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Durante décadas, a maternidade foi apresentada como um destino inevitável e desejável para as mulheres. “Ser mãe é quase o epítome da felicidade”, sublinhou Catarina Martins, apontando para a forma como este ideal foi construído social e culturalmente. A psicóloga defende que existe uma expectativa coletiva de que a realização feminina passa, necessariamente, por ter filhos, uma ideia que nem sempre corresponde à realidade.

Segundo a especialista, o chamado “instinto maternal” não é universal nem puramente biológico. “É também uma construção cultural”, afirmou, acrescentando que muitas mulheres enfrentam julgamento quando expressam o desejo de não serem mães.

Esse julgamento foi sentido na primeira pessoa por Joana Gonçalves. “Nunca quis ser mãe”, afirmou, explicando que essa decisão não está relacionada com o facto de ter tido cancro. “Não acho que a felicidade esteja ligada ao facto de ser mãe. Não é preciso um filho para ser completa enquanto mulher”, disse.

Ainda assim, Joana reconhece a exigência do papel. “Ser mãe é extraordinário, mas é também o papel mais difícil. É preciso ser uma mulher extraordinária para ser uma mãe extraordinária”, considerou.

Para Catarina Martins, o aumento do número de mulheres que optam por não ter filhos pode estar ligado a uma maior liberdade individual. “Hoje temos mais espaço para perceber o que realmente queremos. Muitas decisões de não maternidade vêm de um lugar muito consciente”, explicou. Acrescenta ainda que pessoas com maior autoconhecimento tendem a tomar decisões mais alinhadas com as suas capacidades e limitações, sobretudo tendo em conta que a parentalidade é uma fase emocionalmente exigente.

Apesar disso, a pressão social mantém-se. Joana relata que o desejo da família, especialmente da mãe, de ter um neto foi uma constante. “Dizem que é uma decisão egoísta. Eu acho o contrário: egoísta seria ter um filho sem o querer verdadeiramente”, afirmou.

A psicóloga alerta que muitas mulheres seguem o caminho da maternidade sem o questionar, o que pode ter consequências. “Na prática clínica, vejo que isso nem sempre resulta bem. Pode estar na origem de situações como depressão pós-parto”, referiu.

A decisão de ter — ou não ter — filhos pode também afetar relações amorosas. “É um tema complexo e profundo. Quando existe no casal essa diferença, a rutura é uma possibilidade, mas não a única. Um casal para continuar junto é conversar sobre.", explicou Catarina Martins, apontando a terapia como um espaço seguro para abordar estas diferenças.

Por outro lado, Joana destaca que a ausência de filhos permite ao casal investir mais na relação. “Olhamos mais um para o outro. Aproveitamos para viajar e viver a dois”, disse.

Outro ponto abordado foi a ideia de que os filhos garantem companhia na velhice. Ambas rejeitam essa visão. “Não é uma garantia. O que conta é a qualidade das relações que construímos ao longo da vida”, afirmou Catarina. Joana reforça: “Não devemos colocar a nossa felicidade futura nos filhos.”

A discussão tocou ainda em desigualdades no mercado de trabalho. Para Joana, a maternidade continua a penalizar as mulheres profissionalmente. “Há uma fase em que se perde o ritmo da empresa e depois é difícil recuperar”, disse, acrescentando que é irrealista exigir que as mulheres consigam “chegar a tudo”.

A apresentadora e atriz, Jessica Athayde, corrobora essa versão: "Eu costumo dizer que não sou a mãe que quero, nem a profissional que quero, porque é impossível equilibrar as duas coisas".

Também os mitos associados à não maternidade foram contestados. “Não há uma fórmula para a felicidade”, lembrou Catarina Martins. “Essas ideias servem muitas vezes para semear culpa.”

Para mudar mentalidades, ambas defendem mais espaço para o debate público. “Falar sobre isto é fundamental”, disse a psicóloga.

No final, a mensagem é clara: a escolha deve ser individual e respeitada. “Enquanto mulheres, merecemos viver a nossa verdade”, afirmou Catarina Martins. Joana Gonçalves conclui de forma simples: “A vida é muito curta. Escolham o que vos faz feliz.”

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