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Sentada à conversa com a atriz Jéssica Athayde, Ana Bispo Ramires começa por sublinhar que a saúde mental “é um conceito muito abrangente” e que continua a ser mais discutida pela ausência, quando algo falha, do que pela promoção. “Devia ser vista como um músculo, que precisa de ser ativado e trabalhado todos os dias”, defende.
Uma das principais mensagens do episódio passa pela distinção entre burnout e depressão.
A depressão, explica a psicóloga, tem critérios clínicos específicos e exige a presença de sintomas durante pelo menos duas semanas, como tristeza persistente, apatia e desencanto generalizado com a vida. “Não está circunscrita a uma situação”, sublinha, acrescentando que frequentemente requer intervenção psicofarmacológica. “Temos de entender isso como uma necessidade”, afirma, comparando a toma de medicação ao recurso a um especialista noutras áreas da medicina.
Já o burnout surge tradicionalmente associado ao contexto laboral. Resulta de pressões prolongadas que conduzem à exaustão física, mental e emocional. “Se retirarmos a pessoa do contexto de desgaste, a energia pode ser recuperada. Na depressão não é bem assim”, distingue. Ainda assim, alerta que hoje o esgotamento já não se limita ao trabalho: “A vida pessoal pode canibalizar tanta ou mais energia do que a vida profissional.”
Quanto à ansiedade, Ana Bispo Ramires descreve-a como um fenómeno com forte componente biológica. Estudos indicam que quem tem histórico familiar apresenta maior probabilidade de desenvolver traços ansiosos. Mas o contexto também pesa: “Vivemos num cenário de incerteza constante. O ser humano não foi preparado para navegar na incerteza.”
Recordando o período da pandemia, a psicóloga destaca o aumento das respostas de ansiedade e do consumo de psicofármacos, bem como de comportamentos de “escape” para regular emoções. Ainda assim, deixa um aviso claro: “A ansiedade é uma emoção. Se não a tivermos, há algo de errado. O importante é perceber o que a está a ativar.”
O stress, explica, é uma resposta a exigências percebidas como superiores aos recursos disponíveis. Quando se torna crónico, pode evoluir para quadros mais graves. Entre os primeiros sinais de alerta está a perturbação do sono. “Ninguém sobrevive sem dormir”, lembra.
A especialista aponta também o impacto da hiperestimulação digital. “A partir das 20h, tudo o que seja tecnologia devia ficar à entrada de casa”, sugere, defendendo a redução de estímulos para permitir que o cérebro desacelere antes do sono. Caso contrário, a ativação constante da amígdala, estrutura cerebral ligada à sobrevivência, mantém o organismo em estado de alerta.
Questionada sobre se o burnout afeta mais mulheres, a psicóloga evita generalizações estatísticas, mas reconhece que muitas acumulam múltiplos papéis - profissionais, mães, cuidadoras - num contexto laboral que continua a exigir que “provem mais”. A falta de literacia emocional em Portugal agrava o problema. “Não temos uma cultura de educação emocional. Só quando as pessoas chegam à psicoterapia é que começam a fazer ligações.”
Três pilares para prevenir o esgotamento
Para prevenir ou recuperar de um burnout, Ana Bispo Ramires aponta três pilares essenciais: exercício físico, alimentação equilibrada e sono de qualidade. “São fundamentais para tudo na vida.” A par disso, defende momentos diários de auto-observação. “Cinco ou dez minutos para perguntar: como me estou a sentir? Com energia ou exausta?”
A recuperação passa também por perceber “por onde está a fugir a energia” e por questionar crenças disfuncionais, como a ideia de que é preciso dar “250%” para merecer reconhecimento. “É uma mudança de estilo de vida. Não há um único motivo, mas é preciso mudar algumas coisas.”
Ter um propósito e projetar o futuro ajuda a orientar escolhas no presente. “Se não sei que futuro quero, não consigo fazer as melhores escolhas hoje”, resume.
Cuidar de si para cuidar dos outros
No final, a psicóloga deixa uma ideia-chave: cuidar da saúde mental não é um ato egoísta, mas uma responsabilidade individual e coletiva. “A melhor forma de cuidar de quem está ao nosso lado é cuidarmos de nós.”
Porque, conclui, a saúde mental é um processo contínuo: “Quanto mais curiosos formos sobre o nosso próprio funcionamento, mais próximos estaremos do equilíbrio.”
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