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I

A ponte

Dez dias depois do fim da guerra, a minha irmã Laura atirou-se de uma ponte com o seu carro. A ponte estava a ser reparada: ela atravessou diretamente o sinal de Perigo. O carro caiu na ravina de uma altura de trinta metros, esmagando as copas das árvores, cobertas de folhas novas, depois irrompeu em chamas e rebolou para dentro do pequeno ribeiro que existia ao fundo. Pedaços da ponte caíram sobre ele. Não restou muito de Laura, além de fragmentos carbonizados.

Fui informada do acidente por um polícia: o carro era meu, e encontraram-me através da matrícula. O seu tom foi respeitoso: sem dúvida, reconhecera o apelido Richard. Disse que os pneus podiam ter ficado presos numa linha de elétrico ou que talvez os travões tivessem falhado, mas também se sentiu compelido a informar-me que duas testemunhas — um advogado aposentado e um caixa bancário, pessoas de confiança — afirmavam ter visto tudo. Diziam que Laura tinha virado o carro abrupta e deliberadamente e saltara da ponte com a mesma naturalidade com que se desce de um passeio. Tinham reparado nas suas mãos sobre o volante, devido às luvas brancas que usava.

Não foram os travões, pensei. Ela tinha as suas razões. Não que alguma vez fossem as mesmas de outra pessoa qualquer. Ela era com- pletamente desumana nesse aspeto.

— Calculo que queira que alguém a vá identificar — disse. — Irei assim que puder.

Conseguia ouvir a calma na minha própria voz, como se estivesse à distância. Na verdade, mal conseguia emitir as palavras; tinha a boca dormente, todo o rosto rígido de dor. Sentia-me como se tivesse ido ao dentista. Estava furiosa com Laura por aquilo que ela tinha feito, mas também com o polícia por ter dado a entender que ela o fizera. Um vento quente soprava em redor da minha cabeça, madeixas do meu cabelo erguendo-se e rodopiando, como tinta entornada em água.

— Receio que vá haver uma averiguação, senhora Griffen — disse ele.

— Naturalmente — respondi. — Mas foi um acidente. A minha irmã nunca foi uma boa condutora.

Conseguia imaginar a forma oval e suave do rosto de Laura, o carrapito muito bem preso, o vestido que ela traria: cintado, com uma pequena gola redonda, de uma cor sóbria — azul-marinho, cinzento aço ou verde corredor de hospital. Cores penitenciais — mais como algo em que tivesse sido trancada, do que algo que escolhera vestir. O seu meio-sorriso solene; a elevação espantada das suas sobrancelhas, como se estivesse a admirar a paisagem.

As luvas brancas: um gesto à Pôncio Pilatos. Ela estava a lavar as mãos de mim. De todos nós.

O que estaria ela a pensar enquanto o carro planava para fora da ponte, ficando depois suspenso sob a luz da tarde, cintilando como uma libelinha, naquele instante de prender a respiração antes do mergulho? Em Alex, em Richard, em má-fé, no nosso pai e no seu afundamento; em Deus, talvez, e no acordo que fizera com ele, fatal e triangular. Ou na pilha de cadernos baratos que devia ter escondido nessa mesma manhã na gaveta da cómoda onde eu guardava as minhas meias, sabendo que seria eu a encontrá-los.

Livro: "O Assassino Cego"

Autor: Margareth Atwood

Editora: Bertrand Editora

Data de lançamento: 16 de abril de 2026

Preço: € 22,90

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Quando o polícia se foi embora subi ao andar de cima com o intuito de mudar de roupa. Para ir à morgue precisaria de luvas e de um chapéu com um véu. Algo para cobrir os olhos. Podia haver jornalistas. Teria de chamar um táxi. Devia também avisar Richard, ligar-lhe para o escritório: ele iria querer ter preparada uma declaração de pesar. Entrei no quarto: iria precisar de negro e de um lenço.

Abri a gaveta, vi os cadernos. Desatei o fio de cozinha que os prendia. Reparei que estava a bater os dentes e que me sentia gelada. Devo estar em estado de choque, decidi.

Do que me lembrei nesse momento foi de Reenie, de quando éramos pequenas. Era Reenie quem fazia os curativos dos arranhões, cortes e ferimentos menores: a mamã podia estar a descansar, ou a fazer boas ações noutro lado qualquer, mas Reenie estava sempre lá. Pegava em nós e sentava-nos no balcão de esmalte branco da cozinha, ao lado da massa de tarte que estava a preparar ou da galinha que estava a cortar ou do peixe que estava a arranjar, e dava-nos um torrão de açúcar castanho para nos convencer a fechar a boca. Diz-me onde te dói, dizia ela. Pára de gritar. Acalma-te e mostra-me onde é.

Mas algumas pessoas não conseguem dizer onde lhes dói. Não conseguem acalmar-se. Nunca conseguem parar de gritar.

The Toronto Star, 26 de maio de 1945

QUESTÕES LEVANTADAS EM MORTE NA CIDADE

EXCLUSIVO PARA O STAR

Uma averiguação do médico-legista resultou num veredicto de morte acidental para a fatalidade da semana passada na St. Clair Avenue. A menina Laura Chase, de 25 anos, viajava para oeste na tarde do dia 18 de maio quando o seu carro guinou e atravessou as barreiras que protegiam um local em obras na ponte, despenhando-se na ravina e incendiando-se. A menina Chase teve morte imediata. A sua irmã, a senhora Richard E. Griffen, esposa do eminente industrial, apresentou evidências de que a menina Chase sofria de fortes dores de cabeça que lhe afetavam a visão. Em resposta ao interrogatório, negou qualquer possibilidade de embriaguez, uma vez que a menina Chase não bebia.

É opinião da Polícia que o facto de um dos pneus ter ficado preso numa linha de elétrico exposta terá sido também um fator contributivo. Foram levantadas dúvidas quanto à adequação das medidas de segurança tomadas pela Câmara, mas, após testemunho especializado do engenheiro da Câmara, Gordon Perkins, estas foram afastadas.

O acidente ocasionou protestos renovados sobre o estado das linhas de elétrico neste troço de estrada. O senhor Herb T. Jolliffe, representante dos contribuintes locais, disse aos jornalistas do Star que este não era o primeiro contratempo causado pelas linhas negligenciadas. O Conselho Municipal deveria tomar isto em consideração.

O Assassino Cego. Por Laura Chase. Reingold, Jaynes & Moreau, Nova Iorque, 1947

Prólogo: Plantas Perenes para Jardins de Rochas

Ela tem uma única fotografia dele. Enfiou-a num envelope castanho em que escrevera Recortes e escondeu o envelope entre as páginas de Plantas Perenes para Jardins de Rochas, onde ninguém o procuraria.

Preservou esta fotografia cuidadosamente, porque é praticamente tudo o que lhe resta dele. É a preto-e-branco, tirada por uma daquelas máquinas volumosas e pesadas de antes da guerra, com a objetiva em forma de acordeão e um estojo de cabedal muito bem feito que parece um focinho, com correias e fivelas complicadas. Trata-se de um retrato dos dois juntos, ela e este homem, num piquenique. Está escrito piquenique na parte de trás, a lápis — não o nome dele ou o dela, apenas piquenique. Ela sabe os nomes, não precisa de os escrever.

Estão sentados debaixo de uma árvore; podia ser uma macieira, ela não reparara muito na árvore na altura. Ela veste uma blusa branca com as mangas enroladas até aos cotovelos e uma saia larga presa debaixo dos joelhos. Devia estar uma brisa, por causa da forma como a saia está a esvoaçar contra ela; ou talvez não estivesse a esvoaçar, talvez estivesse colada; talvez estivesse calor. Estava calor. Ao pousar a mão sobre a fotografia, consegue ainda sentir o calor que dela emana, como o calor que uma pedra aquecida pelo sol emana ainda à meia-noite.

O homem usa um chapéu claro, inclinado para a frente, ocultando-lhe parcialmente o rosto. Este parece estar mais bronzeado que o dela. Ela está meio voltada para ele, a sorrir como nunca mais voltou a sorrir para alguém desde então. Parece muito jovem na fotografia, demasiado jovem, apesar de na altura ela não se considerar demasiado jovem. Ele também está a sorrir — a brancura dos dentes realça-se como a chama de um fósforo — mas tem a mão erguida, como que para se defender dela na brincadeira, ou para se proteger da máquina fotográfica, da pessoa que devia estar ali, a tirar o retrato; ou para se proteger daqueles que no futuro poderiam olhar para ele, que poderiam olhar para ele através desta janela quadrada e iluminada de papel lustroso. Como que para se proteger dela. Como que para a proteger. Na sua mão estendida e protetora está a ponta de um cigarro.

Ela vai buscar o envelope castanho quando está sozinha e retira a fotografia de entre os recortes de jornal. Pousa-a sobre a mesa e olha para ela, como se estivesse a espreitar para dentro de um poço ou de um charco: procura alguma coisa por trás do seu reflexo, alguma coisa que deve ter deixado cair ou perdido, que se encontra fora de alcance mas ainda visível, tremeluzindo como uma joia na areia. Examina cada pormenor. Os dedos dele, pálidos devido ao flash ou à luz do Sol; as pregas das suas roupas; as folhas da árvore e as pequenas formas redondas penduradas nela — seriam maçãs, afinal de contas? A relva maltratada em primeiro plano. A relva estava amarela porque o tempo estava seco.

Num dos lados — passando despercebida à primeira vista — há uma mão, cortada pela margem, decepada pelo pulso, pousada na relva como que abandonada. Deixada à sua própria sorte.

Os vestígios de nuvens dispersas no céu brilhante, como gelado espalhado sobre cromo. Os dedos dele, manchados de fumo. O brilho distante da água. Tudo afogado, agora.

Afogado, mas brilhando.

II

O Assassino Cego: o ovo cozido

O que vai ser, então?, pergunta ele. Casacos de cerimónia e romance, ou naufrágios numa costa árida? Podes escolher: selvas, ilhas tropicais, montanhas. Ou outra dimensão do espaço: é aquilo em que sou melhor.

Outra dimensão do espaço? Oh, francamente!

Não gozes, é uma localização útil. Aí, pode acontecer tudo o que quiseres. Naves espaciais e fatos colados ao corpo, armas de raios, marcianos com o corpo de lulas gigantes, esse tipo de coisas.

Escolhe tu, diz ela. Tu é que és o profissional. Que tal um deserto? Sempre quis visitar um deserto. Com um oásis, claro. Algumas tamareiras seria agradável. Ela está a tirar a côdea da sua sanduíche. Não gosta das côdeas.

Não há grande margem de ação num deserto. Não há muita coisa, a menos que se adicionem uns túmulos. Assim podíamos ter um bando de mulheres nuas, mortas há três mil anos, com silhuetas flexíveis e curvilíneas, lábios vermelhos como rubi, cabelos azuis numa nuvem de caracóis emaranhados e olhos como poços repletos de cobras. Mas não me parece que conseguisse impingir-te isso. O tétrico não é o teu estilo.

Nunca se sabe. Eu podia gostar delas.

Duvido. São para as massas. Muito populares para as capas, no entanto: enrolam-se à volta de um tipo, têm de ser afastadas com as coronhas das espingardas.

Posso ter outra dimensão do espaço e também os túmulos e as mulheres mortas, por favor?

Esse pedido é quase impossível, mas vou ver o que posso fazer. Posso acrescentar também algumas virgens sacrificiais, com peitorais de metal, pulseiras de prata nos tornozelos e vestes diáfanas. E uma matilha de lobos esfaimados, extra.

Preferes os casacos de cerimónia? Barcos de cruzeiro, lençóis bran- cos, beijos nos pulsos e conversas hipócritas?

Não. Está bem. Faz o que achares melhor.

Um cigarro?

Ela diz que não com a cabeça. Ele acende o seu, riscando o fósforo na unha do polegar.

Ainda te queimas?, pergunta ela.

"É Desta Que Leio Isto"

"É Desta Que Leio Isto" é um grupo de leitura promovido pela MadreMedia. Lançado em maio de 2020, foi criado com o propósito de incentivar a leitura e a discussão à volta dos livros.

Já folheámos as páginas de livros de autores como Luís Sepúlveda, George Orwell, José Saramago, Dulce Maria Cardoso, Harper Lee, Valter Hugo Mãe, Gabriel García Marquez, Vladimir Nabokov, Afonso Reis Cabral, Philip Roth, Chimamanda Ngozi Adichie, Jonathan Franzen, Isabel Lucas, Milan Kundera, Joan Didion, Eça de Queiroz e Patricia Highsmith, sempre com a presença de convidados especiais que nos ajudam à discussão, interpretação, troca de ideias e, sobretudo, proporcionam boas conversas.

Ao longo da história do nosso clube, já tivemos o privilégio de contar nomes como Teolinda Gersão, Afonso Cruz, Tânia Ganho, Filipe Melo e Juan Cavia, Kalaf Epalanga, Maria do Rosário Pedreira, Inês Maria Meneses, José Luís Peixoto, João Tordo e Álvaro Laborinho Lúcio, que falaram sobre as suas ou outras obras.

Para além dos encontros mensais para discussão de obras literárias, o clube conta com um grupo no Facebook, com mais de 2500 membros, que visa fomentar a troca de ideias à volta dos livros, dos seus autores e da escrita e histórias que nos apaixonam.

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Nunca aconteceu.

Ela olha para a manga enrolada da camisa dele, branca ou azul-clara, depois para o pulso, para a pele mais escura da mão. Ele emite um brilho, deve ser o reflexo do sol. Porque é que não está toda a gente a olhar? Ainda assim, ele dá demasiado nas vistas para estar aqui — ao ar livre. Há outras pessoas à volta, sentadas na relva ou deitadas, apoiadas no cotovelo — outras pessoas a fazer piqueniques, com as suas roupas claras de verão. É tudo muito respeitável. Ainda assim, ela sente que eles os dois estão sozinhos, como se a macieira sob a qual estão sentados não fosse uma árvore, mas sim uma tenda; como se houvesse uma linha desenhada com giz à volta deles. Dentro desta linha, são invisíveis.

Então é o espaço, diz ele. Com túmulos e virgens e lobos; mas às prestações. Concordas?

Prestações?

Sabes, como a mobília.

Ela ri-se.

Não, estou a falar a sério. Não podes ser sovina, isto pode demorar vários dias. Temos de nos encontrar novamente.

Ela hesita. Muito bem, diz. Se eu puder. Se conseguir.

Ótimo, diz ele. Agora tenho de pensar. Ele mantém a voz num tom casual. Demasiada urgência pode fazê-la desconfiar.

No Planeta... vejamos. Saturno não, é demasiado próximo. No Planeta Zycron, localizado noutra dimensão do espaço, há uma planície pedregosa. A norte fica o oceano, que é de cor violeta. A oeste há uma cadeia de montanhas, que se diz ser percorrida depois do pôr do sol por vorazes mortas-vivas, habitantes dos antigos túmulos que lá existem. Vês, pus os túmulos logo no princípio.

Muito consciencioso da tua parte, diz ela.

Cumpro sempre a minha palavra. A sul há um deserto de areia ardente, e a leste vários vales íngremes que podem em tempos ter sido rios.

Suponho que sejam canais, como em Marte?

Oh, canais e todo o tipo de coisas. Vestígios abundantes de uma civilização antiga e em tempos altamente desenvolvida, apesar de esta região ser agora habitada apenas por alguns bandos errantes de nómadas primitivos. No meio da planície há um grande monte de pedras. A terra em seu redor é árida, com alguns arbustos raquíticos. Não é exatamente um deserto, mas anda lá perto.

Ainda há sanduíches de queijo?

Ela remexe no saco de papel. Não, diz, mas há um ovo cozido. Ela nunca tinha sido tão feliz. Tudo é novamente fresco, ainda por representar.

Precisamente o que o médico me receitou, diz ele. Uma garrafa de limonada, um ovo cozido e Tu. Rola o ovo entre as palmas das mãos, partindo a casca, depois retira-a. Ela observa-lhe a boca, o queixo, os dentes.

Além de mim a cantar no jardim público, diz ela. Aqui tens o sal. Obrigado. Lembraste-te de tudo.

A planície árida não pertence a ninguém, continua ele. Ou melhor, é reclamada por cinco tribos diferentes, nenhuma delas suficientemente forte para aniquilar as outras. Todas passam por esta pilha de pedras de tempos a tempos, pastoreando os seus rebanhos de thulks — criaturas azuis, semelhantes a ovelhas, com um temperamento terrível — ou transportando mercadorias de pouco valor nos seus animais de carga, uma espécie de camelo com três olhos.

A pilha de pedras designa-se, nas suas várias línguas, O Antro das Serpentes Voadoras, A Pilha de Pedras, A Casa das Mães em Pranto, A Porta do Esquecimento e O Poço dos Ossos Roídos. Todas as tribos contam uma história semelhante sobre ela. Sob as pedras, dizem, está enterrado um rei — um rei sem nome. Não apenas o rei, mas os restos da cidade magnificente que este rei governou em tempos. A cidade foi destruída numa batalha e o rei, capturado e enforcado numa tamareira em sinal de triunfo. Ao nascer da lua foi retirado e enterrado, e as pedras foram empilhadas para assinalar o local. Quanto aos outros habitantes da cidade, foram todos mortos. Cruelmente assassinados: homens, mulheres, crianças, bebés, até os animais. Passados a fio de espada, cortados em pedaços. Nenhuma criatura viva foi poupada.

Isso é horrível.

Enfia uma pá no chão, praticamente em qualquer lugar, e uma coisa horrível ou outra virá à luz do dia. Isso é bom para o comércio, nós medramos nos ossos; sem eles não haveria histórias. Ainda há limonada?

Não, diz ela. Já a bebemos toda. Continua.

O verdadeiro nome da cidade foi apagado da memória pelos conquistadores, e é por isso — dizem os contadores de histórias — que o local é agora conhecido apenas pelo nome da sua própria destruição. A pilha de pedras marca assim tanto um ato de recordação deliberada, como um ato de esquecimento deliberado. Eles gostam do paradoxo, naquela região. Cada uma das cinco tribos afirma ter sido o atacante vitorioso. Todas recordam a carnificina com prazer. Todas acreditam que ela foi ordenada pelo seu próprio deus como uma vingança justa, por causa das práticas profanas levadas a cabo na cidade. O mal deve ser limpo com sangue, dizem. Nesse dia o sangue correu como água, portanto depois deve ter ficado tudo muito limpo.

Todos os pastores ou mercadores que passam adicionam uma pedra à pilha. É uma tradição antiga — fazem-no em lembrança dos mortos, dos seus próprios mortos —, mas uma vez que ninguém sabe quem são realmente os mortos debaixo da pilha de pedras, todos deixam as suas pelo sim, pelo não. Contornam a questão dizendo que o que aconteceu ali deve ter sido a vontade do seu deus e, ao deixarem uma pedra, estão a honrar esta vontade.

Há também uma história que afirma que a cidade não foi na realidade destruída. Em vez disso, através de um feitiço que só o rei conhecia, a cidade e os seus habitantes foram removidos e substituídos por fantasmas de si próprios, e terão sido apenas estes fantasmas que foram queimados e chacinados. A verdadeira cidade terá sido reduzida até ficar muito pequena, e colocada numa caverna por baixo da grande pilha de pedras. Tudo o que lá existiu em tempos existe ainda, incluindo os palácios e os jardins repletos de árvores e flores; incluindo as pessoas, do tamanho de formigas, mas vivendo as suas vidas como antes: vestindo as suas roupas minúsculas, dando os seus banquetes minúsculos, contando as suas histórias minúsculas, cantando as suas canções minúsculas.

O rei sabe o que aconteceu e isso provoca-lhe pesadelos, mas o resto dos habitantes não sabe. Não sabem que se tornaram tão pequenos. Não sabem que se supõe que estejam mortos. Nem sequer sabem que foram salvos. Para eles, o teto de rocha parece o céu: a luz entra através de um pequeno orifício entre as pedras, e eles pensam que é o sol.

As folhas da macieira sussurram. Ela olha para o céu, depois para o relógio. Tenho frio, diz. E estou atrasada. Não te importas de tratar do lixo? Ela reúne as cascas do ovo, amachuca o papel das sanduíches.

Decerto que não há pressa? Não está frio aqui.

Há uma brisa vinda da água, diz ela. O vento deve ter mudado de direção. Inclina-se para a frente, preparando-se para se pôr de pé.

Não vás ainda, diz ele, demasiado depressa.

Tenho de ir. Vão andar à minha procura. Se me atrasar, vão querer saber onde estive.

Ela alisa a saia, cruza os braços sobre o peito, volta-se, as pequenas maçãs verdes observando-a como olhos.

The Globe and Mail, 4 de junho de 1947

GRIFFEN ENCONTRADO EM BARCO À VELA

EXCLUSIVO PARA O THE GLOBE AND MAIL

Após uma inexplicável ausência durante vários dias, o corpo do industrial Richard E. Griffen, de quarenta e sete anos, de quem se dizia ser o favorito do Partido Conservador Progressivo para as eleições no distrito de St. David em Toronto, foi descoberto perto da sua residência de verão, «Avilion», em Port Ticonderoga, onde estava de férias. O senhor Griffen foi encontrado morto no seu barco à vela, o Water Nixie, que estava atracado no seu cais particular no rio Jogues. Aparentemente, sofreu uma hemorragia cerebral. A Polícia informa que não há suspeitas de crime.

O senhor Griffen tinha uma carreira notável, à cabeça de um império comercial que abarcava muitas áreas, incluindo têxteis, vestuário e iluminação, e fora louvado pelos seus esforços no fornecimento às tropas Aliadas, durante a guerra, de partes de fardas e componentes para armas. Era um participante frequente nas Conferências de Pugwash e uma figura importante do Empire Club e do Granite Club. Era um jogador de golfe entusiasta e uma figura bem conhecida no Royal Canadian Yacht Club.

O primeiro-ministro, contactado por telefone na sua residência privada de «Kingsmere», comentou: «O senhor Griffen era um dos homens mais notáveis deste país. Sentiremos profundamente a sua perda.»

O senhor Griffen era cunhado da falecida Laura Chase, que fez a sua estreia póstuma como romancista esta primavera. Sobreviveram-lhe a sua irmã, a senhora Winifred (Griffen) Prior, conhecida figura da nossa sociedade, e a esposa, a senhora Iris (Chase) Griffen, assim como uma filha de dez anos, Aimee. O funeral terá lugar em Toronto, na igreja de São Simão o Apóstolo, na quarta-feira.

O Assassino Cego: O banco de jardim

Porque existiam pessoas em Zycron? Quero dizer, seres humanos como nós. Se é outra dimensão do espaço, não deviam os habitantes ser lagartos falantes, ou outra coisa qualquer?

Só nos romances baratos. Isso é tudo inventado. Na verdade foi assim: a Terra foi colonizada pelos Zycronitas, que desenvolveram a capacidade de viajar entre as dimensões do espaço, num tempo vários milénios depois daquele de que estamos a falar. Chegaram aqui há oito mil anos. Trouxeram com eles muitas sementes, razão pela qual temos maçãs e laranjas, para não falar nas bananas — basta uma pessoa olhar para uma banana para perceber que veio do espaço. Trouxeram também animais: cavalos e cães e cabras e por aí fora. Foram os construtores da Atlântida. Depois rebentaram consigo próprios por serem demasiado espertos. Nós descendemos dos retardatários.

Oh, diz ela. Isso explica tudo. Que conveniente para ti.

Serve, em caso de necessidade. Quanto às outras peculiaridades de Zycron, tem sete mares, cinco luas e três sóis, de diferentes intensidades e cores.

Que cores? Chocolate, baunilha e morango?

Não estás a levar-me a sério.

Desculpa. Ela inclina a cabeça na direção dele. Agora estou a ouvir, vês?

Ele diz: Antes da sua destruição, dizia-se que a cidade — vamos referir-nos a ela pelo seu antigo nome, Sakiel-Norn, que pode ser aproximadamente traduzido como A Pérola do Destino — era a maravilha do mundo. Mesmo aqueles que afirmam terem sido os seus antepassados a destruí-la têm grande prazer em descrever a sua beleza. Nascentes naturais tinham sido desviadas de forma a correrem através das fontes esculpidas, nos pátios cobertos de azulejos e nos jardins dos seus inúmeros palácios. As flores abundavam e o ar estava cheio de pássaros a cantar. Havia planícies luxuriantes nas proximidades, onde pastavam manadas de gordos gnarr, e pomares, bosques e florestas de árvores altas, que ainda não tinham sido abatidas por mercadores ou queimadas por inimigos rancorosos. As ravinas secas eram nessa altura rios; deles partiam canais que irrigavam os campos em volta da cidade, e o solo era tão rico que se dizia que as espigas dos cereais tinham mais de sete centímetros de diâmetro.

Os aristocratas de Sakiel-Norn chamavam-se Snilfards. Eram hábeis a trabalhar o metal e inventores de engenhosos aparelhos mecânicos, cujos segredos guardavam ciosamente. Por esta altura tinham já inventado o relógio, a besta e a bomba de água manual, apesar de ainda não terem chegado ao motor de combustão interna e usarem ainda animais para os transportes.

Os homens Snilfards usavam máscaras de malha de platina, que acompanhavam os movimentos dos seus rostos, mas que serviam para esconder as suas verdadeiras emoções. As mulheres velavam os rostos com um tecido semelhante à seda, feito a partir dos casulos da traça chaz. Cobrir o rosto, se não se fosse Snilfard, era um crime punível com a morte, uma vez que a inacessibilidade e o subterfúgio estavam reservados à nobreza. Os Snilfards vestiam-se luxuosamente, eram grandes conhecedores de música e tocavam vários instrumentos para demonstrar o seu bom gosto e habilidade. Deleitavam-se com as intrigas da corte, davam festas esplêndidas e apaixonavam-se de forma elaborada pelas mulheres uns dos outros. Faziam-se duelos devido a estas ligações, embora fosse mais aceitável para um marido fingir que não sabia.

Os pequenos proprietários, servos e escravos chamavam-se Ygnirods. Vestiam túnicas cinzentas e coçadas que deixavam um ombro de fora, e um seio também, no caso das mulheres, que eram — escusado será dizer — peças de caça para os homens Snilfard. Os Ygnirods ressentiam-se da sua sorte na vida, mas ocultavam-no sob um disfarce de estupidez. De vez em quando encenavam uma revolta, que era implacavelmente reprimida. Os mais inferiores entre eles eram os escravos, que podiam ser comprados e negociados, e também mortos à vontade. Eram proibidos por lei de ler, mas tinham códigos secretos que traçavam na areia com pedras. Os Snilfards usavam-nos para puxar os arados.

Se um Snilfard falisse, podia ser despromovido para Ygnirod. Ou podia evitar esse destino vendendo a mulher e os filhos para resgatar a sua dívida. Era muito mais raro um Ygnirod atingir o estatuto de Snilfard, uma vez que o caminho ascendente é geralmente mais árduo que o caminho descendente: ainda que conseguisse amealhar o dinheiro necessário e adquirir uma noiva Snilfard para si ou para o seu filho, havia sempre implícito um certo suborno, e podia levar algum tempo até ser aceite pela sociedade Snilfard.

Parece-me que isto é o teu bolchevismo a vir ao de cima, diz ela. Sabia que acabarias por lá ir dar, mais cedo ou mais tarde.

Pelo contrário. A cultura que descrevo é baseada na antiga Mesopotâmia. Está no Código de Hamurábi, nas leis dos Hititas, e por aí fora. Ou pelo menos em parte. A parte dos véus, pelo menos, e de vender a esposa. Podia recitar-te o texto exato.

Não me recites nada hoje, por favor, diz ela. Não tenho forças para isso, estou demasiado mole. Estou a definhar.

É agosto, o calor é excessivo. A humidade flutua sobre eles numa neblina invisível. Quatro da tarde, a luz é como manteiga derretida. Estão sentados num banco de jardim, não muito próximos; um ácer com folhas gastas sobre eles, terra estalada debaixo dos seus pés, relva ressequida à sua volta. Uma migalha de pão bicada pelos pardais, papéis amachucados. Não é uma zona muito bonita. Um bebedouro a pingar; três crianças sujas, uma rapariga e dois rapazes de calções, conspiram ao seu lado.

O vestido dela é amarelo pálido; tem os braços nus do cotovelo para baixo, cobertos por finos pelos claros. Tirou as luvas de algo- dão, amachucou-as numa bola, com mãos nervosas. Ele não se importa com o seu nervosismo; gosta de pensar que já lhe está a custar alguma coisa. Ela traz um chapéu de palha, redondo como o de uma menina de escola; o cabelo está preso atrás, uma madeixa húmida escapando-se. As pessoas costumavam cortar madeixas de cabelo, guardá-las, usá-las em medalhões; ou, se fossem homens, junto ao coração. Ele nunca tinha percebido porquê, até agora.

Onde é que devias estar?, pergunta ele.

Às compras. Olha o meu saco de compras. Comprei umas meias; são muito boas — da melhor seda. Usá-las é como não usar nada.

Ela sorri um pouco. Só tenho quinze minutos.

Ela deixou cair uma luva, está perto dos seus pés. Ele está de olho nela. Se ela se for embora e a esquecer, vai reclamá-la para si. Cheirá-la, na ausência dela.

Quando posso ver-te?, pergunta ele. A brisa quente agita as folhas, a luz passa por entre elas, há pólen em redor dela, numa nuvem dourada. Pó, na verdade.

Estás a ver-me agora, diz ela.

Não sejas assim, diz ele. Diz-me quando. A pele no decote em V do seu vestido brilha, sob uma camada fina de suor.

Ainda não sei, diz ela. Olha por cima do ombro, perscruta o jardim. Não há ninguém à vista, diz ele. Ninguém que conheças.

Nunca se sabe quando pode haver, diz ela. Nunca se sabe quem conhecemos.

Devias arranjar um cão, diz ele.

Ela ri-se.

Um cão? Porquê?

Terias uma desculpa. Podias levá-lo a passear. A mim e ao cão.

O cão teria ciúmes de ti, diz ela. E tu pensarias que eu gostava mais do cão.

Mas não gostarias mais do cão, diz ele. Pois não? Ela abre mais os olhos.

Porque não?

Ele diz:

Os cães não falam.

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