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A decisão de ter filhos raramente acontece num momento perfeito. Entre carreiras, relações e projetos pessoais, muitas mulheres adiam a maternidade. Exatamente por isso, a atriz Diana Nicolau decidiu congelar os óvulos aos 38 anos, uma escolha que descreve como um “seguro”, embora sem garantias.
“Nunca quis muito ser mãe, sempre fui adiando”, conta. O alerta surgiu numa consulta de rotina, quando a médica lhe disse que estava a aproximar-se de um limite biológico. “Fez-me sentir fora do prazo. Não senti tanto uma pressão da família, mas social e até no trabalho. Sobretudo uma pressão biológica.”
Para a ginecologista-obstetra Teresa Almeida Santos, cuidar da fertilidade deve fazer parte da saúde ao longo da vida, tal como qualquer outro cuidado médico. “É importante cuidar da fertilidade desde cedo”, explica. “O ideal para congelar óvulos, se o objetivo é assegurar uma probabilidade razoável de gravidez no futuro, é antes dos 35 anos.”
A especialista sublinha que muitas mulheres desconhecem um facto essencial: nascem com todos os óvulos que terão ao longo da vida. “Ainda antes de nascer, já perderam cerca de metade da reserva ovárica”, diz.
Essa falta de informação surpreende também Diana Nicolau. “É assustador que ninguém fale disto. Quando comecei a falar com mulheres da minha idade, muitas também não faziam ideia.”
Segundo Teresa Almeida Santos, aumentar a literacia reprodutiva passa por aproveitar momentos de contacto com o sistema de saúde, como as consultas de planeamento familiar. “Falamos muito de contraceção, mas planeamento familiar também é pensar no futuro reprodutivo.”
Um dos exames que pode ajudar nessa avaliação é a medição da hormona anti-mülleriana, que dá uma indicação da reserva ovárica. Apesar de relativamente acessível, o teste ainda não é comparticipado. “Pode ser útil fazê-lo por volta dos 25 anos, desde que exista aconselhamento médico para interpretar os resultados”, explica a médica.
No caso de Diana Nicolau, os resultados não foram animadores. “Fiz os exames e as contagens não foram espetaculares”, recorda. Foi nesse momento que decidiu avançar para o congelamento de óvulos, uma decisão que diz ter adiado por falta de informação. “Se soubesse o que sei hoje, tinha congelado aos 25 anos.”
O processo, no entanto, não foi simples. A atriz descreve uma experiência difícil na clínica onde realizou o tratamento. “É fisicamente penoso e emocionalmente exigente. Senti que havia muita gestão de expectativas que falhou.” Inicialmente, disseram-lhe que poderia congelar entre 11 e 18 óvulos. No dia da punção, o número final foi cinco.
Teresa Almeida Santos explica que essa variação é comum. “A resposta aos tratamentos depende de vários fatores, sobretudo da idade e da reserva ovárica.” Por isso, considera essencial preparar as pacientes para diferentes cenários. “Às vezes pode ser necessário repetir o processo, e isso implica custos e desgaste físico.”
O tratamento envolve estimulação hormonal e a recolha dos óvulos através de uma punção ovárica, realizada sob anestesia. “Pode provocar alterações hormonais e algum desconforto, mas é um procedimento relativamente rápido”, explica a médica.
Diana Nicolau lembra-se bem dos efeitos: “Estava mais sensível, mais irritada, inchada. O peito cresceu, tive de aprender a fazer injeções. Nunca tinha sequer manuseado uma seringa.”
Apesar das dificuldades, diz que o resultado trouxe tranquilidade. “Fiquei muito descansada com a ideia de ter os óvulos congelados. É um plano B. Não sei se algum dia os vou usar, nem se vão resultar, mas tirou-me um grande peso.”
A conversa abordou também o impacto da pílula contracetiva na perceção do ciclo menstrual. Diana Nicolau conta que, quando deixou de tomar a pílula há cerca de quatro anos, notou várias mudanças no corpo. “A libido mudou, o cheiro da transpiração mudou, houve uma série de transformações.”
Teresa Almeida Santos explica que a pílula pode mascarar alguns sinais importantes do ciclo menstrual. “Quando existem ciclos irregulares, por exemplo em jovens com síndrome do ovário poliquístico, muitas vezes prescreve-se a pílula e os ciclos passam a parecer regulares. Isso pode esconder problemas que só se tornam visíveis mais tarde, quando a mulher deixa de tomar.”
Conhecer o ciclo menstrual, sublinha a médica, é fundamental para monitorizar a saúde reprodutiva. “Dor intensa não é normal. Perdas de sangue fora da menstruação, dor durante as relações sexuais, acne severa ou crescimento excessivo de pelos podem ser sinais de que algo não está bem.”
O custo do congelamento de óvulos, que pode variar entre dois e três mil euros por ciclo, continua a ser uma barreira para muitas mulheres. Em Portugal, o Serviço Nacional de Saúde apenas assegura a congelação em casos clínicos específicos, como antes de tratamentos oncológicos.
Em países como França, a preservação da fertilidade por decisão pessoal já é comparticipada. Teresa Almeida Santos acredita que o tema merece reflexão, sobretudo num país marcado pelo envelhecimento da população e pela baixa natalidade.
“Não devemos cortar as nossas hipóteses por falta de informação”, afirma. “O relógio biológico existe e afeta a qualidade dos óvulos com a idade.”
Ainda assim, lembra que não há fórmulas mágicas para preservar a fertilidade. “Suplementos ou antioxidantes não anulam o efeito da idade. O principal determinante da qualidade dos óvulos continua a ser o tempo.”
Para Diana Nicolau, a solução passa por falar mais abertamente sobre o tema. “Partilhar informação faz toda a diferença. Não devemos esperar pela pessoa certa para começar a pensar na fertilidade.”
Teresa Almeida Santos concorda: “Falar do ciclo menstrual, da fertilidade e da infertilidade devia ser tão natural como falar de qualquer outra questão de saúde. Faz parte da vida.”
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