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"Eu queria ser mãe." Foi assim que Maria Botelho Moniz resumiu um desejo que a acompanhou desde jovem, mas que acabou por ser adiado pelas circunstâncias da vida. No podcast "Não fica bem falar de", promovido pela Wells, a apresentadora recordou que sempre imaginou cumprir um percurso tradicional: "Vou tirar o meu curso, vou começar a trabalhar, depois vou conhecer o príncipe encantado e depois vou ter imensos bebés."

Contudo, um acontecimento alterou completamente esse plano. "Fiquei viúva, por assim dizer, aos 29 anos. Depois passei muitos anos sozinha porque estava a fazer o meu luto", contou. Só aos 36 anos, quando conheceu o atual companheiro, voltou a pensar em ser mãe. "Os meus timings foram todos ao lado daquilo que tinha planeado."

A partir desse momento começou o percurso de fertilidade, marcado, desde logo, pelo desconforto com a expressão "gravidez geriátrica".

"É aí que começa a real luta", disse, acrescentando que considera o termo "altamente ofensivo". Mais tarde, voltou ao tema: "Estão-me a chamar velha com 35 anos. Digam só que é uma gravidez de risco ou que é mais difícil. O 'geriátrico' traz um peso muito grande."

"Devemos planear a fertilidade. Cada vez temos mais armas para isso"

Miguel Raimundo, médico especialista em fertilidade, defendeu que a mensagem não deve passar por impor um prazo às mulheres para engravidarem, mas sim por promover o planeamento da fertilidade.

"Nenhum médico deve dizer: 'Tem de engravidar antes dos 35 anos'. Não devemos criar barreiras", afirmou.

O especialista reconheceu que a fertilidade diminui com a idade, sobretudo nas mulheres, explicando que "a seguir aos 38 anos há um decréscimo mais significativo" da probabilidade de gravidez. Ainda assim, sublinhou que "cada mulher e cada casal têm o seu momento" e que atualmente existem estratégias que permitem preservar a fertilidade.

"Devemos planear a fertilidade. Cada vez temos mais armas para isso", disse, apontando o congelamento de óvulos como uma das principais opções disponíveis.

Maria Botelho Moniz foi perentória: "É a primeira coisa que digo às minhas amigas. Vais querer ter filhos? Congela."

Segundo Miguel Raimundo, "é muito mais seguro para a mulher congelar os óvulos e planear a sua fertilidade do que não fazer nada", acrescentando que o procedimento deve ser realizado "quanto mais cedo, melhor", idealmente antes dos 30 anos, uma vez que a qualidade dos óvulos diminui com a idade.

Um processo "emocionalmente difícil"

A apresentadora revelou que "infelizmente" só percebeu mais tarde que haveria aqui um problema qualquer. "Como adiei tanto tempo por causa de tudo aquilo que aconteceu na minha vida, soube tarde que ia ser difícil engravidar."

Sem um diagnóstico claro, iniciou tratamentos de fertilidade, descrevendo a incerteza como uma das partes mais difíceis do processo.

"Eu preciso de um plano, de um Excel, de um mapa. Quando não tens uma resposta, é muito stressante."

Maria Botelho Moniz contou ainda que passou por estimulação ovárica, tratamentos hormonais e fertilização in vitro, confessando que o impacto físico foi significativo.

"Engordei dez quilos. Inchei loucamente. Tinha desejos de grávida sem estar grávida. O meu corpo... eu olhava para mim e pensava: 'Isto não sou eu'."

Apesar das dificuldades, o processo terminou com sucesso. "Conseguimos retirar 12 óvulos. Foram fertilizados sete ou oito e ficaram cinco embriões. O Vicente foi o primeiro."

Miguel Raimundo lembrou, contudo, que estes números não significam uma gravidez garantida. "As pessoas pensam: 'Tenho 12 óvulos, vou ter 12 bebés'. Isto não é nada disso. Começamos com os óvulos, depois nem todos fecundam e nem todos os embriões chegam ao estádio adequado."

O médico acrescentou que as taxas de sucesso da fertilização in vitro rondam "os 30 a 40%" e que existem vários obstáculos ao longo do processo, desde a idade à qualidade dos gâmetas, passando pelas barreiras emocionais e financeiras.

"Nem todas as pessoas conseguem pagar quatro ou cinco mil euros por uma fertilização in vitro", salientou.

"Não temos de ter vergonha"

Ao longo da conversa, Maria Botelho Moniz apelou ainda a uma maior abertura para falar sobre infertilidade e tratamentos de reprodução medicamente assistida.

"Há muitas pessoas que vivem com essa pressão e com essa vergonha de não conseguir sozinhas e precisar de ajuda."

A apresentadora defendeu que recorrer à medicina não deve ser motivo de estigma. "Não temos de ter vergonha de precisar de ajuda. Se eu cortar um dedo preciso de ajuda. Se tiver um problema cardíaco também. Não consigo ter filhos com tanta facilidade e não tenho vergonha nenhuma. Há médicos extraordinários que nos podem ajudar."

Para Miguel Raimundo, a principal mensagem que deve ficar é a importância de falar sobre fertilidade antes de surgirem dificuldades. "Na nossa geração ensinaram-nos estratégias para não engravidar. Agora devemos ensinar estratégias para planear a fertilidade."

Jéssica Athayde encerrou a conversa e deixou uma reflexão dirigida às gerações mais novas: "Gostava de ter tido esta conversa quando tinha 20 anos".

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