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Num tempo em que os modelos familiares se diversificam e as exigências sobre os pais aumentam, o debate centra-se numa pergunta simples e exigente: como educamos as crianças hoje e que impacto terão essas escolhas no futuro?
Vasco Palmeirim começa por uma confissão inesperada: nunca sonhou ser pai. Só depois de conhecer a mulher percebeu que queria construir uma família. Hoje, descreve os dois filhos como “as melhores coisas do mundo”, mesmo admitindo, com humor, que também “dão uma dor de cabeça do caraças”.
Um dos pontos mais sublinhados é o desaparecimento das redes de apoio familiares. Se antes era natural os filhos ficarem com vizinhos, tios ou avós, hoje muitos pais sentem receio de delegar cuidados a quem não segue exatamente o mesmo modelo educativo.
Para Magda Dias, esta mudança está a empobrecer a experiência das crianças e a fragilizar laços familiares. Diferenças de estilo não são necessariamente negativas. “Estamos a perder a nossa rede de apoio”, alerta.
Entre o “pai amigo” e a necessidade de impor limites
Vasco Palmeirim reconhece-se muitas vezes como o “pai amigo”, enquanto a mãe assume o papel mais estruturante. Gosta de ser o pai divertido, mas admite que educar também exige firmeza. Encontrar esse equilíbrio é um desafio constante, sobretudo quando se tenta conciliar trabalho, família e vida a dois.
“O trabalho é importante, mas a família é mais”, resume, descrevendo a parentalidade como um verdadeiro malabarismo.
A conversa aborda também a tentativa de dividir responsabilidades de forma equilibrada. A lógica do “50/50” é desejável, mas nem sempre simples de concretizar.
O apresentador fala abertamente de sentimentos menos discutidos: “Há um complexo de culpa brutal.” E admite até algum ciúme quando os filhos demonstram maior ligação à mãe, emoções que considera naturais, mas que exigem consciência e diálogo.
Essa presença deixa marcas. Vasco recorda-se de, em criança, muitas vezes só ter a mãe nas apresentações da escola e garante que não quer repetir essa ausência. Lembra, emocionado, o orgulho que sentiu ao ver o filho Tomás numa festa de final de ano. “Ele vai guardar isso na memória”, diz. Estar ali, esquecer o trabalho por umas horas, foi o mais importante para aquele miúdo.
Magda Dias traz uma perspetiva tranquilizadora sobre os “pequenos traumas” da infância. Crescer implica frustração, perceber que os pais não são perfeitos e começar a pensar por conta própria. Desde que não sejam grandes traumas, essas experiências permitem corrigir, fazer diferente e evoluir. “A parentalidade é melhoria contínua”, resume. Querer ser melhor do que os nossos pais não é um problema, é parte do processo.
Por que continua a carga mental a pesar mais sobre as mães?
Magda Dias explica que esta desigualdade tem raízes históricas. Durante décadas, cuidar da casa e dos filhos era visto como função exclusiva da mulher. Mesmo hoje, expressões como “ele ajuda” revelam que o cuidado continua a ser percebido como responsabilidade feminina.
“Construímos a nossa realidade através das palavras”, defende. A mudança começa no discurso: deixar de falar em ajuda e passar a falar em corresponsabilidade.
Não se trata de instinto maternal, acrescenta, mas de papéis sociais aprendidos e, por isso, passíveis de transformação.
A diversidade familiar também entrou na conversa. Questionado sobre se já teve de explicar aos filhos a existência de pais do mesmo sexo, Vasco responde que ainda não, mas já surgiram perguntas sobre divórcios, temas que obrigam a adaptar a linguagem e a explicar realidades diferentes.
Já Jéssica Athayde partilhou uma situação concreta: o filho perguntou porque é que uns colegas tinham “duas mães”. A explicação foi simples e natural. A reação da criança? “Que sorte. Por que é que eles têm duas mães e eu só tenho uma?”
Para Magda Dias, estas famílias mostram precisamente que educar não tem género. “Nós é que complicamos.” Hoje existem menos famílias tradicionais no sentido clássico e isso faz parte da evolução social.
Ainda assim, sublinha a especialista, a presença paterna em famílias heterossexuais continua a ter um papel relevante, sobretudo na prevenção de comportamentos de risco, quando exercida de forma consciente e próxima.
Educar é decidir todos os dias em conjunto.
Em casa, Vasco Palmeirim garante que as decisões são partilhadas: desde atividades extracurriculares até às rotinas. “Temos uma comunicação muito forte”, afirma. Nada é imposto unilateralmente e os filhos também são envolvidos nas escolhas.
Apesar de ter dois rapazes, rejeita a ideia de uma educação diferente baseada no género. Não há telemóveis nem iPads; privilegiam-se momentos em família, jogos e imaginação. O mais novo, por exemplo, prefere pintar. “Mais do que educar rapazes, é perceber o que queremos, e o que não queremos, para eles.”
Magda Dias concorda: educar é formar pessoas, não “meninos” ou “meninas”. Cada criança tem características próprias e o essencial é desenvolver autonomia, responsabilidade e caráter.
Irmãos, a relação de amor-ódio
A importância de crescer com irmãos também foi destacada. É uma experiência profundamente diferente, diz Magda Dias, porque nenhum filho sabe o que é ser o outro, o mais velho nunca foi o mais novo e vice-versa.
O segundo filho reage inevitavelmente ao espaço já ocupado pelo primeiro e aprende desde cedo que não é o centro do mundo. A relação entre irmãos traz aprendizagem, conflito e negociação.
Muitas vezes, acrescenta, os conflitos não nascem das personalidades das crianças, mas da forma como os pais os gerem.
Vasco Palmeirim identifica aí um dos maiores desafios da parentalidade: encontrar equilíbrio entre dois filhos diferentes, garantindo que ambos se sentem vistos e valorizados. “Às vezes é preciso intervir para que percebam que este equilíbrio também dá trabalho.”.
Pais mais informados, mas também mais inseguros
Se hoje há mais acesso a conhecimento sobre educação, também há mais dúvidas. “Há muita confusão. Muitos pais perguntam-se constantemente se estão a tomar a decisão certa”, observa Magda Dias.
O excesso de informação pode gerar insegurança e dificultar a afirmação de uma autoridade tranquila. No entanto, lembra a formadora, uma figura de autoridade não é sinónimo de rigidez, traz segurança e proteção. Quando os adultos se mostram demasiado inseguros, essa instabilidade acaba por passar para os filhos.
As redes sociais, admite, amplificam esse fenómeno. “Confundem imenso, imenso, imenso.” Ver soluções rápidas ou frases feitas não substitui experiência, coerência e reflexão diária. Não basta dizer “sê firme”; é preciso saber como agir, inclusive quando a criança chora perante um limite imposto.
No encerramento da conversa, surge a pergunta inevitável: o que é que fica bem dizer sobre parentalidade?
O radialista responde, "é um trabalho muito mais difícil do que se imagina". O conselho que deixa é claro, "não colocar exigência excessiva sobre si próprios nem sobre os filhos".
Magda Dias acrescenta uma ideia que resume toda a discussão: "a parentalidade é sobre os pais". É um processo de autoconhecimento, de revisão de padrões e de crescimento pessoal.
Entre os muitos mitos que persistem, um dos mais comuns é o de que “mãe é mãe” e basta por si só. Para a especialista, essa visão é redutora. Nem só a mãe, nem só o pai: retirar qualquer uma das figuras deixa marca. Educar é, inevitavelmente, um trabalho de relação.
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