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A sexualidade continua a ser um tema envolto em constrangimento para muitas famílias, apesar de ser uma dimensão central do desenvolvimento humano. "Porque é que é tão constrangedor?”, questiona Tânia Graça, explicando que a ideia de uma “grande conversa” única pode, aliás, ser um dos principais obstáculos, pois falar de sexualidade deve ser um processo contínuo, ajustado à idade e ao desenvolvimento da criança.
Desde cedo, a educação sexual começa com gestos simples. Nomear corretamente os genitais e ensinar que “o corpo é seu” são passos fundamentais, não só para o autoconhecimento, mas também para a prevenção da violência sexual. À medida que as crianças crescem, surgem mais perguntas, e com elas, a necessidade de respostas mais completas e adequadas.
A exploração do corpo faz parte deste processo natural, embora continue a ser marcada por desigualdades de género. “Há uma permissividade social muito maior para os rapazes”, explica Tânia Graça, contrastando com mensagens frequentemente dirigidas às raparigas, como “fecha as pernas” ou “não mexas aí”. Esta diferença reflete-se nos dados, visto que há mais mulheres que nunca se masturbaram do que homens.
Com a chegada da puberdade, entram em cena temas mais complexos, como o consentimento. Um dos exemplos usados no podcast, conhecido como “o exemplo do chá”, ajuda a simplificar o conceito: "Perguntas a uma pessoa 'Queres chá?' e se a pessoa disser “Sim”, tu fazes o chá, se disser 'Não', não fazes o chá, se a pessoa disser 'Não sei bem', esperas mais um bocadinho". A psicóloga e sexóloga sublinha também que “ceder não é consentir. Se há pressão, não é consentimento”.
Ainda assim, muitos pais sentem dificuldade em abordar estas questões. Como refere Jessica Athayde, existe uma tensão entre querer ser próximo dos filhos e manter uma certa autoridade. No entanto, a forma como os adultos comunicam e o que transmitem através da observação e da imitação tem um impacto profundo.
Questões como orientação sexual e identidade de género fazem igualmente parte da educação sexual. "A observação, imitação são das formas mais poderosas para educar", refere Tânia Graça, esclarecendo que a orientação diz respeito a por quem uma pessoa se sente atraída, enquanto identidade de género se refere ao género com que se identifica, sendo essencial para promover compreensão e inclusão. A falta de informação e os preconceitos podem dificultar este processo, sobretudo quando os jovens não correspondem às normas sociais.
Segundo a Ordem dos Psicólogos Portugueses, pessoas homossexuais ou bissexuais têm maior probabilidade de ideação suicida, não pela sua orientação, mas pela falta de aceitação. “Aceitação e apoio são fundamentais para a saúde mental”, reforça Tânia Graça.
O ambiente digital tem aqui também um papel importante: o acesso precoce à pornografia, muitas vezes sem qualquer controlo efetivo de idade, levanta preocupações. A série "Adolescência" ilustra bem esta realidade, a ideia de que estar “no quarto” significa estar seguro nem sempre corresponde à verdade.
Também o sexting (troca de mensagens íntimas) levanta questões delicadas. Mais do que proibir, a psicóloga defende a importância de criar relações de confiança. “Sem crítica”, sublinha Tânia. Uma reação negativa pode fechar a porta ao diálogo. Ao mesmo tempo, é essencial alertar para os riscos, como a partilha não consentida de imagens, muitas vezes em grupos online. "Tens grupos de Telegram gigantes onde se fazem partilhas de conteúdos sexuais não consentidas", afirma Tânia Graça.
A escola tem aqui um papel complementar. A educação sexual formal, baseada em evidência científica, permite colmatar lacunas que muitas famílias não conseguem preencher. Ainda assim, a convidada do podcast considera que os pais não se podem demitir deste papel.
Curiosamente, os dados indicam que a geração Z está a iniciar a vida sexual mais tarde do que as anteriores. O maior acesso à informação e a digitalização das relações, onde o contacto virtual substitui, por vezes, o físico, contribuem para escolhas mais conscientes.
Tânia Graça acaba o episódio com alguns conselhos, tais como a procura de ajuda para pais e jovens que se sintam perdidos neste processo, já que procurar ajuda especializada pode fazer a diferença — "fica bem dizer que informação é poder, consciência e permite escolhas informadas e sexualidades mais felizes".
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