Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
Alice Trewinnard, empresária e criadora de conteúdos digitais, e Ana Isabel Pedroso, médica, criadora do projeto Medicina Sem Filtros e mãe de três filhos, partilham visões complementares sobre a amamentação, entre a informação clínica e a experiência pessoal com a apresentadora Jessica Athayde, no quinto episódio, da segunda temporada do videocast da Wells.
Alice Trewinnard sempre soube que queria amamentar. Formada em Dieta e Nutrição, esse desejo fazia parte dos seus planos muito antes de engravidar. Amamentou os dois primeiros filhos e pretende fazê-lo novamente com o terceiro.
Do ponto de vista médico, Ana Isabel Pedroso recorda que a Organização Mundial da Saúde recomenda a amamentação até aos dois anos, sempre que possível. O leite materno é um alimento extremamente completo, adaptado às necessidades do bebé, fortalece o vínculo mãe-bebé e transmite proteção imunológica, ajudando a prevenir infeções respiratórias. Para a mãe, os benefícios também são significativos: a libertação de oxitocina, conhecida como a “hormona do amor”, a ajuda na recuperação do útero após o parto, o gasto calórico e o caráter profundamente fisiológico deste processo.
Ainda assim, sublinha, a amamentação não deve ser uma imposição. “As melhores mães são aquelas que se sentem bem consigo próprias”, afirma. Nem todas as mulheres podem ou querem amamentar, referindo casos de quimioterapia, toma de antidepressivos, doenças infeciosas ou simplesmente escolhas pessoais. As mulheres não são todas iguais, nem as circunstâncias são comparáveis.
Apesar de sempre ter desejado amamentar, Alice Trewinnard descreve o processo como “uma verdadeira odisseia”. Os desafios começaram logo no hospital. A teoria não prepara totalmente para a prática: a pega correta, a falta de apoio inicial e as dificuldades técnicas tornaram-se obstáculos reais. Surgiram feridas, fissuras, dor intensa, mastites (inflamação do tecido mamário) e mamilos macerados, problemas que, no seu caso, se prolongaram durante meses.
Pedir ajuda fez a diferença. Recorreu a conselheiras de amamentação e admite que, mentalmente, não estava preparada para um percurso tão exigente. A experiência acumulada entre o primeiro e o segundo filho foi determinante para lidar melhor com as dificuldades.
Ana Isabel Pedroso reforça a importância de gerir expectativas e de haver informação realista desde o início. Nos centros de saúde existem cursos de preparação para a amamentação, mas é fundamental dizer a verdade: a boa pega é difícil e aprender leva tempo.
“A certa altura, é preciso mesmo querer e aceitar passar pela dor”, admite Alice Trewinnard. Ana Isabel Pedroso partilha que, no seu caso, o início também foi muito duro. Teve o apoio de uma enfermeira e começou sem grandes certezas, com o objetivo inicial de amamentar apenas até aos seis meses. Reconhece ainda alguma pressão por parte do marido.
Ana Isabel Pedroso lembra que “nada substitui o leite materno”, mas alerta: se a mulher está em dor, isso não pode ser ignorado. Ana Isabel Pedroso sublinha a necessidade de uma abordagem multidisciplinar. Muitas mulheres chegam a este período extremamente fragilizadas, com dor física, alterações hormonais intensas e grande vulnerabilidade emocional. É uma fase delicada e, sem apoio, entra-se facilmente num ciclo de sofrimento.
Sobre a pressão social em torno da amamentação, a médica reconhece que, apesar de a fórmula nunca conseguir replicar o impacto imunológico do leite materno, a evolução tecnológica trouxe fórmulas de elevada qualidade. O leite materno está associado à redução de riscos cardiovasculares e de diabetes tipo 1, mas o estilo de vida continua a ser um fator determinante.
A possibilidade de delegar a tarefa de alimentar o bebé ao pai é também referida como uma vantagem da fórmula, permitindo maior partilha. Ainda assim, Ana Isabel Pedroso recorda que as mulheres tendem a precisar de mais descanso, sendo cerebralmente mais ativas e especialmente sobrecarregadas nesta fase.
Hoje existe mais informação e mais recursos. Alice Trewinnard recorreu a osteopatia e terapia da fala para lidar com tensões cranioencefálicas e um possível freio curto, que pode dificultar a pega. Destaca ainda o apoio do SNS, nomeadamente nos centros de saúde, com enfermeiras especializadas na preparação para o parto, e os grupos gratuitos de apoio à amamentação, como a ASA Amamentação, que reúne vários profissionais.
A relação com o corpo é outro tema sensível. Alice Trewinnard admite ter sentido pressão estética. Ana Isabel nota que, embora o mundo continue igual, a mulher sente-se diferente, e hoje fala-se mais disso do que antigamente. Não apenas por maturidade, mas porque há maior normalização do tema.
Não existem contraindicações para o exercício físico durante a amamentação, nem é necessária uma dieta especial, apenas uma alimentação equilibrada. Amamentar consome cerca de 500 a 700 quilocalorias por dia e exige energia e planeamento alimentar.
Alice Trewinnard, pela flexibilidade do seu trabalho, conseguiu gerir melhor o tempo, sem nunca deixar de trabalhar. Nunca se desligou totalmente, o que lhe permitiu alcançar um equilíbrio desde cedo. O trabalho realiza-a e ter tempo para si própria é, para ela, fundamental.
Ambas reconhecem que, antes de serem mães, tinham uma visão mais romantizada da amamentação. “Achamos que é um ato natural e, por isso, fácil”, admite a criadora de conteúdos digitais. Ana Isabel Pedroso acrescenta que nunca ouvimos verdadeiramente as histórias das nossas bisavós, apenas o silêncio.
Essa romantização contribui para o choque. Alice viveu o baby blues (fase pós-parto em que a mãe pode sentir tristeza ou melancolia) após o primeiro filho, algo que pode até interferir com a produção de leite. Ana Isabel considera que esta é uma experiência transversal: quase todas as mulheres passam por isso, mas muitas em silêncio. As consultas focam-se no bebé e sobra pouco espaço para a mãe.
Há também mitos a desconstruir. Não existe “leite fraco”: todo o leite materno é bom leite.
Alice confessa que ainda não sabe como será ter um terceiro filho, mas reconhece que a transição de zero para um é o maior abalo. É maravilhoso, mas transforma tudo.
Quando se fala em apoiar melhor as mulheres, a médica é clara: é preciso conhecimento verdadeiro, informação fidedigna e, acima de tudo, mais confiança nas mulheres e naquilo que sentem.
Na mensagem final fica vincado o não ceder à pressão. "Se quiseres amamentar, amamenta. Se não quiseres, não o faças. Se quiseres e estiveres com dificuldades, pede ajuda.", afirma Alice Trewinnard.
"A amamentação pode ser muito positiva, se for um desejo da mãe. A saúde mental é fundamental. Por isso, cuidem-se.", remata Ana Isabel Pedroso.
___
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.
Comentários