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“Hoje não me apetece.” A frase parece simples, mas, para muitas mulheres, continua carregada de culpa, insegurança e dúvidas sobre a relação ou sobre si próprias. Foi precisamente essa pressão associada ao desejo sexual feminino que esteve no centro de uma conversa que contou com a participação da apresentadora Ana Markl, conhecida pelo podcast “Voz de Cama” da Antena 3, e da sexóloga Mafalda Cruz.
Para a especialista, a falta de desejo nem sempre representa uma disfunção sexual. “Na maioria dos casos não é um problema, é uma diferença de níveis de desejo”, explicou. A especialista sublinhou que muitas mulheres associam automaticamente a ausência de vontade sexual a uma falha pessoal ou amorosa, muitas vezes imputadas pelo homem.
Segundo a psicóloga, fatores hormonais, cansaço, stress, falta de comunicação e pressão emocional têm um impacto direto na sexualidade feminina. “A pressão é inimiga do desejo”, resumiu, defendendo que o contexto é essencial para a intimidade. “É preciso criar disponibilidade, tempo, descanso. As mulheres vivem constantemente sob pressão”.
A conversa abordou também a forma como a sexualidade feminina continua historicamente centrada numa narrativa “falocêntrica”. Mafalda Cruz referiu que muitas mulheres só conseguem viver o prazer de forma mais plena quando conhecem melhor o próprio corpo e deixam de ver o sexo apenas como penetração. “Há mais prazer quando existe uma estimulação mais adequada e quando as mulheres conhecem o seu corpo”, afirmou.
Outro dos pontos discutidos foi o fingimento do orgasmo. Mafalda Cruz considerou que esta prática “não joga a favor de ninguém”, embora reconheça que muitas mulheres o fazem para evitar ferir o ego do parceiro ou simplesmente para terminar o momento. “A curto prazo parece funcionar, mas a longo prazo terá implicações importantes para o casal.”, alertou.
Já Ana Markl chamou a atenção para a necessidade de as mulheres falarem mais abertamente sobre prazer e masturbação feminina. “É essencial para viver plenamente a sexualidade”, afirmou. Mafalda Cruz concordou, defendendo a importância de validar essa experiência para que “as meninas e mulheres não sintam culpa”.
A sexóloga explicou ainda que desejo, libido, prazer e excitação não são exatamente a mesma coisa. “Quando falamos em libido, falamos mais de uma componente hormonal e biológica”, disse, acrescentando que homens e mulheres respondem a estímulos diferentes. “Os homens tendem a ser mais visuais. As mulheres precisam de outro tipo de estímulos.”
Ao longo da conversa, foram também abordadas as mudanças no desejo sexual ao longo da vida. Mafalda Cruz lembrou que o desejo “vai mudando” e que isso não significa necessariamente um problema. “Nas mulheres acima dos 60 anos, quase 70% afirmam ter baixo desejo sexual. E isso nem sempre é vivido como um problema”, referiu.
Ana Markl apontou ainda o impacto social da menopausa na forma como as mulheres encaram a sexualidade. “Venderam-nos a ideia de que a vida sexual acaba depois da menopausa”, afirmou, contrapondo que muitas mulheres acabam precisamente por se descobrir sexualmente mais tarde, sobretudo após divórcios ou mudanças de vida.
A maternidade e o impacto dos filhos na intimidade do casal também foram tema de discussão. “No pós-parto só queres dormir”, comentou Ana Markl, enquanto Mafalda Cruz descreveu esta fase como uma transformação profunda da identidade do casal. “Não fica morta a relação sexual. É uma fase”, garantiu.
Apesar das dificuldades, ambas defenderam que o sexo não é o único indicador de felicidade numa relação. “Há muitos casais felizes sem sexo”, afirmou Mafalda Cruz. “Os relacionamentos fazem-se de muitas outras coisas.”
Ana Markl reforçou a ideia de que o essencial é a intimidade emocional. “O imprescindível é a cumplicidade, a vulnerabilidade. O sexo pode vir como consequência disso.”
No final, Mafalda Cruz deixou uma mensagem de desdramatização em torno da libido. “O desejo sexual varia ao longo da vida e muitas vezes reflete apenas aquilo que se está a passar à nossa volta. Não significa automaticamente que exista um problema.”
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