse uma voz juvenil. Dunk estugou o passo, franzindo o sobrolho.
Foi encontrar o moço de estrebaria montado no Trovão e a usar a armadura do velho. O lorigão era mais comprido do que ele e tivera de inclinar o elmo para trás senão ter‐lhe‐ia tapado os olhos. Parecia completamente concentrado, e completamente absurdo. Dunk parou à porta do estábulo e soltou uma gargalhada.
O rapaz ergueu os olhos, corou, e saltou para o chão.
— Senhor, eu não queria...
— Ladrão — disse Dunk, tentando parecer severo. — Despe essa armadura e dá‐te por contente por o Trovão não te ter dado um coice nessa cabeça parva. Ele é um cavalo de guerra, não um pónei de rapaz.
O rapaz tirou o elmo e atirou‐o para a palha.
— Podia montá‐lo tão bem como vós — disse, com toda a ousadia do mundo.
— Fecha a boca, não quero ouvir a tua insolência. O lorigão também, despe‐o. Julgavas que estavas a fazer o quê?
— Como é que posso dizer‐vos com a boca fechada? — O rapaz saiu de dentro da cota de malha e deixou‐a cair.
— Podes abrir a boca para responder — disse Dunk. — Agora pega nessa cota de malha, sacode‐a da porcaria e volta a pô‐la onde a encontraste. E o elmo também. Alimentaste os cavalos como te disse para fazer? E escovaste Passo-Suave?
— Sim — disse o rapaz, enquanto sacudia a palha da cota de malha. — Ides para Vaufreixo, não ides? Levai‐me convosco, sor.
A estalajadeira avisara‐o sobre aquilo. —E o que é que a tua mãe dizia se te levasse?
— A minha mãe? — O rapaz franziu a cara. — A minha mãe está morta, não dizia nada.
Dunk ficou surpreendido. A estalajadeira não era mãe dele? Talvez fosse só seu aprendiz. Tinha a cabeça um pouco embotada por causa da cerveja.
— És órfão? — perguntou, de modo incerto.
— Vós sois? — atirou o rapaz de volta.
— Fui em tempos — admitiu Dunk. Até que o velho me acolheu.
— Se me levásseis, podia ser vosso escudeiro.
— Não me faz falta um escudeiro — disse.
— Todos os cavaleiros precisam de um escudeiro — disse o rapaz. — Vós tendes ar de quem precisa mais de um do que a maioria.
Dunk ergueu uma mão ameaçadora.
— E tu tens ar de quem precisa dum carolo na orelha, quer‐me cá parecer. Enche‐me uma saca de aveia. Vou partir para Vaufreixo... sozinho. Se o rapaz estava assustado, escondia‐o bem. Por um momento ficou ali com ar de desafio, de braços cruzados, mas quando Dunk se preparava para desistir dele, virou‐se e foi buscar a aveia.
Dunk ficou aliviado. Uma pena que eu não possa... mas ele tem uma boa vida aqui na estalagem, uma vida melhor do que teria sendo escudeiro dum cavaleiro andante. Levá-lo não seria nenhuma bondade.
Mas ainda sentia o desapontamento do rapaz. Enquanto montava Passo-Suave e virava a cabeça de Trovão, Dunk decidiu que um dinheiro de cobre poderia animá‐lo.
— Toma, moço, pela tua ajuda. — Atirou‐lhe a moeda com um sorriso, mas o moço de estrebaria não fez qualquer tentativa para a apanhar. A moeda caiu na poeira entre os seus pés nus, e foi aí que a deixou ficar.
Há de apanhá-la assim que eu me vá embora, disse Dunk a si próprio. Virou o palafrém e afastou‐se da estalagem, levando os outros dois cavalos pela arreata. As árvores estavam brilhantes de luar, e o céu estava sem nuvens e salpicado de estrelas. Mas enquanto avançava pela estrada fora, sentia o moço de estrebaria a observar as suas costas, amuado e silencioso.
***
As sombras da tarde estavam a ficar longas quando Dunk puxou as rédeas ao cavalo na borda do grande Campo de Vaufreixo. Três vintenas de pavilhões já tinham sido erguidas no campo relvado. Alguns eram pequenos, outros grandes; alguns eram quadrados, outros redondos; alguns eram de tela, outros de linho, outros de seda; mas todos eram vivamente coloridos, com longos estandartes a esvoaçar nos mastros centrais, mais brilhantes do que um prado de flores silvestres, com vermelhos ricos, amarelos soalheiros, incontáveis tons de verde e azul, negros profundos, cinzentos e púrpuras.
O velho acompanhara alguns daqueles cavaleiros; a outros, Dunk conhecia de histórias contadas em salas comuns e em volta de fogueiras de acampamentos. Embora nunca tivesse aprendido a magia da leitura e da escrita, o velho fora implacável no que tocava a ensinar‐lhe heráldica, interrogando‐o frequentemente enquanto cavalgavam. Os rouxinóis pertenciam a Lorde Caron da Marca, tão talentoso com a harpa vertical como com uma lança. O veado coroado representava Sor Lyonel Baratheon, a Tempestade Ridente. Dunk localizou o caçador dos Tarly, o relâmpago púrpura da Casa Dondarrion, a maçã vermelha dos Fossoway. Ali rugia o leão de Lannister, em ouro sobre carmesim, e, além, a tartaruga marinha verde‐escura dos Estermont nadava num fundo verde‐claro. A tenda castanha por baixo do garanhão vermelho só podia pertencer a Sor Otho Bracken, a quem chamavam o Bruto de Bracken desde que matara o Lorde Quentyn Blackwood três anos antes durante um torneio em Porto Real. Dunk ouvira dizer que Sor Otho batera com tanta força com o machado embotado que metera para dentro a viseira do elmo do Lorde Blackwood e a cara que estava por trás. Viu também algumas bandeiras Blackwood, no limite ocidental do prado, tão distantes de Sor Otho como podiam estar. Marbrand, Mallister, Cargyll, Westerling, Swann, Mullendore, Hightower, Florent, Frey, Penrose, Stokeworth, Darry, Parren, Wylde; parecia que todas as casas senhoriais do Ocidente e do Sul tinham enviado a Vaufreixo um cavaleiro ou dois para ver a bela donzela e enfrentar as liças em sua honra.
Mas por mais esplêndidos que fossem os pavilhões deles aos seus olhos, Dunk sabia que não havia ali lugar para si. Um manto puído de lã seria todo o abrigo que teria naquela noite. Enquanto os senhores e grandes cavaleiros jantariam capões e leitões, o jantar de Dunk seria um bocado duro e fibroso de carne de vaca salgada. Sabia perfeitamente que se montasse acampamento naquele campo garrido, teria de aguentar tanto o escárnio silencioso como a troça aberta. Alguns talvez o tratassem com gentileza, mas de certa forma isso era quase pior.
Um cavaleiro andante tem de se agarrar bem ao orgulho. Sem ele, não passa de um mercenário. Tenho de conquistar o meu lugar naquela companhia. Se lutar bem, talvez algum senhor me aceite no seu pessoal. Então cavalgarei em nobre companhia, e comerei carne fresca todas as noites num salão de castelo, e erguerei o meu próprio pavilhão em torneios. Mas primeiro tenho de me sair bem. Com relutância, virou costas ao campo de torneios e levou os cavalos para as árvores.
Nos arredores do grande prado, a quase um quilómetro da vila e do castelo, encontrou um lugar onde uma curva num regato criara uma profunda lagoa. Um denso canavial crescia ao longo da margem, e um grande ulmeiro folhoso presidia sobre tudo. A erva primaveril era ali tão verde como a bandeira de qualquer cavaleiro e suave ao toque. Era um local bonito, e ainda ninguém o reclamara para si. Este será o meu pavilhão, disse Dunk a si próprio, um pavilhão alimentado com folhas, mais verde até do que as bandeiras dos Tyrell e dos Estermont. Os seus cavalos tinham prioridade. Depois de ter tratado deles, despiu‐se e entrou na lagoa para lavar a poeira da viagem. “Um verdadeiro cavaleiro é tão limpo como devoto,” dizia sempre o velho, insistindo em que se lavassem dos pés à cabeça de todas as vezes que a Lua virava, quer cheirassem mal, quer não. Agora que era um cavaleiro, Dunk jurou fazer o mesmo.
Sentou‐se nu sob o ulmeiro enquanto se secava, apreciando o calor do ar primaveril na pele enquanto observava uma libélula que se movia indolentemente entre os caniços. Uma mosca‐dragão, como lhe chamavam em algumas regiões. Porque haveriam de lhe dar esse nome?, perguntou a si próprio. Não se parece nada com um dragão. Não que Dunk tivesse alguma vez visto um dragão. Mas o velho tinha. Dunk ouvira a história meia centena de vezes, a história de como Sor Arlan fora apenas um rapazinho quando o avô o levara a Porto Real, e como tinham aí visto o último dragão no ano anterior ao da sua morte. Fora uma fêmea verde, pequena e atrofiada, com as asas mirradas. Nunca nenhum dos seus ovos chegara a eclodir. “Alguns dizem que o Rei Aegon a envenenou,” dizia o velho. “Esse há de ser o terceiro Aegon, não o pai do Rei Daeron, mas aquele a que chamaram Desgraça‐dos‐Dragões, ou Aegon, o Infortuna‐ do. Tinha medo de dragões, porque vira o animal do tio devorar a própria mãe. Os verões têm vindo a ser mais curtos desde que o último dragão morreu, e os invernos mais longos e rigorosos.”
O ar começou a arrefecer quando o Sol mergulhou abaixo das copas das árvores. Quando Dunk sentiu pele de galinha a arrepanhar‐lhe os braços, bateu com a túnica e as bragas contra o tronco do ulmeiro para sacudir a pior sujidade e voltou a vesti‐las. Na manhã seguinte iria à procura do mestre dos jogos e inscreveria o seu nome, mas tinha outros assuntos a tratar naquela noite se queria ter esperança de lutar.
Não precisava de estudar o seu reflexo na água para saber que não se parecia muito com um cavaleiro, por isso pôs o escudo de Sor Arlan às costas para exibir o símbolo. Prendendo os cavalos, Dunk deixou‐os a aparar a densa erva verde que crescia por baixo do ulmeiro e dirigiu‐se a pé para o terreno do torneio.
***
Em tempos normais, o prado servia de pastagem comunitária para o povo da vila de Vaufreixo do outro lado do rio, mas agora estava transformado. Uma segunda vila nascera do dia para a noite, uma vila de seda em vez de pedra, maior e mais bonita do que a irmã mais velha. Dúzias de mercadores tinham erigido as suas bancadas ao longo do limite do campo, vendendo feltros e frutas, cintos e botas, peles e falcões, louça de barro e cerâmica, pedras preciosas, utensílios de peltre, especiarias, penas e todos os tipos de outros bens. Malabaristas, bonecreiros e mágicos vagueavam pela multidão a exercitar as suas artes... e o mesmo faziam as rameiras e os carteiristas. Dunk manteve uma mão cautelosa a proteger as moedas.
Quando captou o cheiro a salsichas a chiar por cima duma fogueira fumarenta, ficou com a boca cheia de água. Comprou uma com um cobre tirado da bolsa, e um corno de cerveja para a empurrar para baixo. Enquanto comia, viu um cavaleiro de madeira pintada a batalhar com um dragão de madeira pintada. E a bonecreira que manejava o dragão também era agradável à vista; muito alta, com a pele cor de azeitona e o cabelo preto de Dorne. Era esguia como uma lança, sem seios dignos de menção; mas Dunk gostou do rosto e do modo como os seus dedos faziam o dragão morder e deslizar na ponta dos cordéis. Teria atirado um cobre à rapariga se se pudesse dar a esse luxo, mas naquele momento precisava de cada uma das suas moedas.
Havia armeiros entre os mercadores, como Dunk esperara que hou‐ vesse. Um tyroshi com uma barba azul bifurcada estava a vender elmos ornamentados, maravilhosas coisas fantásticas esculpidas em forma de aves e feras, com embutidos de ouro e prata.
Noutro local, encontrou um fabricante de espadas que apregoava lâminas baratas de aço, e outro cujo trabalho era de muito melhor qualidade, mas o que lhe fazia falta não era uma espada.
O homem de que precisava estava mesmo ao fundo da fileira, com um lorigão de boa cota de malha e um par de manoplas articuladas de aço em exibição na mesa à sua frente. Dunk inspecionou os artigos com atenção.
— Fazes bom trabalho — disse.
— Não há melhor. — Atarracado, o ferreiro não tinha mais de metro e meio de altura, mas era tão largo como Dunk no peito e nos braços. Tinha uma barba negra, umas mãos enormes e nenhum vestígio de humildade.
— Preciso de armadura para o torneio — disse‐lhe Dunk. — Boa cota de malha com gorjal, grevas e elmo completo. — A cabeça cabia‐lhe no meio‐elmo do velho, mas Dunk precisava de mais proteção para a cara do que a que uma simples proteção nasal podia fornecer.
O armeiro olhou‐o de cima a baixo.
— Sois um dos grandes, mas já armei maiores. — Saiu de trás da mesa. — Ajoelhai, quero medir esses ombros. Sim, e esse vosso grosso pescoço. — Dunk ajoelhou. O armeiro esticou‐lhe um bocado de couro cru cheio de nós ao longo dos ombros, soltou um grunhido, enrolou‐lho em volta da garganta, voltou a grunhir. — Levantai o braço. Não, o direito. — Grunhiu pela terceira vez. — Agora podeis levantar‐vos. — A parte de dentro duma perna, a largura da barriga da perna, e o tamanho da cintura causaram mais grunhidos. — Tenho umas peças na carroça que podem servir‐vos — disse o homem quando terminou. — Nada alindado com ouro ou prata, notai, só bom aço, forte e simples. Faço elmos que se parecem com elmos, não porcos alados ou frutas estrangeiras esquisitas, mas os meus hão de servir‐vos melhor se apanhardes com uma lança na cara.
— É isso mesmo que quero — disse Dunk. — Quanto é?
— Oitocentos veados, porque me estou a sentir bondoso.
— Oitocentos? — Era mais do que ele esperara. — Eu... podia trocar uma armadura velha, feita para um homem mais pequeno... um meio‐elmo, um lorigão de cota de malha.
— O Pate de Aço só vende o seu próprio trabalho — declarou o homem — mas pode ser que o metal me interesse. Se não estiver demasiado ferrugento, aceito‐o e armo‐vos por seiscentos veados.
Dunk podia implorar a Pate que lhe desse a armadura à confiança, mas sabia que tipo de resposta era provável que esse pedido obtivesse. Viajara com o velho durante tempo suficiente para ficar a saber que os mercadores eram notoriamente desconfiados com os cavalei‐ ros andantes, alguns dos quais pouco melhores eram do que assaltantes. — Dou‐vos agora duas pratas, e a armadura e o resto do dinheiro amanhã.
O armeiro estudou‐o por um momento.
— Duas moedas de prata compram‐vos um dia. Depois disso, vendo o meu trabalho ao próximo freguês.
Dunk tirou os veados do bolso e pô‐los na mão calosa do armeiro. — Recebereis tudo. Pretendo ser aqui um campeão.
— Ah sim? — Pate mordeu uma das moedas. — E os outros, suponho que vieram só para vos aplaudir?
***
A Lua ia bem alta quando virou os passos na direção do seu ulmeiro. Atrás dele, o Campo de Vaufreixo era um clarão de archotes. Os sons de canções e risos pairavam por cima da relva, mas o humor de Dunk estava sombrio. Só conseguia imaginar uma maneira de arranjar dinheiro para a armadura. E se fosse derrotado...
— Só preciso duma vitória — murmurou. — Não é esperança em demasia.
Mesmo assim, o velho nunca teria nutrido tal esperança. Sor Arlan não participara em qualquer justa desde o dia em que fora derrubado pelo Príncipe de Pedra do Dragão num torneio em Ponta Tempestade muitos anos antes. “Não são todos os homens que se podem gabar de ter partido sete lanças contra o melhor cavaleiro dos Sete Reinos,” dizia. “Nunca poderei esperar fazer melhor, por isso para quê tentar?”
Dunk suspeitava que a idade de Sor Arlan tinha mais a ver com isso do que o Príncipe de Pedra do Dragão, mas nunca se atrevera a dizê‐lo. O velho tinha o seu orgulho, mesmo no fim. Eu sou rápido e forte, ele sempre o disse, o que era verdade para ele não tem de ser verdade para mim, disse a si próprio, obstinado.
Estava a atravessar uma extensão de ervas altas, a revirar as suas hipóteses na cabeça, quando viu o tremeluzir do fogo através dos arbustos. Que é isto? Dunk não parou para pensar. De súbito, tinha a espada na mão e arremetia por entre as ervas.
Saltou do meio delas a rugir e a praguejar, apenas para se imobilizar de repente ao ver o rapaz ao lado da fogueira.
— Tu! — Baixou a espada. — Que estás tu a fazer aqui?
— Estou a cozinhar um peixe — disse o rapaz sem cabelo. — Quereis um pouco?
— O que eu queria dizer é: como foi que chegaste aqui? Roubaste um cavalo?
— Vim numa carroça, com um homem que trazia carneiros para o castelo, para a mesa do senhor de Vaufreixo.
— Bom, então é melhor ires ver se ele já se foi embora, ou arranjares outra carroça. Não te quero aqui.
— Não me podeis obrigar a ir — disse o rapaz, impertinente. — Fartei‐me daquela estalagem.
— Não quero mais insolências vindas de ti — avisou Dunk. — Devia atirar‐te agora mesmo para cima do cavalo e levar‐te para casa.
— Teríeis de viajar até Porto Real — disse o rapaz. — Perderíeis o torneio.
Porto Real. Por um momento, Dunk perguntou a si próprio se estariam a troçar dele, mas o rapaz não tinha maneira de saber que ele nascera também em Porto Real. Outro desgraçado do Fundo das Pulgas, é o mais certo, e quem pode censurá-lo por querer sair daquele lugar?
Sentiu‐se um tolo por estar ali em pé de espada na mão por causa de um órfão de oito anos. Embainhou‐a, fitando o rapaz com olhos furiosos, para que ele soubesse que não toleraria disparates. Devia dar-lhe pelo menos uma boa sova, pensou, mas o miúdo tinha um ar tão digno de dó que não conseguiu convencer‐se a bater‐lhe. Deitou uma olhadela ao acampamento. A fogueira ardia alegremente no interior dum círculo de pedras bem feito. Os cavalos tinham sido escovados, e havia roupa pendurada do ulmeiro, a secar por cima das chamas.
— Que está aquilo a fazer ali?
— Lavei‐as — disse o rapaz. — E tratei dos cavalos, fiz a fogueira, e apanhei este peixe. Teria montado o vosso pavilhão mas não encontrei nenhum.
— O meu pavilhão está ali. — Dunk fez um gesto largo com a mão por cima da cabeça, indicando os ramos do grande ulmeiro que se erguia por cima deles.
— Isso é uma árvore — disse o rapaz, nada impressionado.
— É todo o pavilhão de que um verdadeiro cavaleiro precisa. Prefiro dormir sob as estrelas do que numa tenda fumarenta qualquer.
— E se chover?
— A árvore abriga‐me.
— As árvores deixam passar água.
Dunk soltou uma gargalhada.
— É verdade. Bem, em boa verdade, falta‐me o dinheiro para um pavilhão. E é melhor virares esse peixe, senão vai ficar queimado por baixo e cru na parte de cima. Nunca darias um ajudante de cozinha.
— Dava se quisesse — disse o rapaz, mas virou o peixe.
— Que te aconteceu ao cabelo? — perguntou‐lhe Dunk.
— Os meistres raparam‐no. — De súbito constrangido, o rapaz puxou para cima o capuz do seu manto castanho‐escuro, cobrindo a cabeça. Dunk ouvira dizer que às vezes faziam isso, para tratar piolhos, vermes ou certas doenças. — Estás doente?
— Não — disse o rapaz. — Qual é o vosso nome?
— Dunk — disse ele.
O desgraçado do rapaz soltou uma gargalhada sonora, como se aquela fosse a coisa mais engraçada que já tinha ouvido.
— Dunk? — disse. — Sor Dunk? Isso não é nome para um cavaleiro. É diminutivo de Duncan?
Seria? O velho chamava‐lhe simplesmente Dunk desde que se lembrava, e não se lembrava de muito da sua vida anterior.
— Sim, Duncan — disse. — Sor Duncan de... — Dunk não tinha outro nome, nem uma casa; Sor Arlan encontrara‐o a viver como um animal selvagem nos lupanares e vielas do Fundo das Pulgas. Nunca conhecera nem o pai nem a mãe. O que haveria de dizer? “Sor Duncan do Fundo das Pulgas” não soava muito cavaleiresco. Podia adotar Pataqueira, mas e se lhe perguntassem onde ficava? Dunk nunca estivera em Pataqueira, e o velho tampouco falara muito do sítio. Franziu o sobrolho por um momento, e depois disse precipitadamente: — Sor Duncan, o Alto. — Ele era alto, ninguém podia pôr isso em causa, e o nome soava poderoso.
O patifório, contudo, não pareceu ser da mesma opinião.
— Nunca ouvi falar de nenhum Sor Duncan, o Alto.
— Quer dizer que conheces todos os cavaleiros dos Sete Reinos?
O rapaz fitou‐o com ousadia.
— Conheço os bons.
— Eu sou tão bom como qualquer outro. Depois do torneio, todos ficarão a saber disso. Tens nome, ladrão? O rapaz hesitou.
— Egg — disse.
Dunk não se riu. A cabeça dele realmente parece um ovo. Os rapazinhos podem ser cruéis, e os adultos também.
— Egg — disse. — Devia dar‐te uma surra valente e pôr‐te a andar, mas a verdade é que não tenho pavilhão e também não tenho escudeiro. Se jurares que fazes o que eu te disser, deixo‐te servir‐me durante o torneio. Depois disso, bem, veremos. Se decidir que vale a pena ficar contigo, terás roupa para vestir e comida para comer. A roupa pode ser de tecido grosseiro e a comida é carne salgada e peixe salgado, e se calhar alguma carne de veado de vez em quando se não houver guardas florestais por perto, mas não passarás fome. E prometo não te bater exceto quando o mereceres.
Egg sorriu.
— Sim, senhor.
— Sor — corrigiu Dunk. — Eu sou só um cavaleiro andante. — Perguntou a si próprio se o velho estaria a velar por ele. Ensinar-lhe-ei as artes da batalha, tal como me ensinastes, sor. Ele parece ser um moço capaz, pode ser que um dia dê um cavaleiro.
O peixe ainda estava um pouco cru por dentro quando o comeram, e o rapaz não tinha tirado todas as espinhas, mas mesmo assim sabia muitíssimo melhor do que carne dura e salgada.
Egg depressa adormeceu ao lado da fogueira que esmorecia. Dunk deitou‐se de costas perto dele, com as grandes mãos atrás da cabeça, a fitar o céu noturno. Conseguia ouvir música distante vinda do terreno do torneio, a quase um quilómetro de distância. Havia estrelas por todo o lado, milhares e milhares de estrelas. Uma caiu enquanto ele estava a observar, um brilhante risco verde que relampejou nas trevas e depois desapareceu.
Uma estrela cadente traz sorte àquele que a vê, pensou Dunk. Mas os outros estão agora todos nos seus pavilhões a olhar para seda em vez de céu. Portanto a sorte é só minha.
***
De manhã, acordou ao som dum galo a cantar. Egg ainda lá estava, enrolado debaixo do segundo melhor manto do velho. Bem, o rapaz não fugiu durante a noite, é um começo. Acordou‐o empurrando‐o com o pé.
— A pé. Há trabalho a fazer. — O rapaz levantou‐se com bastante rapidez, esfregando os olhos. — Ajuda‐me a selar Passo-Suave — disse‐lhe Dunk.
— Então e o pequeno‐almoço?
— Há carne salgada. Depois de acabarmos.
— Preferia comer o cavalo — disse Egg. — Sor.
— Vais comer o meu punho se não fizeres o que te disser. Vai buscar as escovas. Estão no alforge. Sim, nesse.
Juntos, escovaram a pelagem castanha‐avermelhada do palafrém, içaram a melhor sela de Sor Arlan para o seu dorso, e cingiram‐na bem. Dunk viu que Egg era um bom trabalhador quando se decidia a isso.
— Conto andar por longe durante a maior parte do dia — disse ao rapaz enquanto montava. — Tu deverás ficar aqui e pôr o acampamento em ordem. Certifica‐te de que nenhum outro ladrão vem cá meter o nariz.
— Posso ficar com uma espada para correr com eles? — perguntou Egg. Dunk viu que o rapaz tinha olhos azuis, muito escuros, quase purpúreos. De algum modo, a cabeça calva fazia com que parecessem enormes.
— Não — disse Dunk. — Uma faca basta. E é melhor que estejas aqui quando voltar, estás a ouvir‐me? Rouba‐me e foge, que eu te dou caça, juro que dou. Com cães.
— Não tendes cão nenhum — fez Egg notar.
— Arranjo alguns — disse Dunk. — Só para ti. — Virou a cabeça de Passo-Suave para o prado e afastou‐se a um trote vivo, esperando que a ameaça fosse suficiente para manter o rapaz honesto. À exceção da roupa que trazia vestida, da armadura que levava no saco e do cavalo que tinha por baixo, tudo o que Dunk possuía no mundo estava naquele acampamento. Sou um grande palerma por ter confiado no rapaz até aqui, mas isso não é mais do que o que o velho fez por mim, refletiu. A Mãe deve ter-mo enviado para que possa pagar a minha dívida.
Quando atravessou o campo, ouviu o retinir de martelos vindo da margem do rio, onde carpinteiros estavam a enfiar pregos em barreiras para justas e a construir uma bancada elevada. Alguns pavilhões novos também se estavam a erguer, enquanto os cavaleiros que tinham chegado mais cedo recuperavam, dormindo das pândegas da noite anterior, ou se sentavam para quebrar os jejuns. Dunk sentia o cheiro do fumo de lenha e também de bacon.
A norte do prado fluía o rio Ameijoeiro, afluente do poderoso Vago. Depois do estreito vau ficava a vila e o castelo. Dunk vira muitas vilas francas durante as suas viagens com o velho. Aquela era mais bonita do que a maioria; as casas caiadas com os seus telhados de colmo tinham um aspeto convidativo. Quando era mais pequeno, costumava perguntar a si próprio como seria viver num lugar assim; dormir todas as noites com um telhado por cima da cabeça, e acordar todas as manhãs com as mesmas paredes enroladas à nossa volta. Pode ser que saiba em breve. Sim, e o Egg também. Podia acontecer. Acontecem coisas mais estranhas todos os dias.
O Castelo de Vaufreixo era uma estrutura de pedra construída em forma de triângulo, com torres redondas a erguerem‐se a uma altura de nove metros em cada ponta e muralhas ameadas a correr entre elas. Estandartes cor de laranja esvoaçavam das ameias, ostentando o símbolo branco do sol e asna do seu senhor. Homens de armas em uniformes brancos e cor de laranja estavam ao portão com alabardas, observando as pessoas que iam e vinham, parecendo mais concentrados em trocar gracejos com uma leiteira bonita do que em impedir a entrada fosse de quem fosse. Dunk puxou as rédeas ao cavalo à frente do homem baixo e barbudo que tomou pelo capitão e interrogou‐o a respeito do mestre dos jogos.
— Quem procurais é Plummer, o intendente de cá. Eu levo‐vos lá.
No pátio, um moço de estrebaria ficou‐lhe com Passo-Suave. Dunk pôs ao ombro o escudo riscado de Sor Arlan e seguiu o capitão da guarda pelas traseiras dos estábulos até um torreão construído num ângulo da muralha exterior. Íngremes degraus de pedra levavam ao adarve.
— Vindes inscrever o nome do vosso amo na liça? — perguntou o capitão enquanto subiam.
— É o meu próprio nome que venho inscrever.
— Ah sim?
Estaria o homem com um sorrisinho no rosto? Dunk não tinha a certeza.
— É aquela porta ali. Deixo‐vos com os vossos afazeres e vou voltar para o meu posto.
Quando Dunk abriu a porta, o intendente estava sentado a uma mesa de montar, a esgravatar com uma pena num bocado de pergaminho. Tinha um cabelo grisalho que se ia tornando ralo e uma cara estreita e encovada.
— Sim? — disse, olhando para cima. — Que quereis, homem? Dunk fechou a porta.
— Sois Plummer, o intendente? Vim para o torneio. Para entrar na liça.
Plummer contraiu os lábios.
— O torneio do meu senhor é uma competição para cavaleiros. Sois um cavaleiro?
Dunk anuiu, perguntando a si próprio se teria as orelhas vermelhas. — Um cavaleiro com um nome, talvez?
— Dunk. — Porque dissera aquilo? — Sor Duncan. O Alto.
— E de onde podereis ser, Sor Duncan, o Alto?
— De toda a parte. Fui escudeiro de Sor Arlan de Pataqueira desde os meus cinco ou seis anos. Este escudo é dele. — Mostrou‐o ao intendente. — Ele vinha para o torneio, mas apanhou um resfriado e morreu, portanto vim eu no seu lugar. Ele armou‐me cavaleiro antes de falecer, com a própria espada. — Dunk desembainhou a espada e pousou‐a na gasta mesa de madeira entre os dois.
O mestre da liça não deitou à arma mais do que um relance.
— É uma espada, com certeza. No entanto, nunca ouvi falar desse Arlan de Pataqueira. Dizeis que fostes seu escudeiro?
— Ele sempre disse que queria que eu fosse cavaleiro, como ele era. Quando estava a morrer, pediu a espada e disse‐me para ajoelhar. Tocou‐me uma vez no ombro direito e uma vez no esquerdo e disse algumas palavras, e quando me levantei disse que eu era um cavaleiro.
— Humpf. — O homem chamado Plummer esfregou o nariz. — Qualquer cavaleiro pode armar um cavaleiro, é verdade, embora seja mais costumeiro fazer‐se uma vigília e ser‐se ungido por um septão antes de prestar juramento. Houve alguma testemunha da vossa cerimónia?
— Só um pisco, em cima dum espinheiro. Ouvi‐o enquanto o velho estava a dizer as palavras. Ele encarregou‐me de ser um bom e verdadeiro cavaleiro, de obedecer aos sete deuses, de defender os fracos e os inocentes, de servir fielmente o meu senhor e de proteger o reino com todas as minhas forças, e eu jurei que o faria.
— Sem dúvida. — Dunk não conseguiu evitar reparar que Plummer não se dignava a chamar‐lhe sor. — Terei de consultar o Lorde Ashford. Sereis vós ou o vosso falecido amo conhecidos de algum dos bons cavaleiros aqui reunidos?
Dunk pensou por um momento.
— Havia um pavilhão que mostrava a bandeira da Casa Dondarrion? A preta com um relâmpago púrpura?
— Esse há de ser Sor Manfred, dessa Casa.
— Sor Arlan serviu o senhor seu pai em Dorne, há três anos. Sor Manfred talvez se lembre de mim.
— Aconselhar‐vos‐ia a falar com ele. Se ele quiser atestar a vossa identidade, trazei‐o cá convosco amanhã, a esta hora.
— Como quiserdes, s’nhor. — E dirigiu‐se para a porta.
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